A fórmula

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Gabriel Rosa Alves

Os caminhões anunciavam o toque de recolher. Já passava das 20:30h. Mas uma taverna, escondida num dos becos mais inóspitos da Megalópole, abrigava um grupo peculiar. Três pessoas estavam sentadas ao redor da mesa redonda, olhando desconfiadas umas para as outras. O mais ansioso parecia ser Homero, um homem gordo, barbudo, repleto de tatuagens, que segurava com as duas mãos um pequeno baú, repleto de engrenagens e luzes. Do seu lado esquerdo, junto à parede, estava um senhor, que tinha metade de seu rosto roboticamente reconstituído, e à frente, uma mulher, que vestia um sobretudo com as cores da nobreza e fumava um cigarro longo.

— Deixe de bobeira — disse a mulher.

— Bobeira? — Respondeu Homero — Sabe o que aconteceu com o inventor?

Ela meneou a cabeça.

— Pois é! Ninguém sabe! Eles agiram com tanta discrição que nem de seu corpo demos sinal. O que acha que podem fazer com alguém como eu?

— Você quer vender esse troço ou não? — Perguntou o velho.

Naquele instante, a senhorinha que era dona da taverna se aproximou.

— Essa rodada é por conta da casa — E deixou três copos de cerveja vermelha.

Ninguém pôde conter o riso.

— Muito bem — Disse Homero — Eu estava aguardando pela terceira compradora. Ela havia me oferecido uma boa quantia em proteínas, e… vocês sabem. Preciso fazer o melhor negócio possível aqui.

— Desembucha logo! — Falou a mulher.

— Eu não sou cientista, então não vou saber os detalhes sobre a ação bioquímica deste trem. Mas tem algo a ver com as interações sinápticas e o ácido acético… algo assim. O que importa é que é um soro anti-embriaguez.  É só aplicar 2mg na corrente sanguínea, 2 minutos antes da ingestão de álcool, e… PUM! Nada de ficar bêbado. Bacana, né? Acho que agora é a parte em que vocês tentam me convencer sobre qual seria a melhor proposta.

— Ora essa! Eu ofereci a maior quantia — Exasperou a mulher — Não devia ser óbvio?

— Não é tão simples assim — falou o velho — Afinal, você vai precisar de uma fuga bastante eficaz do continente. E eu controlo uma rede clandestina de entregas de batata frita. Posso muito bem contrabandeá-lo para qualquer um dos 10 continentes.

E então se seguiu uma série de ofertas irrecusáveis, pelas quais os dois compradores tentavam obter vantagem. E a cada nova oferta, a senhora trazia uma nova rodada, por conta da casa. Na décima segunda rodada, eles já estavam tão alegres que concordaram em dividir a fórmula e não interferir nos negócios um do outro. Concordaram até mesmo em ser amigos para sempre. Então veio a décima terceira rodada. E todos caíram com o rosto na tábua redonda de madeira.

A senhora se aproximou, tomou o baú, e então acionou seu relógio holográfico.

— Senhor presidente, consegui. Recuperei a fórmula anti-embriaguez. A república vive.


Gabriel é cristão, filho do Triângulo Mineiro, casado com Thayla, pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e apaixonado pela Palavra. Instagram: @escritorgabrielrosa. “A fórmula” foi publicado originalmente em “Conto um conto por uns contos” (2026), primeiro livro do autor, reproduzido aqui com permissão da editora M.inimalismos.

2 respostas a “A fórmula”

  1. Avatar de Vitoria Vaz
    Vitoria Vaz
  2. Avatar de João Bosco Barreto Jr
    João Bosco Barreto Jr

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