Samuel Lima
Descanso no amargor de uma xícara de chá. Vejo algumas memórias projetadas no vapor. Não sei se fantasmas ou a saudade de Nina.
Meu tédio escapa na risada de duas senhorinhas. Quando cheguei eram invisíveis, mas agora sinto que sou alvo da curiosidade delas. A conversa é toda em japonês e não parecem ter qualquer intenção de revelar como me tornei assunto. Continuam me encarando e depois se entreolham fazendo rugas de alegria. Acho que deveria me aproximar e entrar na risada com elas — Nina me levaria até lá.
Ornamentos amarelados de gordura, pinturas tradicionais corroídas, fotos desbotadas, um enorme balcão de madeira riscado e os koinobori tremulando com as lufadas de um ventilador perto da entrada. O Fukugen Izakaya serve às famílias nipônicas do bairro e aos funcionários do prédio comercial vizinho, sem pretensões turísticas, apenas a mística do vapor, que cobre os clientes de fome do que há oculto na cozinha, pois os pratos são sempre uma surpresa, feitos com os ingredientes da estação e de acordo com o humor do chefe.
A sombra corcovada do mestre Katsuji passa depressa. O incômodo de vê-lo tão idoso correr pelo salão, exibindo um caos colorido como as telas de Pollock no avental, permanece como inveja de tanta vitalidade. O velho não é dado a sorrisos de boas-vindas. E, enquanto houver fila, ordena a liberação das mesas após o consumo. Seu trabalho não sofre o peso das expectativas, pois ele transpira vocação e vive alheio a todo o resto.
— Vê aquela garota saindo do banheiro? — Viro de costas e ele me dá um soco nada discreto. — Devagar, jovem, aquela é a neta do senhor Urahara. Está de férias na cidade e vem almoçar todos os dias com o avô. Queria ter a sua idade para cortejá-la.
— O senhor sempre tem ótimas ideias. Não vou estragar o almoço em família.
— Idiota.
Ele atravessa o salão carregando quatro cerâmicas pesadas. Vapores trazem o perfume da cozinha: alga kombu, pasta de missô, cebolinha, pimenta, ervas, ossos de boi e cortes de frango, ensopados em um imenso caldeirão sobre chamas brandas, drenando sabor para o caldo que é servido em porções com o macarrão e seus complementos.
— Meu lámen! — grita o senhor Urahara atrás de mim, empolgado com o macarrão.
Comecei a frequentar o Fukugen pela praticidade de estar ao lado do trabalho. Nesses tempos eu andava de mocassim, calça de alfaiataria, camisa de linho e uma velha boina, sempre cobrindo meus olhos do sol. Simulei ter alcançado o limite da maturidade com roupas velhas, mas estava apenas desistindo de tê-la. Passei pelo restaurante tantas vezes, mas sem perceber o milagre escondido na arte do mestre Katsuji: água e calor purgando impurezas, purificando o ouro no sabor. A graça diante de mim, e eu ocupado com inseguranças; até encontrar Nina no balcão.
— Udon, barriga de porco, ovos marinados, moyashi e nori.
O velho Katsuji dita os ingredientes quando quer mostrar cuidado com os clientes.
— Seu udon está perfeito. Eu pedi lámen, posso tirar uma foto do seu? — Diz Nina ao meu lado.
— Pode ser… — empurro meu bowl até ela — aqui não é um pouco escuro para as suas fotos?
— Meu iPhone dá conta, se necessário faço algumas correções no computador.
— Interessante… — fui irônico.
— Pode tirar algumas fotos minhas comendo? Queria gravar com o tripé, mas… onde eu apoio? Olha, se você conseguir algo perto desse enquadramento, posso fazer outras fotos suas e te mando depois — ela abre a galeria e me mostra.
— Confesso que não tenho muito ânimo para ser fotografado e acho que me falta habilidade para fazer o que me pede.
— Eu juro que vai fazer uma enorme diferença se você tentar, faltei no trabalho pra conhecer esse lugar e estou sozinha, me ajuda. Por favor! — o entusiasmo da mulher me venceu.
Foram quase trinta minutos gravando e sendo gravado. Encontrei rostos cheios de satisfação no restaurante, atentos ao vapor salgado, perfumado de sabor. Gravamos o velho Katsuji, surpreendentemente menos apressado, pedimos para ver a cozinha e ouvimos histórias dos clientes, rimos com eles. Sinto-me alheio aos constrangimentos. Tento mostrar sofisticação, explicando técnicas gastronômicas ou descrevendo notas olfativas, superestimando meu repertório, mas Nina parece entretida com as conversas.
