Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……
Misael Pulhes Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás. Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.…
Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…
Eric Malta Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou…
Linha, agulha, e paciência. Movimentos sem pressa, e ágeis. Mãos enrugadas, machucadas, repletas de história. E a máquina de costura em seu tique tique tique. O tecido? Velhos retalhos de camurça. Primeiro um círculo, perfeito tal capoeira, astrolábio, ou ainda uma roda de dança Tupi Guarani debaixo do céu sem fim. Um céu escuro,…
Karen Valentim Alves Entre todas as cores da casa, uma em falta. O vermelho vivo dos vestidos de dona Dalva, tão floridos quanto o quintal — sempre num capricho danado. Mas, naquele dia, apenas cinza e folhas secas. E uma rede barulhenta. — Ei, menina! E esse pé nas minhas plantas!? Para aqueles pezinhos,…
Rayssa Sales Uma flor rosa, daquelas de jardim, com suas pétalas ingênuas. Na escola, quando na quinta série, um toque suave na mão e uma troca de sorrisos infantis. Sexta, sétima, oitava série… ensino médio. Conversas nas entrelinhas e provocações sem fim. — “Amizade ou amor?” Nada claro, nenhuma declaração, nunca. Oito ou oitenta,…
Eduarda Carla O suave movimento das ondas dá ao mar efeito e aparência de escamas dançantes, como se milhares de peixes nadassem obedecendo ao mesmo compasso. Talvez – talvez – o todo seja apenas o reflexo da parte. Ou talvez a parte imite a imensidão. Cinco tons de azul compõem a paisagem, é magnífico…
Brendha Caldas Dizem que inglês é uma língua de comerciante e alemão é uma língua de camponês. Consigo entender de onde vem a ideia: o inglês é objetivo, direto, fácil de se aprender. É mesmo uma língua boa para grandes feiras de cidades cosmopolitas, onde se fala rápido, caminha depressa e se come de…
Preserva o que é quebradoe esquecido sem motivo.Trabalhaaté que resplandeçao ouro entre as fissuras.A laca — não de nós —se incrusta pelas crostasde nossos cacos,agarra o que era fragmento e,pelo pó,ajusta, ajeita e emenda. O distintivonão é o ouro, nem a mão…mas o motivo: Refaz,só pra mostrar que ainda é Belo. ¹ Kintsugi –…