Edla van Steen
Dyonélio Machado (1895-1985) nasceu em Quaraí, Rio Grande do Sul. Romancista, contista, médico, ensaísta e jornalista.
No ano de 1935, você ganhava o Grande Prêmio de Romance Machado de Assis da Companhia Editora Nacional, pelo romance Os Ratos, juntamente com Erico Veríssimo, Marques Rebelo e João Alphonsus. Como você recebeu essa láurea?
Eu estava preso, com a atenção polarizada para interesses maiores do que a obtenção dum prêmio literário. Depois, não me surpreendeu. Por uma ação imperdoável, o sigilo do concurso havia sido violado: soubera, ainda em liberdade, que meu pequeno romance granjeara simpatia, a ponto dum dos jurados, irrisoriamente ao que parece, trazer à comparação a figura de Dostoiévski. Na verdade, o julgamento já estava feito, para mim: foi quando a obscura datilógrafa, que eu não conhecia, cujo nome eu ignorava, me perguntou, ao me entregar o trabalho do seu dia: Naziazeno vai ser feliz? Não tive dúvida: era o leitor que falava. Unus solus que, já anunciei que sou. Por conseguinte, fica muito restrita a minha área de curiosidade e limitado meu desejo de saber coisas que pouco valem. O Grande Prêmio de Romance Machado de Assis veio inquinado dum feio feito: foi o quanto bastou para arrefecer meu entusiasmo. Para completar a obra, foi elogiado num artigo da imprensa local, mas sem declinar o nome do autor. Qual é o escritor que não tem sua vaidade, que por sua vez alimenta-se de ilusões? O melhor será combatê-las no início, como faz um bom médico diante duma doença grave…
Como surgiu a ideia de Os Ratos?
Penso que já contei algumas vezes como surgiu a ideia de Os Ratos: aparece aqui a minha mãe. Satisfazia com seu carinho os seus dois filhos: visitava aos domingos um, quando morava com o outro. Eu já estava terminando o curso, que a Primeira Guerra Mundial interrompera, fiel ao seu programa econômico: enriquecera mais os ricos e empobrecera ainda mais os pobres. Eu pertencia à última categoria. O domingo constituía meu dia útil por excelência: estudava. Cheguei a utilizar no estudo dezessete horas num dia de 24. Nesse domingo recebi a visita da mãe. Era um regozijo para mim. Mas ela vinha com uma notícia desagradável: tivera insônia. Pus toda uma atenção inquieta no pormenor. Ela já se queixava de uma ou outra coisa, sem maior significação. Mas a insônia, se estivesse ligada a essas queixas, me tornava um tanto apreensivo. Eu já possuía conhecimentos médicos, senão para tratar, ao menos suficientes para me alarmar. Foi um alívio quando ela confessou a causa da perda do sono: medo de que os ratos roessem um dinheiro, que nunca é de fácil aquisição…
Toda experiência humana fornece subsídios literários: até que ponto a sua atividade como médico e psiquiatra lhe forneceu material para escrever?
Como médico vali-me da profissão para criar a personagem do médico. O romance em geral não abdica desse gosto de contar no seu set com um médico pelo menos. Balzac tem um: Horácio Bichon, que ele invoca – em artigo de morte — como único capaz de salvá-lo. Paulo Barreto, em Correspondência duma Estação de Cura — belo romance, aliás —, mostra-nos um que pouco parece saber de glicosúria. Eça de Queirós abunda em facultativos; Paulo de Medeiros e Albuquerque, no seu Dicionário de Tipos e Personagens de Eça de Queirós, enumera: Gouveia, Caminha, Julião Zuzarte (tipo do mais legítimo realismo) e Carlos Eduardo da Maia, que a bem dizer não clinica. Machado de Assis destaca um notável alienista, que descobriu em todos nós “um maníaco de Atenas”. É o quanto basta, portanto, para legitimar a presença do doutor em Medicina nas intrigas da ficção. Na minha obra há também médicos, inclusive saídos alguns da ortodoxia hipocrática. Esses me deram mais trabalho, sobretudo pela nomenclatura médica. Vou citar um exemplo: chamavam laringotomia o que tratamos de traqueotomia. Naquela forma de homicídio-suicídio, que consistia em seccionar a radial, não considerei errada para os meus leitores a expressão corrente de abrir as veias. Artéria era o errado, porque não conduzia senão ar. E o que as veias deviam fornecer era o sangue, de que eram ávidos seus apreciadores… Nos meus livros não fiz psiquiatria, mas psicologia. E está mesmo muito sujeita a caução.
Um conto seu sobre a Guerra do Paraguai, publicado em 1927, mas republicado na década de 40, na Revista Globo, causou-lhe problemas com a polícia. Gostaria de falar no assunto?
Causou: experimentei mais uma prisão. De poucas horas, mas motivada por um luxo de poder. Será que, como ficcionista, não gozaria da faculdade de escolha do tema a aproveitar? Supus que tivesse. Estava aí o código penal para me punir, caso eu exorbitasse dum direito que me assistia. Mas o diabo é que o código era omisso na ocorrência. O fato é que a minha “culpa” não se enquadrava senão no arbítrio da força. Depois de algumas horas de detenção no gabinete do chefe de polícia, fui liberado. Mas a atoarda continuou: na rua e no jornal. Fui (sem que declinassem meu nome) tratado de tudo: a menor coisa que se disse de mim é que, et pour cause, desfazia dos heróis; que, enquanto os nossos lutavam na Itália, eu me repotreava nas minhas poltronas. Coisas assim ou parecidas: não guardei recortes, não me lembro bem. Quem me atacava assim achava-se, mais do que eu, na obrigação de dar seu concurso ao país em guerra; e não o fizera. Eu, aqui, ajudado por dois colegas, enfrentando uma das minhas crises cardíacas, fui convocado para inspecionar, do ponto de vista médico, os futuros pracinhas, bem como grande parte da tropa que sediava na cidade e nos arredores.
