Itapuã

Brendha Caldas

É uma verdade universalmente conhecida que, se forem colocados veículos suficientes em uma via, eles assumem as propriedades de um fluido. Graças a Pascal, também sabemos que uma pressão exercida em um ponto de um líquido é integralmente transmitida a todos os pontos deste. Eis a explicação física para o fenômeno dos engarrafamentos de abril na cidade de Salvador.

Vêm as chuvas, alagam-se as vias e dissolvem-se os carros em um líquido uniforme. A pressão aumenta em um único ponto, uma coisa mínima, de início: um motoqueiro, segundo os modos que lhes são habituais, insiste em quebrar outra lei da física, a da impenetrabilidade da matéria, e na ânsia de fazer uma ultrapassagem, leva consigo o retrovisor de algum pobre diabo. Tão logo, aí está a miséria: é mais fácil um rico entrar no reino dos céus do que passar uma agulha pela Paralela.

Fazia 10 minutos que eu segurava a embreagem e o freio, e as pernas reclamavam. Olho para um lado, depois para o outro, presa no meio da confusão estagnada de luzes vermelhas, de xingamentos e de buzinas. 7h30 da manhã e nem metade do caminho, vou chegar atrasada para a aula.

Sobre mim, as nuvens espessam, prometendo chuva. A fila anda um pouco, risíveis três metros, aliviando momentaneamente a cãibra, mas logo volta a estacar. Olho com inveja para o metrô, correndo nos trilhos do lado. No meu rádio, a videoaula continua passando, esquecida.

As principais causas de morte imediata no trauma são as hemorragias exsanguinantes, causadas por cortes, quedas, fraturas expostas, esmagamentos…

Desligo o painel.

De súbito, a fila anda um pouco e, ao meu lado, abre-se a saída para outra via, completamente livre, bem ao lado das estátuas de Oxóssi e Mãe Stella. Fosse outro, atribuiria o milagre à intervenção do orixá. Olho para a multidão de veículos à frente, e de novo para a rua vazia. Quer saber? Que se dane! Vou por Itapuã.

Subo a ladeira em direção ao bairro costeiro, e Toquinho que me perdoe, mas não era tarde e não havia nem esteira de vime nem água de coco. Eram 7h37 de uma manhã de segunda-feira e chovia. Faço uma curva e… ah!

Colina abaixo, a fresta de céu azul, imaculado de nuvens, sobre o mar. E quão profundo aquele mar! Brilhando imperturbado com a desordem do mundo. De lá se vê o bairro todo, e eu sigo pela estrada retíssima até a costa. Itapuã parece que esqueceu de ser cidade grande. À direita, está o Parque das Dunas, que se precisa ver para entender o encanto. Quilômetros de dunas de areia branquinha, e como ela brilha sob os raios do sol, bem ali, no coração da cidade!

À minha esquerda, uma fileira de sobrados, desses de praia, coloridos. Em frente, árvores frondosas fazendo sombra sobre a rua. Eu quase posso ver as crianças daquelas casas, afoitas, descendo de bicicleta a ladeira suave, com roupas de banho e o nariz branco de protetor solar, insistência da mãe, o mar ficando cada vez mais perto…

Mas o sonho logo se dissipa, porque faço outra curva, que esconde o mar atrás da parede de casas e me traz de volta à chuva. Não há nenhum ser vivente por perto, meu carro é o único a atravessar o caminho, o GPS alerta “perigo à frente”, e logo entendo o porquê. Vários trechos alagados. Há algo de profético, escatológico ali: as dunas de areia, as ruas vazias de gente e cheias de água, um prenúncio de Atlântida, o mar tomando de volta o que antes fora seu.

A voz mecânica continua dizendo para ir em frente e, por um momento, acho que seguirei pelo litoral norte até cruzar o Equador. Mas ela urge que se vire à esquerda, e troco Itapuã pelas ruas estreitas e prédios encardidos do velho centro da cidade, zumbindo de vida, feirantes e camelôs fugindo para salvar a mercadoria do aguaceiro.

Agora era uma volta para direita, depois à esquerda, entra ali e faz a curva aqui, um labirinto caleidoscópico. Até que certa esquina me passa uma estranha sensação de familiaridade. Faço a volta, olho por outro ângulo e é como uma verdadeira magia: eu sei exatamente onde estou, na rua de trás do meu destino!

Atravesso o portão, a chuva havia passado. Saio do carro. Os ladrilhos alagados do estacionamento refletem o céu azul perfeito. Olho para cima. Não há lugar em que o céu seja tão azul quanto em Salvador, e não há azul tão bonito quanto o que se abre após o cinza da tempestade. Inspiro longamente. O ar de Salvador é carregado de umidade, maresia e miasmas, porém, naquela breve hora santa, de manhã, logo depois da chuva, ele fica lavado, leve, fresco e doce.

Entro na sala, finalmente, mais de quarenta minutos atrasada. Sem aula, ainda. O professor não havia chegado. Estava preso no engarrafamento.


Brendha é baiana, estudante de medicina e atualmente mora em Salvador. Cristã batista, apaixonada por histórias desde pequena, escreve crônicas, contos e romances e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”.

5 respostas a “Itapuã”

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    Rayssa Sales
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