Brendha Caldas
Dizem que inglês é uma língua de comerciante e alemão é uma língua de camponês. Consigo entender de onde vem a ideia: o inglês é objetivo, direto, fácil de se aprender. É mesmo uma língua boa para grandes feiras de cidades cosmopolitas, onde se fala rápido, caminha depressa e se come de pé.
Imagine só, fazer comércio em francês?
— C’est combien, s’il vous plaît?
— Quatre-vingt-quinze.
Quatro vinte quinze? Tem que fazer conta para dizer 95? Ninety five it is, then.
Já o alemão, bem… “waldeinsamkeit” (solidão de floresta) não é o tipo de palavra que poderia ser gerada no ventre de uma cidade. Primeiro porque não há floresta, segundo, não há solidão e, terceiro, é longa demais, provavelmente já haveria algum carro buzinando atrás antes de se terminar de falar.
A língua do campo não pode ter pressa. O tempo aqui se arrasta para ver a terra secar depois da trovoada, para ver a planta crescer. Os sentidos se tornam mais nítidos, as sensações, mais densas. As palavras pedem para ser inventadas; os afetos, os assombros, não cabem em um pueril vocabulário de burguês.
Como descrever os aromas? “Cheiro de terra”. Sim, mas terra como? De que forma, que tipo?
O cheiro ferroso da terra queimada, salgada, vermelha, debaixo do sol a pino, fumegando, irradiando calor que a vista até embaça, como poderia ter qualquer coisa do perfume doce de terra molhada pela tempestade de verão, negra, cálida, macia, cheia de minhocas e sementes germinando, boa de pisar? Ou então, aquele aroma leve, fresco, quase cítrico, que sobe soprado, silencioso, com a brisa na calada da noite, aroma de folha amassada sobre a terra úmida de orvalho, quase uma canção de ninar para o coração inquieto na vigília?
Tem palavra para isso? Os adjetivos decepcionam com sua demasiada objetividade. O campo exige que se apele à poesia.
O homem do campo é bem familiarizado com sulcos: os do leito do riacho enxuto, os do solo ressequido, os das mãos castigadas de enxada. Ele levanta o olhar queimado, paciente, suor escorrendo pelos sulcos do rosto marcado, para aquele céu limpo, de uma brancura que quase cega. “Como terra seca anseia pela chuva, assim a minha alma anseia por ti.”
“Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente às águas tranquilas.” Ah, o camponês sabe, ele sabe.
Brendha é baiana, estudante de medicina e atualmente mora em Salvador. Cristã batista, apaixonada por histórias desde pequena, escreve crônicas, contos e romances e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”.

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