João Bosco C Barreto Jr.
Qual a vantagem de pensar, não sei. Seria uma vantagem não pensar? Perturba-te a ti mesmo! O perturbado em si é um mestiço com o aliviado. Observe os abutres, rodeiam a carniça e amontoam-se. Somente se chateariam com a injustiça se pensassem. Maldito aquele que pensa?
Deparei-me com algo, este algo com que me deparo choca-me, espanta-me. Há vantagem na cegueira? Apenas soube daquilo porque vi. O que vi? Uma ave. Olhou para mim com tanto afinco que me ofendeu. Ao mesmo tempo, era tão grandiosa. Ó pavão e suas plumas! Coloridamente encantador, mirou-me, agrediu-me. Senti tanto quando o vi. Fui abençoado, como a repreensão de um amigo que encerra sua exortação com um “digo isto porque amo-te”. Se for uma maldição enxergar, eu quero. Prefiro ver, ser um assustado e encantado com os pavões.
Noutro dia, nem precisei dos meus olhos, ouvi risadas e segui, abracei-os, tudo de olhos fechados. Estava num bloco de carnaval, numa tarde estranha, o carnaval pegava fogo. De repente, amigos me chamaram para dançar e beber, ficamos alegres. Foi um momento de tanta imperfeição. Dançávamos como quem morre. O bloco de carnaval chamava-se “Bloco do Rato”, e parecia um símbolo: gente suja, bebedeira, até a anunciação da própria morte. Onde está, ó morte? Eu te busco! Busco como uma ratazana, como quem vive rejeitado, como um rato mesmo, que na minha região é um tipo de qualidade baixíssima: olha o rato! Mesmo depreciando-me, dancei, sorri. Um rato maldito sou, quero ser; se for para ser, serei uma peste feliz. Maldito o que possui corpo? Maldito o que sente a dança e o abraço?
No futuro, evoluí de rato para cão, da raça caramelo, daqueles que balançam o rabinho e levemente abrem a boca, donde o focinho simula um sorriso; dizemos “olha como o cão ri”. Antes, um rato que dançava no meio da carniça, depois, um caramelo de rua que come as migalhas e está alegre, sem banho, sem teto. “Vem alguém, por favor? Adota o cão!” Adotaram o cãozinho caramelo e viram beleza nele, um coitado. O cão não pensa, nem o rato. O cão morrerá, o abutre espera para comê-lo depois de jogado o corpo; e os ratos dançam em meio à carniça.
Ai de mim! Se caso eu for, que eu seja uma ave. Dai-me a bênção de ser um pavão. Ele não se encontra no ciclo útil do rato, do cão ou do abutre; possui apenas a inútil beleza violenta.
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João Bosco Barreto Jr. é casado com Aliny, professor de filosofia e integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @soujoaobosco.

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