A minha idade, então já avançada para a conscrição militar, me impedia de prestar à pátria outro serviço senão passar num crivo clínico todo compatriota que se candidatava à FEB e os já incorporados à tropa e que eventualmente seguiriam o mesmo rumo. Eu revelava um rigor cansativo, mas que se apoiava nesta razão: não se entrega uma arma a quem não possua saúde bastante para protegê-la, contrariando assim os desígnios do inimigo que quer apossar-se dela. Permaneci mudo às diatribes. Como na fábula, nenhuma razão por mim invocada teria valia.
Seu primeiro livro, Política Contemporânea, era, como bem diz o título, político. Quando sentiu, de fato, vontade de escrever ficção?
Sim, a plaquete é política. E até certo ponto duma política partidária. Mas o que eu tinha em vista era traçar o aspecto político do momento: tentador aliás para quem se sente entusiasmado pela História, mesmo sem levar em conta a pequenez da tarefa. O aparecimento do livro deu-se em 1923; mas (como figura no volume) já em setembro de 1922 era publicado na imprensa diária, num número dedicado à data do centenário da nossa independência, grande parte do seu contexto. Em suma: conta com mais de 55 anos de idade minha Política Contemporânea. Isso é de meu dever ressaltar. Concordando com um grande fazedor de livros: Rien n’est plus intimement inhérent à un livre que sa date.
A data que me levou a apreciar como interessante achava-se impregnada da atmosfera ígnea da Primeira Guerra Mundial: a Grande Guerra. Como o Brasil tomara parte no drama, tornava-se obrigatório, a quem se ocupa desses assuntos, enfocar o procedimento do nosso país em função dos tremendos compromissos que ele assumia perante a nação. Eu era moço, mas bem que imaginava, já que não se brigava mais, que a questão deixada como reliquat do conflito — a paz — era de mais difícil solução. Isso está aparecendo agora em forma mitigada, seja, mas como uma constante: acabou a guerra do Egito e Israel. E os problemas da paz, não só não se acham solucionados (pelo menos até a hora em que escrevo) como prometem novas guerras.
Apesar da divergência de opiniões de pessoas habilitadas, o grande problema a resolver na época era o econômico. Não tive dificuldade em apontar o erro do governo de então: a solução econômica da paz, como pensávamos, devia cingir-se a este binômio: antes de mais nada, reduzir a despesa e fomentar a produção. O contrário foi o que se verificou. Daí resultar algo que muito enfraqueceu o poder: a ditadura financeira. Por esta amostra pode-se julgar o espírito do meu primeiro livro. Mas quero mostrar-lhe também outro aspecto, que revela igualmente a sua identidade com a hora atual: é o arbitramento. Constituiu grande conquista da República. Como faço notar no meu trabalho, o recurso ao arbitramento, toda vez que apontou o perigo duma luta armada entre países litigantes, começou como simples programa de propaganda, para depois se alçar até a realização. Pode-se assegurar que, incorporando a medida nos seus postulados constitucionais, o Brasil fundou o direito novo. Entrou pela primeira vez no nosso direito constitucional no anteprojeto de Werneck-Pestana. A Constituição o consagrou por emendas, nos anos de 1890 e 1891. Caráter obrigatório lhe quis dar esse brasileiro ilustre, que não se dignava de honrar com sua amizade um homem obscuro como eu. E, entre parênteses, quero consignar aqui a facilidade com que eu subscreveria a singela e tocante afirmação que fez na hora da morte: “Conscientemente nunca fiz mal a ninguém”. Era Nilo Peçanha. A monarquia foi por vezes adversa ao arbitramento; poderia citar casos. Mas quero falar do que mais significado histórico apresenta: foi quando rejeitou a proposta do governo uruguaio em 1864, dando lugar à declaração de guerra do Brasil, precursora do maior conflito sul-americano. Não teria explodido a Guerra do Paraguai se o governo imperial preliminarmente aceitasse a arbitragem proposta por Aguirre. Por arbitramento o Império só resolveu a “Questão Christie”. Verdade é que a questão de limites entre o Brasil e a Argentina solucionou-se definitivamente por sentença arbitral de Hauser, presidente da Confederação Helvética, de 10 de dezembro de 1900, firmado porém o tratado de arbitramento ainda na vigência do regime monárquico, a 7 de setembro de 1889. Tomei dois exemplos do nosso tempo: um já referido, o do Oriente Próximo. O outro por referir. E o do canal Beagle. Tudo como singela credencial ao meu modesto trabalho, velho de quase setenta anos. Quando senti, de fato, vontade de fazer ficção?
Lembro-me bem. Foi um tanto tardia: em plena Guerra Mundial, lá pelos anos de 1914-15. Circulava então por aqui uma folha — um tabloide de propaganda dos aliados, muito bem impresso, com clichês, noticiário farto, evidentemente importado da Europa. Os demais detalhes me escapam, pela simples razão de haver o meu grupo contraído o compromisso, de honra, de não querer saber nada mais da guerra, tanto ela consistia numa calamidade sem perspectiva de acabar. Um homem que encontrávamos com frequência andando na rua, passo curto, rápido, olhando para o chão, usava chapéu como todo o mundo fazia. Mas o dele possuía uma particularidade: era um funil. Parece que eu já buscava o drama no trivial. Fiz um conto: “O Homem do Chapéu”. Andou de mão em mão. Pelo menos serviu para dar-lhe um nome, sem o que nada existe. In principio erat verbum. Um demiurgo, está claro! Esqueci-me de dizer que a criatura portava uma coisa que tanto abominávamos: o jornal da guerra.
