O Não-Eu

Eric Malta

Túmulos. Defuntos calados, flores de pranto. Lápides, saudade, fria neblina de ternura em morna solidão. Coração de pluma, ​soprado pela não-tristeza, inesperada, neste prado da melancolia. Dois pés. Um olhar. Um não-olhar. Não-pés. Cenário transparente. Não, moça transparente. Com juras de vida, mas aura de morte.

​— Você, senhor…

— Sim, madame.

— Mas…

— Não.

— Por quê?

— Porque sim.

— Boa aceitação a tua.

— Naturalmente, senhorita.

— Um coveiro?

— Não.

— Um médico?

— Também não.

— Então padre ou vigário ou pastor ou talvez médium?

— Não, não e não… e muito menos.

— Então por quê?

— Por que não, minha querida?

— Estranho…

— Realmente…

— Mas e o medo?

— Qual?

— O teu, oras…

— Medo de quê?

— De mim!

— Logo tu, tão adorável?

— Sem gracinhas agora…

— Tudo bem, tudo bem…

— Saudades…

— De quê, moça?

— De casa.

— Casamento?

— Não, de lar.

— Com direito a bodas?

— Que obsessivo você!!

— Talvez, um casamento com uma fantasma… deveras interessante.

— Que diabos?

— Sem mentira aqui… Apenas verdades…

— Nah, completo absurdo.

— Um absurdo pequeno demais para mim…

— Casamento com morto? Muito nojo…

— Nojo de si?

— Não, o nojo natural teu, senhor.

— Que nojo? Logo de tu, tão adorável?

— Bah, que atrevido!

— Poesia até das mortas!

— Tu, um poeta?

— De forma alguma.

Descrença e não-crença deste belo espectro diante da loucura de um não-poeta.

— Simplesmente intragável o teu atrevimento, senhor.

— Com que trago? Com que boca? Com que corpo?

— Atrevido novamente… Logo eu, tão adorável!

— Só você!

— Por quê?

— Por que não?

— Um não-eu?

— Não, você.

— Ridículo, apenas não-eu…

— Tudo-você para mim, senhorita…

— Logo uma fantasma?

— Logo tu, tão adorável!

— Um louco, além de atrevido…

— Teimosa!

— Logo eu?

— Logo tu, madame!

— Mas teimosa? Não-eu.

— Um pouco você.

— Tudo bem, um pouquinho eu.

O respirar dele. O não-respirar dela. O olhar no não-olhar. Os belos cabelos da não-moça. Não-toque, um intocável desejo de toque.

— Toda fantasma, todo meu desejo.

— Ainda uma loucura.

— Logo eu?

— Logo você, tão louco e atrevido.

— Sem nojo!

— Um não-nojo da morte.

— Da não-morte, linda moça.

— Um pouco poeta, você, senhor.

— Naturalmente.

— Deveras atrevido…

— Deveras adorável…

​Um não-beijo.


Eric é de Anápolis/GO, cristão e internacionalista de formação. Apaixonado por todo tipo de história e de arte, especialmente nos gêneros de fantasia. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @eric.malta.jankowski

One response to “O Não-Eu”

  1. Avatar de Misael Pulhes
    Misael Pulhes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *