Brendha Caldas
No capítulo 8 de Atos, o apóstolo Filipe é levado a pregar para um eunuco, mordomo-mor da rainha Candace, viajando pelo deserto. Indo eles caminhando, diz o texto, havia uma fonte de água, talvez algum oásis, cercado de árvores. Disse o eunuco: eis aqui água; que me impede de ser batizado? Gosto de pensar que foi assim que a Boa Nova chegou e se espalhou pela Etiópia.
As raízes do cristianismo no Reino do Sul são velhas, profundas e retorcidas. Foi um dos primeiros reinos declaradamente cristãos, a conversão ocorreu no antigo Reino de Axum, no século IV, sob o reinado do Rei Exana, evangelizado por São Frumêncio, que fora enviado pelo próprio Atanásio. Teve origem assim uma das tradições cristãs mais antigas: a Igreja Ortodoxa Etíope.
Mas haveria laços ainda anteriores? A lenda conta que quando a Rainha de Sabá estava prestes a partir de Jerusalém, Salomão a convidou para passar uma noite no palácio. Da união deles nasceu um filho, Menelik, que quando jovem se apresentou diante de seu pai, para aprender de sua sabedoria. Depois voltou à Etiópia para ser coroado, formando a dinastia dos Salomônidas. O Leão de Judá (“o Leão Conquistador”) é até hoje o símbolo da monarquia etíope, um casamento interessante entre a cultura hebraica e uma dinastia africana.
Em outubro de 1935, Mussolini invadiu a Etiópia, um massacre marcado pelo uso de armas químicas contra civis. A tragédia é quase familiar: aquele aspirante a Império Romano se erguendo contra o povo santo, um ensaio de Armagedon. Ainda assim, a Etiópia foi o único país do continente a driblar oficialmente a colonização, cativando o imaginário de toda uma cultura de resistência do povo negro.
Durante a ocupação, o imperador Haile Selassie, suposto último regente da dinastia Salomônica, foi forçado ao exílio. Expulso de casa, peregrinou pelo mundo. Os rastafari na Jamaica o adoraram como um deus, o que é tragicamente cômico, já que ele era cristão. “Haile Selassie is the Chapel; Power of the Trinity; Build your mind on this direction; Serve the living God and live”, cantou Bob Marley em 1968, em sua honra. A música, apesar da intenção idólatra, acerta estranhamente na letra. Haile Selassie (“poder da trindade”, esse é o significado de seu nome) é mesmo, em certo sentido, uma capela. Mas não a única.
Se você sobrevoar a Etiópia nos dias de hoje, verá que o deserto toma a maior parte do território. A floresta tropical, maior bioma natural do país, que cobria quarenta por cento de sua extensão, foi reduzida, nos últimos cem anos, a pouco menos de cinco por cento, graças à ocupação da agricultura e pecuária. Entretanto, é possível ver, em meio ao deserto, aqui e acolá, vários pequenos pontos verdes isolados. Ilhas vivas resistindo em meio ao oceano de morte.
No meio do deserto há uma floresta e no meio da floresta há uma igreja. E a floresta é a igreja.
Acontece que, desde os tempos mais remotos, a crença dos cristãos etíopes na importância da solitude como disciplina espiritual fez com que muitos templos fossem construídos no interior de matas densas. A natureza em si adquiriu um valor sagrado, alguns podem dizer que por resquício de crenças animistas, mas eu lhes defenderei a ortodoxia: os bosques foram os primeiros templos de Deus. A igreja-floresta é um pequeno Éden recriado, onde a divindade vem de encontro na viração do dia.
No Salmo 1, o Justo é a árvore plantada junto aos ribeiros de água, cuja folhagem não murcha mesmo na estação seca e que dá o seu fruto no tempo certo. Forma-se, então, essa tapeçaria polissêmica, quem há de compreender o enigma? Que pessoas são árvores, e árvores são templos, e pessoas são templos, e Cristo — homem, árvore e templo — é tudo e está em todos.
Fico pensando nesses templos, pequenos oásis de fé em meio a um país profundamente violentado, testemunhando da crença de nossos reis e nossos pais, aguardando na esperança do Deus-Rei, que virá com o seu rio, alagando toda a Terra. Uma antecipação de um casamento, da Noiva com o Cordeiro, da Nova Jerusalém com o Jardim. E a cidade é a noiva e a noiva é a cidade, e no meio dela há uma árvore cujas folhas servem de remédio para curar as nações. Nas palavras de Edson Gomes, músico baiano que cantou a respeito dos direitos e dignidade do povo negro, “todo santo dia; pois todo dia é santo; e eu sou uma árvore bonita.”
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Brendha é baiana, estudante de medicina e atualmente mora em Salvador. Cristã batista, apaixonada por histórias desde pequena, escreve crônicas, contos e romances e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @brendhacaldas_.

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