Eduarda Carla
O suave movimento das ondas dá ao mar efeito e aparência de escamas dançantes, como se milhares de peixes nadassem obedecendo ao mesmo compasso. Talvez – talvez – o todo seja apenas o reflexo da parte. Ou talvez a parte imite a imensidão. Cinco tons de azul compõem a paisagem, é magnífico e sublime. Se ignoro todo o resto e foco no mar, sinto minha respiração sincronizar-se com as ondas e me torno um com ele. O cintilar da luz do sol brilhando em contato com a superfície azul celeste me faz acreditar que existem estrelas abaixo do firmamento. A paisagem me prende, tento voltar às atividades cotidianas, mas não há nada a ser feito, já fui fisgado, como o marinheiro ao ouvir o canto da sereia.
O produto das mãos humanas, por mais grandioso que possa ser, em algum momento me causará tédio. As pinturas de Rembrandt, as esculturas de Michelangelo, as construções de Filippo Brunelleschi, as gravuras de Gustave Doré… todas são surpreendentes, eu concordo, no entanto, nem mesmo elas prendem minha atenção por um dia inteiro. Mas não consigo enjoar dessa infinidade azulada. Quanto mais encaro, mais ela me puxa e me faz enxergar além. Avança, recua e arrasta-se pela areia a certeza de minha insignificância.
De maneira tímida, fecho os olhos e inspiro o aroma da maresia, foco no som do movimento das ondas e das gaivotas que sobrevoam o mar em busca de comida. Consigo sentir o sol queimar a minha pele, mas o ardor não me incomoda, na verdade, me conforta. Abro os olhos novamente, já não sou o mesmo. O mar também mudou. A maré está subindo, as ondas estão mais violentas e a sombra das nuvens faz com que a água se torne um azul petróleo impenetrável.
Percebo um barquinho se aproximando do meu campo de visão, sua vela branca indica a direção e o destino que ele procura. Ele segue e deixa seu rastro, abrindo uma esteira entre as águas, como se me convidasse à aventura. Fico a imaginar quem está dentro do barco, finjo que sou eu quem está lá, a ser ninado pelo mar. Em cima dos arrecifes, um pescador lança sua rede. O movimento certeiro comprova a habilidade construída por muitos anos, a pele queimada pelo sol também atesta a familiaridade com a tarefa, que é simples, mas poderosa. Ele espera – como a criança dependente dos pais – que, ao recolher a rede, ela esteja repleta de peixes. Daqui de longe, eu torço por ele. Penso nos filhos e na esposa que esperam nele, como ele espera no mar.
Um grupo de jovens interrompe meu silêncio. Falam alto, cantam músicas, tiram foto, sem qualquer outra preocupação. A praia não passa de um plano de fundo para eles. Não posso culpá-los, já fui eles e chegará a hora em que serão eu. As moças estendem suas cangas na areia e se espreguiçam no chão, procurando o melhor ângulo do sol, em busca do bronze perfeito. Os rapazes jogam uma bola branca e vermelha de um lado para o outro. Quando algum deles erra o passe, os outros gritam xingamentos, enquanto soltam risadas, vendo o amigo correr para alcançar a bola.
Me lembro da minha própria juventude, quando também havia disposição para brincar assim, quando não ligava para nada, mas os menores problemas pareciam o fim do mundo. Sorrio enquanto observo o frescor da mocidade. Olho para minhas mãos, já com sinais do tempo. Algumas rugas se formam na pele. É, estou ficando velho. Encaro a aliança reluzente no dedo anelar da mão esquerda. Meu coração se aquece e agradeço por estar envelhecendo.
O céu agora abandona sua monocromia e tons alaranjados e lilases timidamente surgem, enquanto o sol se despede no horizonte. O vento se torna frio e me desperta da inércia. Preciso voltar às atividades cotidianas.
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Eduarda é recifense, cristã e graduanda em Design. Escreve no substack “De dentro das coisas” e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @a5quivo

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