A escolha de contos foi porque gostava do gênero ou foi ocasional?
Bem: eu tive muito cedo a dita de ler Maupassant, Flaubert com seus Trois Contes, Machado de Assis, Paulo Barreto — com Aquela Criatura a quem Nunca Faltou Nada… Meu primeiro contato com essa coisa tão emocionante foi em Buenos Aires, numa tradução argentina, para revista. Como Balzac, João do Rio, na ficção, que era o seu forte, tratava com igual pathos o homem e a mulher. (No emprego do vocábulo sigo a lição de Bailly: pathos, ce quon éprouve.) Grande, maltratado contista brasileiro. Somente usando uns versos, sovados em língua neolatina — coisa de resto que já não existe, como também se dá com muitas suas irmãs e muito em particular com o português, que morre um pouco cada dia; somente comentando o triste destino de Paulo Barreto com uns versos, cheios esses de sabedoria prática:… non ragioniam di lor, ma guarda e passa. Creio, não sei, ter já demonstrado quanto a tônica do meu livrinho destoava da ficção. É que, com compromisso de família, era preciso agir, não poetar. Eu me tinha na conta de homem de letras, embora duma categoria bem inferior. Como sempre fui político, da política para a sociologia e a história não era muito árdua a caminhada. Por outro lado, valorizei sempre o estudo. Aconteceu comigo o que acontece com todo mundo: um dia se quer respirar. A arte é o ar que vivifica.
Você pagou a edição de Um Pobre Homem. O que aconteceu com o livro, por que não permite uma reedição?
Um Pobre Homem editei de meu bolso, como fizera com a plaquete. Nasci com a sina de não ser autor facilmente editável, não obstante haver livreiros que decerto se compadecem do meu ostracismo e me arranjam um lugar nas bancas. Visto que toda atividade é uma contradição dialética, fazem com a buchada que provocariam minhas obras um grande bem ao público ledor. Algo de altamente negativo possuo para, em regra, despertar tanta reserva, orçando até pela antipatia. Como a natureza nos deu dentes para mastigar, assim há de se presumir que a escola primária ensinou o alfabeto para se ler. Daí talvez provenha esse fugitivo interesse por um ou outro livro meu. Claro que não incluo nesse caso a simpatia e longanimidade com que me vejo tratado pelos amigos – o que tanto conforta. Muita gente há de dizer que não sou editado porque não quero. E é em parte verdadeiro. Aqui, quando no verão passado faltou um pouco de cerveja — a bebida da terra —, criou-se uma nova forma de comercializá-la: cerveja casada. Era isto: o negociante vendia a garrafa (ou a lata) de cerveja com a condição do consumidor comprar uma outra garrafa — de qualquer coisa. Dessa maneira punha em circulação mercadoria que não tinha saída. Pensei, talvez num momento de bom humor e alguma ironia, introduzir o processo nos meus livros: reedita-se um livro meu que já passou em julgado, à condição de editar também um livro novo. Parece incrível, mas vou confessar: xerocados, revisados, prontos para a impressão, possuo os seguintes romances… Mas, perdão: há uma advertência. Não estou fazendo propaganda. Nenhum editor jamais se interessou por outros livros meus senão Os Ratos, Um Pobre Homem, O Louco do Cati. Todos livros velhos. Dá a impressão de que me encontro em autêntica decadência. Mas se eles não leram os novos… Intuição, magia, senso divinatório? Já me foi negada de público a minha qualidade de escritor: é um médico que escreve, e escreve mal. Mas então esqueçam-se dos que citei, que os escrevi sob esse mal-aventurado signo, exceção feita para o livro de contos, que publiquei no quarto ano da escola.
Você se incomodaria em falar da sua infância, da casa onde cresceu, como eram seus pais?
De nenhum modo. Tanto mais que ela foi marcada por uma tragédia. Mas, para entender isso, seria preciso remontar à data em que nasci e ao lugar onde passei a infância. Sou da divisa (galicismo cedo adotado pelo gaúcho), da linha divisória entre nós e o Uruguai. O espírito que então reinava era o desse feudalismo tardio e deformado, que o latifundiário criou ali e em outras partes do Brasil. Para dar-lhe mais força, veio a Revolução Federalista — que aliás estava por acabar: eu sou de 21 de agosto de 1895 e a paz surgiu dois dias depois, a 23. Paz altamente desejada, pois não havia família que não possuísse um ente seu na luta. Para amenizar um pouco essa remembrança de morte e sangue vertido, vou aludir a um medo ingênuo da minha mãe. Eu era o primeiro filho e ela jovem. Era tal o atroar dos foguetes, dos tiros festivos lançados ao ar, celebrando o fim daquela fúria fratricida, que a mãe temeu pela integridade dos meus tímpanos… Sou infenso a memórias. Mas essa pergunta, a que estou respondendo, vem com tanta delicadeza (partindo ademais duma dama), que não atendendo o pedido pareceria que quero me incluir na falange, tão antipática, dos sujeitos difíceis. Vou portanto tratar do fato culminante da minha segunda infância: a morte do pai. Ele morreu à minha vista. Aí eu já tinha o meu irmão, mais novo do que eu três anos. Morreu em casa, na sua cama, ao longo duma noite de inverno, que não pretendia, parece, terminar, a não ser com a morte dele. O meu sofrimento era sobretudo o medo. Eu escutava a mãe dizer-lhe que ele estava morrendo; ao que o moribundo replicava: assim morre um homem. Não se pense que se tratava dum daqueles gaúchos de faca na bota: era um moço fino, contando apenas trinta e três anos de idade. Mas trazia no precórdio, sinônimo de peito esquerdo, um ferimento de punhal, não fechado ainda. O lance, verdadeiro lance cavalheiresco, pois ele de propósito se desarmara de faca e revólver para enfrentar o adversário, traçou meu tipo de conduta. Vi, na minha clínica e na minha vida ordinária, muito filho que, temendo uma influência castrativa por parte do pai, foge do seu convívio, no sentido mais amplo: chega até a um negativismo de oposição. Bem possível que tal ocorresse comigo, não fosse aquela perda prematura. Não está fora da dialética.
