• Há um crime permanente contra o Piauí

    1 O contínuo, espavorido, ligou para mim: “Tenho um telegrama urgente para o senhor.” Sou dos tais que cultivam, até hoje, um funesto preconceito contra o telegrama. Sempre que recebo um, imagino que uma calamidade vai desabar sobre minha cabeça. E vamos e venhamos: o telegrama, até que se prove a sua intranscendência, é…

  • Pequena

    Karen Valentim Alves Acabei colocando sabão demais nas uvas verdes. Não sei dizer quanto tempo levei para ver todas as bolhas sumirem na água corrente, enquanto a criança chorava alto agarrada à barra da minha calça. É um choro que distorce o tempo. — Quer uva! Dá uva! — A mamãe tá tirando o…

  • Entrevista com Dyonélio Machado

    Edla van Steen Dyonélio Machado (1895-1985) nasceu em Quaraí, Rio Grande do Sul. Romancista, contista, médico, ensaísta e jornalista. No ano de 1935, você ganhava o Grande Prêmio de Romance Machado de Assis da Companhia Editora Nacional, pelo romance Os Ratos, juntamente com Erico Veríssimo, Marques Rebelo e João Alphonsus. Como você recebeu essa…

  • Somos todos inocentes (O. G. Rego de Carvalho)

    O jovem escritor piauiense publica seu terceiro livro de ficção, Somos todos inocentes, ainda situado no interior de seu estado. O caso de O. G. Rego é bastante curioso. Há alguns anos publicou seu livro de estreia, Ulisses entre o amor e a morte. Era uma novela e foi saudada com certo entusiasmo por…

  • O Piauí admite tudo, menos espinhas

    1 Imaginem vocês que, no dia 19 deste mês. Foi deste mês ou mês passado? Não, não. Agora me lembro: foi deste mês, sim. Portanto, no dia 19 de março, escrevi uma das minhas “Confissões” mais patéticas. Vocês leram ou, se não leram, ouviram falar no “J’accuse”, de Émile Zola. Nesta página espantosa de…

  • O bosque das mariposas

    Priscila Pereira Depois de algum tempo sentada em um tronco meio tombado, olhando para as folhas secas que se desprendiam e caíam lentamente das árvores, Vanessa notou que o sol já havia baixado e que o ocaso dava um aspecto melancólico ao bosque. Suspirou e levantou, ainda passeando os olhos pelas folhas. O caminho…

  • Vamos salvar o Piauí do seu ufanismo

    1 Estou saindo de casa. Sete e meia da manhã, vinte para as oito, por aí. Tomo o elevador e imagino: “Vou encontrar a minha vizinha.” Admirável senhora! Gorda e patusca como uma viúva machadiana, não para em casa. Na Índia, há milhões de sujeitos que nunca moraram. Vocês percebem? Milhões que jamais tiveram…

  • Língua portuguesa

    Última flor do Lácio, inculta e bela,És, a um tempo, esplendor e sepultura;Ouro nativo, que, na ganga impura,A bruta mina entre os cascalhos vela… Amo-te assim, desconhecida e obscura,Tuba de alto clangor, lira singela,Que tens o trom e o silvo da procela,E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste…

  • Thaumázein

    Gabriel Rosa Alves A menina olhava ao redor com extrema atenção e curiosidade, perguntando à mãe sobre os “quês”, os “para quês” e, mais importante, os “porquês”. Estava, particularmente, intrigada com um velho perfurador de folhas e, como a mãe não lhe desse atenção, resolveu questionar-me, mero servidor municipal, sobre o funcionamento daquele aparato.…

  • Três charutos

    A Belarmino Carneiro Três anos havia já que eu não visitava o meu amigo Eduardo da Silveira quando, uma noite, ao entrar no meu quarto, encontrei sobre o criado-mudo um cartão postal desse velho camarada que dizia o seguinte: “Por Júpiter!… Parece que estamos de relações cortadas!… Há um século que não apareces. Vem…