Os Canarinhos

Eric Malta

Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou fazendo a liberação dos caminhões. O que mais amo, porém, é observá-los… os canarinhos. Quatro ao todo, os que ciscam nesse pátio de caminhões. Três deles são o clássico amarelo com manchas alaranjadas. Há um único cinzento. Ele é tratado diferente pelos demais e vive brigando com eles. Há de se pressupor certo racismo primitivo, quem sabe? Mas o canto deles me acalma na primeira luz da manhã. É o tipo de beleza que te arranca da cruel realidade material.

Que estranho… Olho para os lados. Mais um dia comum. (Mais um dia comum? Nunca reparei, mas o silêncio constante é um mito. Um mito que parecia ter ganhado vida.) Olho para os fios do poste, em frente à guarita: vazios. Olho para o chão do pátio: eles não estão lá. Não só eles, todos os penados que viviam ali. Um casal de bem-te-vis, um grupo de tesourinhas, periquitos, e os pardais e pombos idiotas. Mas senti falta mesmo deles, dos canarinhos.

Existe algo singular sobre um pássaro silvestre que insiste em ciscar mesmo no concreto. É belo e ingênuo. Lembro que, quando criança, minha cadela matou vários filhotinhos de canários no quintal. Eles eram tolos. Viviam na terra, voando baixo, mesmo sabendo da morte certa. Não são ariscos como pardais, nem espertos como pombos. Eles são puros.

Eu desço da guarita, olho ao redor e lágrimas escorrem. Sem os pássaros, quem poderia dizer que se pode viver no céu? Ninguém voa mais que um pássaro. Ninguém conhece mais a liberdade do que eles. É preciso gaiolas para que não fujam.

Às vezes, eu queria fugir, pois esta vida é uma gaiola em tantos momentos. Será que eles fugiram para sempre? Será que descobriram uma morada no céu onde não possam ser capturados ou mortos? Onde possam ser puros e singelos sem medo? Talvez estejam mais felizes do que eu. Porque aqui, nesta guarita, eu nunca poderei ser feliz sem eles.


Eric é de Anápolis/GO, cristão e internacionalista de formação. Apaixonado por todo tipo de história e de arte, especialmente nos gêneros de fantasia. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @eric.malta.jankowski.

4 respostas a “Os Canarinhos”

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