E a adolescência, passou-a também em Quaraí? Qual foi ou quais foram os primeiros livros que leu? Lembra-se de quando se interessou pela palavra? Seria capaz de traçar um perfil de Dyonélio Machado jovem?
A adolescência eu a dividi entre Quaraí e Porto Alegre. Lá eu atendia os meus estudos elementares e o dever de ajudar a família. Comecei vendendo bilhete de loteria na rua. Apareceu-me o nosso inimigo, que era tido como o autor do assassinato de meu pai. Não queiram passar pelo momento que passei: negociar com quem me fizera órfão era renegar uma adoração que nada abalaria. Mas trocar por dinheiro os poucos bilhetes de loteria que eu carregava, era obter meio quilo de carne. Cedi. Nossa transação se fez sem palavras. Sabia também o que me esperava em casa: era minha mãe chorando. Foi meu primeiro trabalho, e eu tinha oito anos. Fui depois balconista dum armazém, duma livraria. Quando se abriu um colégio, tendo como professor um homem trazendo grande nomeada, quis matricular-me, mas não tinha recursos. Entramos então num arreglo, como se dizia lá e que não é mais do que um gentlemen’s agreement: ele fornecia matrícula para mim e meu irmão que ainda era guri. Com a condição porém de eu tomar conta da classe dos atrasados. Daí surgiu essa tremenda deformação de ver incorreções nos outros, quando uso uma linguagem eivada de espanholismos, galicismos, calão até. Meu encargo de monitor (era como se chamava) me habilitou a ensinar português para estrangeiros. Porto Alegre atraía italianos, espanhóis, argentinos. No geral eram pessoas que aqui queriam comerciar, e lhes fazia falta uma certa familiaridade com o idioma. Aprendi muito com eles, que não sabiam vocalizar o ditongo ão. A propósito fiz um trabalho que teve uma certa divulgação na imprensa e o intitulei Psicopatologia da Língua Portuguesa. Não guardei original e, se houve recortes, abismaram-se na voragem das minhas prisões. Dois ou três alunos (porque eram adultos e não os meninos que eu explicava em Quaraí) bastavam para perfazer uma mesada, que nem sempre podiam me remeter da minha terra. Mas isso é assunto de pecúnia, e muito magra. Vamos ao que mais vale, que são as letras. No meu tempo se dizia Belas Letras. Eu achava isso bonito, e ainda acho. Agora, parece, não há lugar para elas. Quem não se arrepia de ler ou ouvir esse prosaico verso: “Ver é o supremo bem! E entretanto sem o olhar não se pode abranger o mundo — a fonte da arte”. Ou é então que a arte não se abebera das coisas do mundo, ficando apenas com um simulacro. Eu tenho uma teoria sobre o belo. Ora, quem sou para alardear uma coisa dessas? É que o Belo é Verdade – mesmo sendo feio. Vou trabalhar com casos conhecidos. Por exemplo: deveria ser medonho escutar no teatro do Globo the beast with tow back — o la betê à deux dos dos franceses. Ou estes versos do renascentista português: “Se não é per razão nunca se isso provara, que era o pão onde os achei mais alto do que esta vara”. (Cito de memória.) E a conhecidíssima e suja palavra vociferada em Waterloo. Mas tudo isso calhava no caso, a ponto de ser-lhe inerente. Médico vê a nudez da paciente, mexe-lhe as partes pudendas: mas com outros olhos, outras mãos.
