Misael Pulhes
Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás.
Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.
“Parabéns, Marcinho”, “feliz aniversário”, e logo todos separados em dois pequenos times, no quintal enorme.
Um dos presentes, um apito. Marcinho, então, o juiz, o manda-chuva. E por que essa demora pro início da partida? Da rede, naquele vaivém gostoso, a gargalhada do aniversariante, que tem muito gosto com a expectativa dos amigos, aqueles olhos aflitos e fixos nele.
De repente, enfim, o barulho fino, metálico, vibrante. E bola dum lado, bola do outro, de pé em pé.
Passes, cortes, interceptações… falta! Marcinho e seu apito, os chefes.
Na cobrança, jogada ensaiada. Toca para cá, toca pra lá, bola alta, cabeçada… na sobra, um petardo e…
— Gooooooooool!
Marcinho narrador, também. Aniversariante, árbitro, narrador, o maioral! Um grande, um imenso sorriso, cheio de verdadeira felicidade. E os pais, felizes; sempre preocupados, sempre apreensivos, mas hoje, agora, felizes.
O primo mais velho, de apelido Pelé, o melhor. E os olhos de Marcinho, nele, principalmente nele, nos pés velozes, nos pés hábeis. Drible de Pelé, chapéu, chute e… na trave!! E mais um drible, meia-lua, bicicleta e… bola pra fora, bem nas mãos de Marcinho.
— A bola, Marcinho. A bola!
Ainda não, ainda não. Um minutinho. Eterno minutinho. Olhinhos na bola, e um brilho estranhado, bonito e triste, e todos os meninos quietos; a atenção em Marcinho, e o pensamento, e o coração também.
A bola, nunca um presente. Apito, sim. Camisa de time, vuvuzela, de tudo, sim. E o melhor presente, a cadeira, grande e veloz, bonita, cara. Mas bola, não, pois bola pra quê? Vôlei, chato; basquete, bem chato. O gosto de Marcinho: futebol, só futebol.
Fim do eterno minutinho. A bola, da rede pro chão, das mãos de Marcinho pros pés dos meninos. Como sempre.
Misael é paulista, casado com Carolina e mora em Uberlândia/MG. É cofundador e primeiro vice-presidente do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @misaelpulhes.

Deixe um comentário