Botas de cano alto, casaco jeans bordado nas costas e um cabelo cor de cereja preso a um laço branco. Imaginei que esse conjunto estético serviria para compensar falta de confiança, mera revolta vazia, mas o que vi de Nina foi um coração profundamente vulnerável às coisas mais ou menos estranhas, belezas escondidas no Fukugen. Seus pensamentos eram cheios de ternura pela comida e de curiosidade por tudo mais em volta. Ela entendia tudo tão bem quanto o velho Katsuji.
Quando terminou de gravar, pediu para ficar com o meu “chapéu velho” e concordei em trocar “por um beijo”, brinquei. Os vasos sanguíneos reagiram à ansiedade, e a vermelhidão do meu rosto revelou algo das inseguranças que Nina bem sabia como ignorar. E ela me beijou, mesmo com a boca molhada de caldo, foi rápido, mas aconteceu e cargas de euforia me varreram por dentro.
Protelando a despedida, ficamos até o velho Katsuji nos obrigar a liberar a mesa. Decidi que não seria seguro ela voltar sozinha para casa. Caminhamos por uns minutos, em silêncio, até que perguntei sobre o beijo.
— Não me lembro de nenhum beijo.
— E o que minha boina faz na sua cabeça?
— Roubei.
— Roubou como?
— Idiota, achei que uma hora o dono cobraria um beijo de verdade, mas, se valeu daquele jeito, agora posso fazer o que quiser com essa droga de chapéu.
— Eu gosto desse chapéu.
— Quer ele de volta?
— Acha mesmo? — Arranquei meu casaco e coloquei sobre Nina. — Dentro do casaco tem meu celular, carteira, três cartões de crédito e a chave de casa. Pode ficar com tudo.
— Pretende me comprar?
— E como eu poderia? Tudo que me restou foi um beijo ou a memória de um, que aparentemente foi menos do que deveria.
— “Solve et coagula”… Sabe o que significa?
— Você não se comoveu com nada do que eu disse?
Nina achegou-se para perto.
— É um lema alquímico…
— Vai mesmo falar de alquimia?
— Medroso. Pensa que sou algum tipo de bruxa?
— Desculpa, foi só uma brincadeira. Pode continuar.
— Posso mesmo? Você não é obrigado a ouvir minhas interpretações de teorias alquímicas.
— Fui insensível, perdão. Quero muito te ouvir.
Ela se achega mais uma vez.
— Tá perdoado — Nina segura minha mão e então olha para cima, como quem busca recomeçar de onde parou — “Solve et coagula” significa que os elementos solidificados da alma são diluídos, como um rio que transborda e parece converter tudo em lama. Nesse movimento de diluição, as camadas superficiais da alma se perdem, mas o ouro interior é coagulado. Poucos suportam. Querem salvar suas máscaras perdidas na lama e acabam se afogando.
— Parece que causei uma impressão negativa em você.
— Não… olho para você e temo ser uma fantasia impossível de realizar, sabe? E como detesto frustrar as fantasias de alguém! Mesmo assim, sei que elas fazem parte da primeira etapa. A dose necessária de coragem antes do barro ser esmagado.
— E as suas?
— As minhas o quê?
— Fantasias…
— Ah! Estão bem despertas agora.
— Do que estamos falando? — digo com um sorriso.
— Da vida e de como as coisas acontecem. Você não imagina o drama que foi falar contigo.
— Parecia muito segura quando sentou ao meu lado.
— Achou isso porque minha máscara é boa.
— Como assim?
— Comecei a vida de um jeito bem frágil e, depois de algumas cirurgias, quando meu coração aprendeu a bater no ritmo certo, imaginei que meu futuro deveria ser incrível e que outras pessoas poderiam gostar dele. Meu sonho sempre foi começar alguma coisa importante e gravar para o mundo assistir, mas acabei me afogando em um mar de medo, nada funcionava. Por isso escolhi o Fukugen. Um lugar cheio de velhos de dia e vazio à noite, se desse errado era só fingir que não aconteceu, mas entrei e não tinha coragem de fazer isso sozinha. Sentei ao seu lado, porque era o único que poderia me ajudar. Usei minha máscara, te deixei desconfortável, mas você escolheu mergulhar comigo e me fez não ter mais medo depois.
— Devo me preocupar com a sua saúde agora?
— Se preocupe em não merecer outro soco.
— E a história do barro? Minhas camadas superficiais de engano?