Numa pequena nota publicada na Gazeta Mercantil de São Paulo, por ocasião do falecimento de Clarice Lispector, eu disse que o sexo vem animando o romance há um século: constitui uma característica de escola, aliás tremendamente combatida. A autora de A Hora da Estrela a isso não se podia furtar. A pobreza foi a tônica do romantismo — e ainda impera. Desses dois aspectos da vida de relação fez-se uma literatura de vanguarda. É uma renovação — do alfa ao ômega. Faz-me lembrar o que ocorreu há muito, muito tempo na Alexandria com Calímaco e sua escola. O próprio Ovídio, na sua fase elegíaca, sofreu-lhe a influência. Públio Ovídio Nasão, porém, encontrou um corretivo na desdita. Não é coisa que se recomende a ninguém… O primeiro livro que li… (livro que se sabe, de qualquer maneira, que é bom) foi esse calhamaço que é Os Maias. Foi o próprio autor que lhe pespegou o nome de cartapácio. E o é, na realidade. Porque — como diz Eça de Queirós a propósito dum outro livro — nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quase tudo quanto um crítico lhe deveria tirar. Há erros de localização da personagem: quando fala de sua viagem, viu Moscou, cuja originalidade destaca; noutra ocasião, declara nunca haver estado na Rússia. Confunde o nome duma Dona Maria da Cunha, que vira Dona Maria Telles. Arranja situações de momento, com uma frequência que choca. Ama a caricatura. E mil outros senões. Mas que romance maravilhoso! Os defeitos a gente acaba esquecendo ante a “intonação” (neologismo dos pintores de então), a tonalidade dominante da época que ele pinta e que dá subtítulo à obra. Talvez não seja tão romântica como se apregoa: romântico aí é o poeta que a concebeu. Eu tinha quinze anos ou pouco mais quando a li, já preparando meu voo para Porto Alegre. Devia trazer ainda também a poesia que é própria da infância. Era um cair da tarde. Com os olhos vivos do adolescente timbrava neste momento em terminar a leitura, valendo-me da claridade que ainda fazia. Estava sozinho. O crepúsculo invadia a peça (era a sala) com sua semiluz discreta e silenciosa. Tenho guardado isso nestes quase setenta anos decorridos. Muito mais tarde, quando verti para o português a Velha Chave de Amado Nervo, vi quão legítima era a magia da janela. Na do saudosista de En Voz Baja havia luz e ele se encontrava acompanhado: “… la luminosa ventana donde Inés, mi prima, y yo nos dijimos tantas cosas en las tardes misteriosas del buen tiempo que pasó…” A dificuldade da rima me levou a uma paráfrase: “… a luminosa varanda onde troquei com Inês tantas palavras sonhadas, nessas tardes encantadas que não têm segunda vez…” A minha adolescência em Porto Alegre proporcionou-me uma coisa que depois nunca mais tive: vida literária. Viera cair numa roda de rapazes, estudantes todos, e que conviviam com “gente morta”. Pelo menos, como depois vim a saber, as visitas curtas que dois primos me faziam tinham essa razão: “Vamos embora, cochichavam um para o outro, isto aqui é tudo gente morta”. Como não ia ser, se eram os simbolistas, com Baudelaire, Verlaine, Laforgue, Cruz e Souza e a caterva? E os prosadores: Gonzaga Duque, Eça de Queirós, Flaubert, Maupassant etc? Vivíamos literariamente para nós: éramos os escritores e seu público — salvo Alceu Wamosy, que cedo foi editado em oficina própria na fronteira. Como na fronteira ainda, tive, antes dos vinte anos, precária acolhida no jornal mais antigo dos que existem no Rio Grande: Gazeta de Alegrete. Mas a verdade é que estava fora de alcance a esperança de ser editado. A vida provinciana, sem nenhum dos atrativos de agora, reunia-nos nesses cenáculos que ainda podiam existir, porque a província é sempre um remanso…
Voltando à sua literatura. Como e por que se decidiu a escrever O Louco do Cati?
É muito difícil uma pessoa simples falar de si mesma. São mais as vezes que eu me nego em dar entrevistas do que em satisfazer o desejo — e o direito — do entrevistador. Mas sempre vem alguma razão que me obriga a isso. Nas obras dos outros, eu era tido como crítico sofrível. O caso é que, tratando-se de mim, não posso usar da paciência do seu leitor, senão em doses mais ou menos convencionais, como estou fazendo. Para começar, eu estava prisioneiro: dessa vez prisioneiro da cama. Rodeado de colegas bondosos, prestativos, com um eletrocardiograma, que afinava pelo que eu sentia. Numa situação destas é muito fácil se desesperar. Ou procurar (respeitando a medicação, naturalmente) uma sublimação do mal. Optei por esta última. Não descrevo os sintomas: isto não é uma ficha médica. Decidi porém fazer, quanto à forma, um romance-revista. Não acredito que alguém ainda se lembre das revistas que os teatros (teatros de bulevar) levavam à noite. Vamos ver como é que Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define a revista nesse seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa: “Peça de teatro, com quadros de música e dança, com anedotas, alegorias, sketches etc., na qual criticam os fatos mais em evidência da época”. Não quero e deter sobre a história do teatro, que sempre foi um órgão vocal poderoso, por onde o povo clamava seus direitos e exprimir, dum modo ou de outro, seu pensamento. Aqui tratava-se dum livro. Mas não digo nem das suas virtudes, se as tem, nem dos defeitos, que é certo ter. Mesmo aqueles que o receberam com benevolência limitam-se a expressar as suas emoções.
O livro, publicado em 1942, não teve repercussão crítica. A que você atribui isso?
Teve repercussão crítica, mas desvantajosa. E tão grande, que me levou a polemizar pelo jornal. Atitude que nunca mais assumiria, porque era perder tempo. Um crítico do Rio condenou muito o livro por falta de técnica, que para ele era privativa do romance… Se não fosse romance não necessitava técnica; a coisa passava. Com filosofar desse padrão, eu me dei por vencido.
Você acredita ou não na crítica literária?
