Poesia

  • O Defunto

    A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpoevitem os inúteis disfarces,os disfarces com que os vivos,só por piedade consigo,procuram apagar no Mortoo grande castigo da Morte. Não quero caixão de vernizou os ramalhetes distintos,os superfinos candelabrose as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano.Dêem-me as…

  • Sol de fantasia

    Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……

  • O lugar do espinho

    Tudo o que tem vida vive a espera: o filho no ventre, a porta entreaberta,a fuligem de tempo, ouro divino.Os dias, acesos, a cada dia esperamo homem e a expectativa dos vivos,os anos cansados no caminho.No lugar do espinho,todos os dias o mundo aguarda o reconhecimento do nada,seus milagres e suas facas;e a ressurreição…

  • ODRE DE FOGO, HERÁCLITO

    Como o fogo e os espelhos,o universo é sozinho,Heráclito. E os sonhoscomeçam a deformarfolhas de realidade. E o que o fogo devoraé só matéria, que às vezesse refaz com as chamas.E a água engolea alma. Mas nada é igual,embora o pensamentoseja incêndiona nervurade algumaprimavera. Mas o que queimaé corpo, corpo,artéria do absoluto. E o…

  • Os Viventes de Nejar

    Mitos, pessoas e animais formam o núcleo desse livro de Carlos Nejar. Sendo um escritor com acentuada consciência de seu tempo, não parece disposto a contaminar-se pelos postulados teóricos dos que falam de poesia em extinção. Portanto, não submisso ao profetismo hegeliano que no século XIX anunciou o fim da arte, tese frustrada por…