Ela primeiro me afastou com um empurrão, sorriu mordiscando os lábios e depois pulou em mim com um beijo bem diferente do primeiro. Não sei se entendo de alquimia, mas sinto que fui dissolvido naquela noite. Nós dois sentimos isso. Um prenúncio da destruição que nossas individualidades temiam e que encaramos juntos.
O casamento não veio sem sofrimento ou sem a saudade dos dias mais fáceis — dor coagulada no ouro das nossas alianças e nos anos que vieram. Agora vejo as duas senhorinhas passando e, antes de partir, elas param e apontam para uma fotografia no mural — será daquela noite? Elas me olham sorrindo e eu aceno. Termino observando o menino de dez anos atrás, sem saudades dele ou da velha boina.
Assim que casamos, os trabalhos dela começaram a dar resultado, clientes bons. Meu emprego não era terrível e a estabilidade financeira permitiu que ela se aventurasse sem medo de perder o aluguel. Decidimos morar na praia, em Santos, vendo o mar. Nina tinha um sonho recorrente. Sonhava com um pianista tocando no meio do oceano, tão longe que era impossível ouvi-lo tocar. Ela o via sempre cercado pela luz do sol poente, totalmente atento e dedicado a sua música, mas ela não conseguia ouvi-lo, ninguém podia ouvi-lo, pois ele estava no oceano, cercado do mar, longe das pessoas e, por mais que ela tentasse se aproximar, o pianista ficava cada vez mais distante. Nina nunca parou de ter esse sonho. Acordava com alguma regularidade perguntando “onde o pianista vai depois que anoitece?” e “pra quem ele toca?”.
Vivíamos uma boa vida e, no nosso primeiro aniversário de casamento, fomos visitar o Japão. Eu comprei uma câmera fotográfica, minha primeira, e registrei tudo com muito gosto, mas Nina agiu diferente. Não quis gravar, mal tirava o celular do bolso e saía deixando sua câmera no hotel. Durante as noites, passávamos conversando sobre a experiência maravilhosa que estávamos tendo e Nina percebia tudo com um detalhismo assombroso. Cada prato novo em um restaurante sofisticado, comida de rua, os mangás inéditos que achávamos nas livrarias, pessoas que nos provocaram a treinar o japonês, os castelos que visitamos, templos suntuosos e peças únicas de cerâmica remendada com ouro em uma técnica chamada kintsugi, Nina se lembrava de tudo nos mínimos detalhes e anotava em seu diário.
Uma noite, nos últimos dias da viagem, Nina acordou de madrugada, eram 3:33 no horário de Tóquio, vi no relógio do quarto de hotel e hoje me lembro. Ela acordou com um imenso sorriso e apertava forte a minha mão. Me disse que tinha visto o pianista tocando sobre o mar. Dessa vez, no sonho, ela chegou perto, nadou até ele antes de anoitecer e perguntou:
— Quem ouve o senhor tocar?
E ele respondeu:
— Catarina, você é a música que eu toco dia e noite na sinfonia do mundo.
— E por que ninguém te ouve? Por que está sempre longe e se afastando, nesse oceano?
— Para que a música chegue mais longe… no céu.
Então anoiteceu e o pianista abriu grandes asas, arcos de um serafim, mas ele continuava tocando e as ondas da noite não podiam derrubá-lo. As asas freiavam a força das águas e Nina aquietou-se para ouvi-lo até o sonho acabar. Foi a última vez que ela teve esse sonho e dormiu o resto da noite em meus braços.
— Amor, e se o pianista parar de tocar? — perguntei de manhã.
— Não sei, mas imagino que esse tipo de música não termina.
— Você não pode ficar tranquila sem ter certeza.
— Algumas coisas são tão reais que não acabam e você sabe disso quando as conhece.
— E se um dia o anjo bater mais forte suas asas, se ele decidir voar e te levar para longe?
— Então serei música em outro lugar.
— É perturbador pensar no fim da vida que temos juntos. O que eu faria sem você?
— Há uma música, além de mim, em águas surdas na imensidão… encontre!
O coração de Nina parou faz três anos. Hoje vim ao Fukugen pela terceira vez sem ela. Nunca mais acordei para ouvir os sonhos de outra pessoa, mas tenho sonhado e acordo com o rosto dolorido, sem saber com o que sonhei. Levanto e deito minhas fraquezas em pequenas fotografias pela casa, onde um anjo paira no oceano da minha saudade. Silêncio, lágrimas e vapor.
Samuel Lima é de Santos (SP), cristão e integra o “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”.
Instagram: @samuel_limabs.

Deixe um comentário