Para início: não há crítica, achando-se ela sempre ditada pelo subjetivismo. Sei por mim mesmo: não preciso que me digam quão condenável é essa espécie de exibicionismo que goza em desfiar elogios feitos à própria pessoa. É sim. Mas leve-se em conta que ainda agora ouço dizerem-me: não consegui continuar a leitura do seu livro. Não tenho a sugestibilidade muito fácil. Mas com tudo isso eu mesmo o abominei. Resisti a todos os pedidos de reedição. Se consenti agora, foi por amizade. Depois da brutalidade com que fui tratado pela crítica, ver alguma simpatia em torno dele me deixou perplexo. E ainda o estou — a alimentar um ceticismo difícil de dominar. Mas vamos com os poetas: a coorte se mobilizava por sua conta, sem, está visto, a menor intenção de contrariar a crítica negativa (que talvez jamais conhecera), o manipulo contava com mais dois elementos que, esses, eu bem conhecia: minha filha e um jovem. Ele vinha duma linhagem literária que tanto ilustrara a literatura. Por sua vez, moço ainda, já se distinguia na atividade jornalística: Paulo de Medeiros e Albuquerque. Infelizmente, não se achou mais seu comentário, o primeiro em data favorável ao meu trabalho. As mulheres e os rapazes — é o que diz um escritor com grande experiência — são o público que mais honra o artista. Eu aplico um escólio à sentença de Eça de Queirós: e os poetas. Tudo isso é ingênuo, quer dizer, sem maldade. Ou com maldade friável, pronta a desfazer-se ao primeiro contato da arte. Cecília (minha filha) é poeta, embora o negue de pés juntos. É dela uma antiga carta sobre O Louco do Cati. “De todos os teus livros — escreve a certa altura —, aquele pelo qual tenho mais carinho é O Louco do Cati. Nunca te disse isso. Tenho um carinho especial por cada página, cada linha, cada palavra bem colocada. Cada linha saída quentinha do forno era comentada por nós dois. Aquele foi um tempo duro; entretanto, passados tantos anos, tem o encanto de gobelin velho, que esfume as cores fortes, as cores do sofrimento, para deixar ver apenas a beleza do quadro. Quando vejo os títulos dos capítulos, lembro-me da brincadeira gostosa da aquarela, e dos desenhos magníficos que fizeste para ilustrá-lo. Lembras-te? Certas frases ali são lapidares e imortais: uma ponte rápida e sonhadora entre dois mistérios; que coisa maravilhosa; isso é a vida. A paisagem do Sul, a das nossas praias – estão ali pintadas por mãos de mestre. E aquele encanto do grupo desaparecendo atrás dos cômoros como uns bastidores. Eles são tão reais, e eu os amo tanto que fico angustiada, como uma Cassandra, sabendo o destino horrível que espera o Manivela e o Borboleta. A persistência em proteger o Louco — o teu livro é um hino de Amor, na mais bíblica e sagrada acepção! Lembras-te quando lias as páginas escritas nos joelhos, dos fundos daquela cama, que só eu, com a inconsciência feliz da juventude, esperava que te levantasses; lembras-te que, ao cabo dum certo tempo, dizias: ‘Tem seu pouco de pilhéria?’ E tem. Tem essa pilhéria sutil, inteligente, que delícia, dá um prazer fino, como o prazer duma essência francesa, que se aspira ao passar alguém, e que é uma sugestão de tudo que esse alguém é. Gosto… gosto de tudo. Daquela maneira dócil de cão, do Louco. Daquele focinho indagador e desamparado que desperta em nós tudo que há de bom, tudo que há de terno para o nosso semelhante. Gosto do livro. Gosto do sujeito que escreveu o livro. Os teus livros não são escritos. Eles vivem. Vivem por si mesmos. Quando se os lê, a gente não existe. A gente mergulha naquilo e não tem nenhuma noção da realidade circundante. Tu és uma espécie de divindade que se diverte a criar vidas, a emaranhá-las, a desenrolá-las, com uma facilidade própria das divindades. Velho, para quem deseje conhecer o Rio Grande, O Louco do Cati é a receita. Como quem quiser saber como se pode escrever um livro inteiro sem descrever o seu personagem, entretanto sugerindo a sua figura, com palavras daqui e dali, transformando-a num ser marcante — O Louco do Cati. Foi isso que fiz. Passei-o às mãos de uma amiga, que me telefonou hoje, encantada, querendo ler o resto da tua obra. Esta carta é um hino à tua vaidade. Creio que ela seja tão grande por natureza, que não seja eu que vá acrescentar nem uma graminha a mais nela… Mas é o que sinto. E tinha que te dizer alguma vez. Tu nunca foste filha dum cara bacana como o meu pai, senão entenderias. Espero que não vás analisar tudo o que digo dialeticamente, e concluir que sou um caso perdido e incurável de complexo de Electra. Electra, para mim, é avião. Avião com quatro turbinas turboélice, que tem as tarifas mais baixas para os EUA — portanto, esse complexo não tenho. Arranja outro.” A crítica literária foi impiedosa com a nova fase que O Louco do Cati abria. E com razão: o obscuro romancista que Os Ratos havia divulgado já não era o mesmo. Seu gosto mudara, acompanhando uma tremenda mudança na sua vida: à sombra do cárcere. Não é metáfora não: na linguagem desbragada da cadeia, estar à sombra é estar preso. Aí, onde tudo é sombrio, passei dois anos. E não por crime, como tenho provas autênticas, mas por délit d’opinion. Também não trocara de gênero: em O Louco do Cati, “atual e fantástico”, a “verdade crua” existia, apenas habitava uma outra região, que eu, sem modelo, me pus a explorar. Isso não agradou na ocasião. E não agrada até hoje. Sérgio Milliet, com sua rara e legítima compleição de crítico, tenta uma decifração “desse estranho O Louco do Cati, que ficou mais ou menos incompreendido e me parece antes o poema da evasão imperativa, antes um poema angustiado que um romance, mesmo surrealista”. Volto a repetir a advertência do Virgílio da Comédia: “non ragioniam di lor, ma guarda epassa”.
Reconheço que a carta de sua filha é válida, mas vou insistir no assunto. Uma vez você me disse que apenas quatro pessoas tinham ressaltado a importância de O Louco do Cati: Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Flávio Moreira da Costa (trinta anos depois) e sua filha. É realmente verdade isso?
