Karen Valentim Alves
Entre todas as cores da casa, uma em falta. O vermelho vivo dos vestidos de dona Dalva, tão floridos quanto o quintal — sempre num capricho danado. Mas, naquele dia, apenas cinza e folhas secas. E uma rede barulhenta.
— Ei, menina! E esse pé nas minhas plantas!?
Para aqueles pezinhos, descanso só em cima da rede também. Solução: bumbum para o lado, um aperto suportável e, finalmente, paz.
— Perdão pelas plantas, vó.
— Vó? Que vó?
— Tia! Perdão, tia.
— Muito bem. Homem pra uma avó, só por milagre. Mas pra uma tia, talvez…
Um pouco de silêncio e de olhos no chão. E a garota com a pergunta na ponta da língua.
— Tia…
— Hum?
— A senhora… vo-você e o seu João… vocês ainda…
— O quê? Ah, que besteira. Hora do seu suco de acerola.
Menos um peso na rede.
— Mas vó! E o amor de vocês dois?
Depois de um longo suspiro e uma coceira no cabelo…
— Amor nada. Aquele traste! Cada um no seu canto, e eu, de preferência, com um homem melhor. Sim?
— Sim, titia.
Em dez minutos, um suco de acerola docinho na mesa.
Em duas horas, palmas no portão. Seu João.
Em um ano, as cores de Dalva, outra vez, em falta.
Agora, só saudade.
–
Nascida em Brasília, Karen é esposa de Philippe e mãe de Débora e José. Formada em psicologia, gosta de escrever sobre o que nos pode dar esperança. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @karenalves.autora.

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