• Plebiscito

    Artur Azevedo A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois, um menino…

  • A América Latina, essa desconhecida

    1 O sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Digamos que ele tenha tomado uns três uísques. Bem sei que há pessoas sem nenhuma resistência. Tenho um amigo que se embriaga até com o licor do bombom. Normalmente, porém, os três uísques não derrubam ninguém, e repito: é…

  • Os Canarinhos

    Eric Malta Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou…

  • A RUA

    Cassiano Ricardo Bem sei que muitas vezes,o único remédioé adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,a dívida, o divertimento,o pedido de emprego, ou a própria alegria.A esperança é também uma formade contínuo adiamento.Sei que é preciso prestigiar a esperança,numa sala de espera.Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,esperança…

  • Os servos da morte

    Adonias Filho contribuiu de forma decisiva para uma das maiores criações ficcionais da literatura brasileira: o sertão. Adonias Filho, autor de “Os servos da morte” A cena se passa em torno da mesa. O velho cego e os quatro filhos, todos homens. A refeição é tensa. Paulino Duarte, o velho, interroga um dos filhos,…

  • Corinthians

    Nelson Rodrigues 1. Amigos, o meu personagem da semana é do Corinthians ou por outra: — o meu personagem da semana é o próprio Corinthians. Grande time, não há dúvida, de um forte, largo feitio épico. Diz-se, com justiça, que o Corinthians é uma espécie de Flamengo, assim como o Flamengo é uma espécie…

  • A Perimetral Norte

    1 Um dia, estou tomando sopa, honrada sopa, quando me ocorre o seguinte: — há quarenta e tantos anos, eu não pensava no Piauí. Vocês entendem? O Piauí é nosso, é nosso sangue, é nossa terra, e há brasileiros que nascem, vivem, envelhecem e morrem sem pensar no Piauí. Se eu fosse único, teria…

  • Um preso

    João Antônio Quando entrou na cela o carcereiro para trazer a boia, deu-me na cachola a lembrança estranha de (que doidice) saber que dia era. O homem rosnou um vinte de janeiro, com má vontade, num trejeito. Estremeci. Vinte de janeiro… dez anos que estou aqui. Nunca senti remorso do que fiz, mas hoje…

  • A costureira

    Linha, agulha, e paciência. Movimentos sem pressa, e ágeis. Mãos enrugadas, machucadas, repletas de história. E a máquina de costura em seu tique tique tique. O tecido? Velhos retalhos de camurça. Primeiro um círculo, perfeito tal capoeira, astrolábio, ou ainda uma roda de dança Tupi Guarani debaixo do céu sem fim. Um céu escuro,…

  • Rua Sabará, 400

    Lygia Fagundes Telles A empregada era a Alina, uma bonita crioula que sempre dava um jeito de arrumar uma festa. Nessa noite (Baile da Primavera) o vestido de cetim rosa-choque já estava estendido em cima da cama, tinha agora que sair galopando para fazer o penteado e comprar os brincos. Antes, renovou o leite…