Leandro Carvalho A luz se afina.A noite, a perfurar as frestas das janelas,cobra alguns minutos dos meus olhos.Faísca um tempo sob o céu.Eternidade, à meia-luz,invade o espaço que invadie dá fatias de alguns diasque não tenho…Sob a fagulhasou dado a malabarismoscom o calendário.Os ponteiros, os passos, as luzes, as lembrançase suas ausências…todos caem, e…
Brendha Caldas No capítulo 8 de Atos, o apóstolo Filipe é levado a pregar para um eunuco, mordomo-mor da rainha Candace, viajando pelo deserto. Indo eles caminhando, diz o texto, havia uma fonte de água, talvez algum oásis, cercado de árvores. Disse o eunuco: eis aqui água; que me impede de ser batizado? Gosto…
Rayssa Sales Os rostos borradosdeixei onde não há rastros,deixei se perderem na imagem. Os nãos acreditados,as mãos que me roubaram,riscos que apaguei; a beleza maculada,finos diabos, cinzas dos anos que me tomaram,sapatos que não calcei. E como quem se esquecedas chaves em dia qualquer,largo sob a mesaesses rostos, o resto, os claustros. — Rayssa é…
João Bosco C Barreto Jr. Qual a vantagem de pensar, não sei. Seria uma vantagem não pensar? Perturba-te a ti mesmo! O perturbado em si é um mestiço com o aliviado. Observe os abutres, rodeiam a carniça e amontoam-se. Somente se chateariam com a injustiça se pensassem. Maldito aquele que pensa? Deparei-me com algo,…
Eric Malta Túmulos. Defuntos calados, flores de pranto. Lápides, saudade, fria neblina de ternura em morna solidão. Coração de pluma, soprado pela não-tristeza, inesperada, neste prado da melancolia. Dois pés. Um olhar. Um não-olhar. Não-pés. Cenário transparente. Não, moça transparente. Com juras de vida, mas aura de morte. — Você, senhor… — Sim, madame.…
Brendha Caldas É uma verdade universalmente conhecida que, se forem colocados veículos suficientes em uma via, eles assumem as propriedades de um fluido. Graças a Pascal, também sabemos que uma pressão exercida em um ponto de um líquido é integralmente transmitida a todos os pontos deste. Eis a explicação física para o fenômeno dos…
Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……
Misael Pulhes Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás. Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.…
Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…
Eric Malta Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou…