Crônica

  • Nelson Rodrigues fala dos 3 x 0: a tremenda vitória

    Na “Copa do Mundo de 1958”, o Brasil fazia parte do Grupo 4, ao lado da Inglaterra, União Soviética e Áustria. Na estreia, contra a Áustria, o Brasil venceu por 3 x 0, com dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos. O jogo ocorreu em 8 de junho, em Udevalla. O empate…

  • As duas realidades

    1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali,…

  • A América Latina, essa desconhecida

    1 O sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Digamos que ele tenha tomado uns três uísques. Bem sei que há pessoas sem nenhuma resistência. Tenho um amigo que se embriaga até com o licor do bombom. Normalmente, porém, os três uísques não derrubam ninguém, e repito: é…

  • Corinthians

    Nelson Rodrigues 1. Amigos, o meu personagem da semana é do Corinthians ou por outra: — o meu personagem da semana é o próprio Corinthians. Grande time, não há dúvida, de um forte, largo feitio épico. Diz-se, com justiça, que o Corinthians é uma espécie de Flamengo, assim como o Flamengo é uma espécie…

  • A Perimetral Norte

    1 Um dia, estou tomando sopa, honrada sopa, quando me ocorre o seguinte: — há quarenta e tantos anos, eu não pensava no Piauí. Vocês entendem? O Piauí é nosso, é nosso sangue, é nossa terra, e há brasileiros que nascem, vivem, envelhecem e morrem sem pensar no Piauí. Se eu fosse único, teria…

  • Temos, no Rio, uma fabulosa mulher de papel

    1 Eu diria que a grã-fina não tem nada a ver com a vida real. Há um ano, ano e pouco, passei no Antonio’s. Era meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora. Entro e ouço: os palavrões gorgeavam como nunca. Vi, num canto, uma mesa para dois. Eu era um, mas sentei-me. Coincidiu…

  • Nada mais antigo do que o passado recente

    1 Sou o colunista que se repete com um límpido impudor. Não tenho o menor escrúpulo em usar duzentas, trezentas vezes a mesma metáfora. Eis o que me pergunto: por que não insistir na imagem bem-sucedida? Certa vez, vou passando pela porta do cinema Rex. Súbito, ouço o grito triunfal: “Óbvio ululante!” Viro-me e…

  • Piauí já tem o seu estadista

    1 Decerto, vocês conhecem de nome, de vista, de cumprimento ou de simples referência, o Dâmaso Salcede, de Os Maias. É um dos bons tipos do Eça. Pois bem. E o Dâmaso, que era de uma pusilanimidade total, vivia dizendo: “Desaforos, não admito!” Dizia isso ou, melhor, rugia isso, atirando patadas em todas as…

  • Conversa de bastidores

    Graciliano Ramos Com o papel caro, o livro pela hora da morte, as tipografias abarrotadas, o livreiro se esconde, recusa de longe as ofertas de escritas que inundam o mercado. Pois sei de editor rigoroso que andou em busca de um literato inédito, desconhecido, tão desconhecido que até lhe ignorávamos o nome. Talvez seja…

  • O grande homem

    1 Há coisa de um mês, um mês e meio, sei lá, o contínuo parou na minha mesa: “Tem aí um cara te procurando.” Eu estava batendo, justamente, uma das minhas “Confissões” sobre o Piauí. Disse, impulsivamente: “Manda entrar.” Era uma imprudência. Sou uma vítima dos vendedores de enciclopédia. Todos os dias, eles fazem…