Praia do Forte

Giovanna Souza Daniel

O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras, pontiaguda de arranha-céus e pontilhada de casebres no desnível soteropolitano, é engolida pela neblina e logo vira bruma, memória de memória. Mas a pista nua se estende adiante de nós, lisa feito a concha de uma ostra, capaz de se aferrolhar a qualquer instante no costumeiro trânsito da Estrada do Coco. Aceleramos na imensidão, seja qual for o seu tamanho. A viagem não é longa, tampouco complicada. Seguir sempre em frente, no caminho do meio, verde hialino dos dois lados. E dunas, imensas dunas de areia branca, os picos nevados da Baía de Todos os Santos. Erguem-se feito zigurates e refulgem no rebrilhar safirino, afiado, do firmamento que ameaça se enrolar e tragar-nos.

No interior do carro, elevamos as vozes em uma canção desafinada, cheia de altos e baixos. É toda mecânica; ouvem-se as correntes e engrenagens, tais quais os cavalos que avançam a nossa carruagem metálica. Lá fora, nada disso. Da cúpula do mundo, gotas d’água tamborilam nas folhas das árvores. Em queda suave, deslizam pelo azul do céu em beijos demorados. É harmonia no descompasso. A melodia pungente nos toca os fios da alma, se somente puder alcançar-nos.

Na curva da estrada, o asfalto perde espaço. Despontam fragmentos de solo arenoso, há muito sufocado, sob uma amálgama de paralelepípedos de granito. A estrutura inteira treme até as bases, mas eis que o azul ressurge acima das moráceas. Após estacionar junto à calçada, atravessamos a pista até o píer e damos de cara com o lago. A superfície turva, de tom musgoso, reflete somente o mangue que penetra o coração das águas e as flores que descansam sobre a nata cristalizada. Raízes enxadrezam as margens, troncos fortes como homens que se insurgem contra a própria idade, copas cheias segredando umas às outras sobre as juras de amor entesouradas no verde profundo das bromélias aquáticas — as flores prescindem de colheita para serem presenteadas; antes, são como placas na estrada, lembretes tempestivos de palavras, olhares e datas.

Em meados de março, a vila é uma zona pacata. O sol se espreguiça na amplidão azulada, o céu nu e claro, a brisa espiralando feito seda diáfana. É uma coisa só, para todo lado onde se acha: um grande bloco anil, denso, túrgido, espalhado como uma massa recém sovada e posta para o descanso antes de assar. Casinhas humildes — vermelhas e amareladas — se seguem por restaurantes cuja opulência se ramifica no imaginário do turista incauto — madeira, vidro, taças de cristal e prataria — e estendem a influência em redes para capturá-lo. Ao mesmo passo, crianças trafegam descalças, correm aos tropeços atrás de cãezinhos e gatos. Escolas refulgem em borbulhas de infância, e sorvetes coloridos esperam, lustrosos na vitrine, a tarde mansa dos últimos dias da temporada.

Um extraordinário número de sabores é anunciado nas fachadas. Escolhemos dois. Mel de cacau e coco verde. Dividimos o sorvete na sombra, debaixo de folhas pintadas pelo tempo com os tons da uva e o sabor do vinho tinto. Depois, descemos até a igrejinha, branca e azul, onde o mar encontra a praia. Barquinhos oscilam nas águas, indo e vindo no sopro caprichoso do meio-dia. Almoçamos por ali mesmo, ao som da vida ondeando, na bruma leve do sal no ar.

A tarde chega depressa. Os passos lentos na calçada não acalmam o pulso ávido. Atravessamos uma ponte no parque. Madeira de lei. Água dos dois lados. Umbra na frente e atrás. Mas ali, luz abrindo o céu, descendo desde a cúpula, tocando a pele macia do mundo, os olhos brilhantes da juventude. Beijo suave nas cabeças que, apenas agora, principiam a agrisalhar. Há muito pela frente. Um só coração não dá conta de todas as memórias. De pertinho, sinto dois batimentos a concordar.

Mais uma parada antes de voltar para casa. Subimos a ladeira gramada. No alto, desabrocha a gameleira, os braços esguios, abertos, esticados. Coisa linda de se ver. Os galhos sussurram, as folhas bailam. Por dois séculos, desde que fora plantada, ela floria, imperava. Não retrocedia, não se retirava. As pedras do castelo à beira-mar já se desgastaram; trazem cicatrizes e contos impronunciáveis, mas a árvore é lembrança sempre viva, porto seguro para homens e pássaros.

Costuramos caminho naquela terra antiga, fértil de histórias centenárias e artefatos trazidos à tona pelo zelo da maré, pela perseverança da vida além dos calendários. Quanto mais fundo, mais se pode encontrar, mas mesmo ali, na superfície das rochas, empilhadas por mãos ágeis e delicadas, a glória rebrilha em dourado. Nada rarefeito ou escasso. Nada em ruínas que não se renove. Tudo em trânsito, repleto de sinais da jornada — obra incompleta da vida, que o tempo, em seus lampejos de graça, ainda há de consumar.

Retornamos ao carro, à estrada, à casa. O sol vai deitando no horizonte recortado pelos edifícios da metrópole. Mas a noite apenas nasce. Ainda jovens, estrelas cantam no firmamento ultramarino da velha Praia do Forte.


Giovanna é cristã, formada em teologia e mora em Salvador/BA. Escreve desde a infância, especialmente no gênero de fantasia, e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @gigiazous.

3 respostas a “Praia do Forte”

  1. Avatar de Josimar Silva Daniel
    Josimar Silva Daniel
  2. Avatar de Adriana Souza
    Adriana Souza
  3. Avatar de Misael Pulhes
    Misael Pulhes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *