Rayssa Sales Os rostos borradosdeixei onde não há rastros,deixei se perderem na imagem. Os nãos acreditados,as mãos que me roubaram,riscos que apaguei; a beleza maculada,finos diabos, cinzas dos anos que me tomaram,sapatos que não calcei. E como quem se esquecedas chaves em dia qualquer,largo sob a mesaesses rostos, o resto, os claustros. — Rayssa é…
João Bosco C Barreto Jr. Qual a vantagem de pensar, não sei. Seria uma vantagem não pensar? Perturba-te a ti mesmo! O perturbado em si é um mestiço com o aliviado. Observe os abutres, rodeiam a carniça e amontoam-se. Somente se chateariam com a injustiça se pensassem. Maldito aquele que pensa? Deparei-me com algo,…
Na “Copa do Mundo de 1958”, o Brasil fazia parte do Grupo 4, ao lado da Inglaterra, União Soviética e Áustria. Na estreia, contra a Áustria, o Brasil venceu por 3 x 0, com dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos. O jogo ocorreu em 8 de junho, em Udevalla. O empate…
Eric Malta Túmulos. Defuntos calados, flores de pranto. Lápides, saudade, fria neblina de ternura em morna solidão. Coração de pluma, soprado pela não-tristeza, inesperada, neste prado da melancolia. Dois pés. Um olhar. Um não-olhar. Não-pés. Cenário transparente. Não, moça transparente. Com juras de vida, mas aura de morte. — Você, senhor… — Sim, madame.…
Brendha Caldas É uma verdade universalmente conhecida que, se forem colocados veículos suficientes em uma via, eles assumem as propriedades de um fluido. Graças a Pascal, também sabemos que uma pressão exercida em um ponto de um líquido é integralmente transmitida a todos os pontos deste. Eis a explicação física para o fenômeno dos…
A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpoevitem os inúteis disfarces,os disfarces com que os vivos,só por piedade consigo,procuram apagar no Mortoo grande castigo da Morte. Não quero caixão de vernizou os ramalhetes distintos,os superfinos candelabrose as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano.Dêem-me as…
Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……
Misael Pulhes Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás. Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.…
1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali,…
Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…