Possuo uma meia dúzia dessas manifestações arrojadas, e, infringindo as regras do bom gosto, vou dá-las a conhecer: é, decorrido tanto tempo, meu penhor de gratidão a abnegados aos quais não tivera ainda a oportunidade de fazê-lo duma forma mais pessoal. De Mário de Andrade, numa dedicatória do seu volume de poesias: “Livro estranhíssimo, construção original, e de uma força convincente notável”. Em carta, posteriormente, e há tempos por mim divulgada, vinham estas palavras que o autor do livro impugnado não se julgava apto para escutar: “Preciso aliás reler O Louco do Cati. Que impressão estragozamente profunda esse livro me causou. Mas O Louco do Cati morde e marca, preciso reler. E durante toda a leitura, a verdade crua deste livro (Os Ratos) tinha saudades daquela que fica se perguntando a si mesma se realmente existe. Mas agora sei que vou reler O Louco do Cati. E aproveito para lhe agradecer também a inquietação em que vou ficar, a espécie de dor que vou ter.”
Mais tarde, quando supunha o Louco morto e enterrado, depara-se-me algo inusitado: uma verdadeira exumação, contida nestas palavras alvissareiras: “Um romance atual, e também fantástico, como O Louco do Cati de Dyonélio Machado (autor mais conhecido por uma experiência realista, Os Ratos)”. Eram de Flávio Moreira da Costa as palavras. De Guimarães Rosa guardo este recorte: “Para mim, os melhores livros que já li até hoje, como originalidade, como realização, como beleza, foram os de Herberto (Herberto Sales, com Além dos Marimbus) e O Louco do Cati, do Dyonélio Machado. Se o livro do Dyonélio tivesse sido escrito em francês ou em inglês, e por autor estrangeiro, era Prêmio Nobel, sem dúvida. E muito melhor, muitos lutos, do que o romance O Velho e o Mar, de Hemingway.”
Opiniões mais do que suficientes para alimentar sua vaidade…
Na apreciação de conduta de um velho, interferem dois sentimentos, os dois tendendo ao mesmo ponto (e antipáticos ambos): ou o indivíduo é um narcisista em fim de carreira, e muito encantado pelo que fez, ou pensa muito saber pelo que viu. Em qualquer dos casos — ou mesmo nos dois juntos — estou eu: basta, para provar, essa espécie de chorumela, que a ninguém agrada, como não agrada aos outros ver um par namorando. Parece que me vingo dos que me pedem o que não quero dar; memórias minhas. Pois isto aqui bem podia ser parte dumas memórias…
Uma vivência tão grande, como escritor, político e psiquiatra, por que você não pensou em preparar um livro de memórias? Não acredita na contribuição humana e mesmo literária que ele poderia conter?
Não: para um livro de memórias necessita-se um indivíduo, homem ou mulher, expoentes duma época; ou uma época digna de ser rememorada. Diabo é que se torna muito difícil caracterizar-se logo o elemento exponencial. A época atual lembraria umas tantas épocas passadas; a mulher e o homem não se revelariam aos olhos do momento presente como modelos para passar à História: nem uma Bárbara Heliodora, nem um frei Caneca. Há-os, eu sei, porque eles próprios se julgam assim. No geral a posteridade pensa de maneira diferente. Um livro de memórias, feito por mim, passaria por uma novela. Mas é isso que eu faço! Ninguém as lê pela falta de quem as edite. Todas as minhas vivências são utilizadas nos romances, que, apesar da crise editorial, que eu aliás compreendo, continuo produzindo. Quando não haja leitor para eles, usufruo o conforto de haver guardado para mim passagens que nunca olvidaria.
Qual é o processo que usa para escrever? Bate diretamente à máquina? Costuma fazer mais de uma versão?
Tenho como regra bater à máquina os meus livros. Esporadicamente recorro a papel e lápis. Num conto ou romance matuto muito. Em Os Ratos levei nove anos. Primeiro fiz um conto: não traduzia a emoção que o caso me despertara. Rasguei-o. Fiquei a averiguar a causa disso. Tudo residia na dificuldade de obter o dinheiro, e nos meios a pôr em prática. Só mesmo um romance, embora pequeno, poderia dar-lhes vida.
Como é que escolhe o nome dos personagens? Brotam naturalmente com nome ou… (Por exemplo, Naziazeno, Adelina, Sanchez etc.)
A escolha dos nomes das personagens nunca foi fácil para mim. Já no meu livro de estreia, Um Pobre Homem, velho de mais de meio século, a um rapaz novo, metido com problemas de mortos e de morte (pois que administrava o município), dum humor um tanto sombrio, chamei Valeriano, que, pronunciado, parecia ter um tom soturno. Naziazeno, pobre barnabé que nada possuía de seu, ao menos deveria trazer um nome privativo. E não era desconhecido: na minha terra um proprietário de jornal, dessas folhas hebdomadárias, chamava-se Naziazeno, corruptela de Nazianzeno. Ademais, a hagiografia não esquecera a figura de São Gregório de Nazianza, cidade onde nasceu, e que se fez notável, com outras da Capadócia Magna, pelo seu misticismo.
Um nome de mulher inventei: Tunaia, do romance ainda inédito Endiabrados (ex-Terceira Vigília). Outros foram arranjados, como Etéocles Olinto, de Deuses Econômicos. Em Prodígios (inédito igualmente) preferi a forma clássica Briséis a Briseida ou Briseide. Uma personagem carrega duas alcunhas, como se sua popularidade na desgraça estivesse a reclamar uma compensação: Louco do Cati, Dr. Cati… Os demais nomes figuram na onomástica de todos os tempos e lugares.
Homem de esquerda, você declarou numa entrevista: “nunca fiz política na ficção”. Poderia desenvolver o tema?
O livro pode mobilizar todas as situações (algumas dramáticas) em que o autor, direta ou indiretamente, se encontrou: é um material humano que seria crime de lesa-ficção depreciar. Vim do inferno, o que criou nova forma de conviver com a vida; e, pela mesma razão, nova forma de romance.
Vinte anos esquecido, O Louco do Cati é finalmente lançado em segunda edição.
O que representa isso, um imperdoável descuido dos meios editoriais? Eu experimentei um período de hibernação literária que se prolongou, praticamente sem interrupção, cobrindo uma faixa duns vinte anos. E não por vontade própria, mas forçado, por falta de editor. E continua mais ou menos: sou subestimado. A indústria do livro vê isso e não se arrisca a perder dinheiro com um autor marginalizado, sem uma bonne presse, sem público. Há Os Ratos, que ainda se lê, para atender os escrúpulos do comércio de livros.
No entanto, você me mostrou vários originais de livros inéditos. Quando os escreveu?
Você quer saber quantos são e quando foram escritos? Como eu queria participar dum concurso do Instituto Nacional do Livro e possuía um romance absolutamente inédito, com ele me apresentei. Mas, antes, numa entrevista para a imprensa, declinei-lhe o nome: Endiabrados. Somente o título era conhecido. Mesmo assim violava o sigilo. Substituí pelo de Terceira Vigília. Comecei a compô-lo em março e terminei em dezembro de 1961. A intriga do romance baseava-se num forfait que tivera grande repercussão na imprensa, bem como no Congresso, pouco tempo antes de findar o ano de 1958. Não obtive o prêmio, a que de resto não visava; quando desejava emergir apenas do poço escuro onde me lançara uma suspeição cultivada. Com aquele salvo-conduto do INL, já estava apto a pleitear uma edição. Um confrade e amigo levou-me ao editor que apresentava todo o viso de querer imprimir Terceira Vigília. Um ano depois fui ao Rio buscar os originais. Já antes, Deuses Econômicos fora rejeitado. Em continuação a Endiabrados escrevi Proscritos, que encafuei num desvão da estante, num lugar escuso até para mim. Eles integravam uma série com o título geral de Os Flagelantes. O terceiro e o último volume já estavam escritos com o nome Última Encarnação, o que, sem me dar conta, criava uma aparente filiação com o portentoso Vautrin, e portanto precisava mudar. Mas não mudei, talvez um tanto descorçoado. Os anos da década de 70, já desembaraçado da clínica, propiciaram Mulheres, onde travarão relações com Carmosina e o bem conhecido Manivela; Sol Subterrâneo, Prodígios. Estes dois continuam Deuses Econômicos. Para coroar a buchada, uma plaquete a pedido das damas do coral de Cecília: Ele Vem do Fundão.
É curiosa a indiferença da crítica e do público por quem é hoje considerado um dos clássicos da literatura brasileira moderna…
É uma comovedora e clamorosa contradição, obra exclusiva da amizade, o que diz. Não poderia haver indiferença por parte do público e da crítica (logo por parte da indústria do livro) para com aquele que seria considerado um dos clássicos da literatura brasileira moderna (sic). Numa eleição sui generis, realizada na hoje capital cultural do Brasil (São Paulo), fui eleito o escritor mais subestimado. Guardo a página do jornal, tão gentilmente enviada a mim por mãos amigas. Aqui me pediram que mande emoldurar isso e dependurar na parede. Periga que eu faça. Aqui na província me foi negada, mas logo revista, a condição de escritor: eu era um médico que escrevia. Por não estar ligado profissionalmente à arte? Seria interessante fazê-lo: com exigências de admissão à carreira, deveres e direitos… Aliás, as academias literárias já esboçam coisa parecida. Ou tratava-se do homem escritor? Como doutor, escritor é um vocábulo comum de dois. Já aquele blagueur italiano sentenciava com um trocadilho por demais cediço: homem é uma palavra que abraça a mulher… Fiquei sem atinar com o sentido da advertência. A etimologia da palavra pouco me ajuda. O meu Santos Saraiva (que reconheço já estar um tanto ultrapassado) não hesita: “Officium, ii —Dever”. Esse outro dicionário etimológico, que é o provérbio, já o definiu: quem tem ofício tem benefício. Cansei de repeti-lo àqueles que a indolência ou os preconceitos afastavam do trabalho. Dava como exemplo Paulo de
Tarso: exímio na epistolografia segundo os helenistas, embora praticando um grego menos clássico. Possuía seu ofício de tecelão como todos sabem. Não se valia dos “irmãos” para a subsistência. Tinha, ao lado da sua ocupação de artífice celular, sonhos e ideais que lhe enchiam a vida, esvaziando o estômago, mas a eles não renunciava. Se é válida a minha conjetura (tomara que não seja), é de temer o poderio biológico-econômico que se faz presente na relação de produtor e consumidor. De duas, uma: ou o produtor satisfaz o desejo ou necessidade do cliente, ou este dita ao manufatureiro o tipo do produto que lhe convém. Não julguem com intolerância: sigam os ditames do filósofo, que manda ter benevolência na crítica. Reconheço quão valioso é receber direitos autorais; mas quando conquistados sem premeditação.
Atualmente, o que está escrevendo?
Ainda em 20 de dezembro último eu estava pondo um ponto final no meu Prodígios. Achei prudente tirar algumas férias.
Diga, Dyonélio. Aos 83 anos de idade, passando a limpo seu trabalho literário, valeu a pena ter assumido a vocação de escritor?
Ora, se valeu! Ela concorre para manter viva uma das tantas ilusões da mocidade: o culto da arte.
Fonte: Edla Van Steen, Viver e escrever (Volume 2).

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