Nada mais antigo do que o passado recente

1 Sou o colunista que se repete com um límpido impudor. Não tenho o menor escrúpulo em usar duzentas, trezentas vezes a mesma metáfora. Eis o que me pergunto: por que não insistir na imagem bem-sucedida? Certa vez, vou passando pela porta do cinema Rex. Súbito, ouço o grito triunfal: “Óbvio ululante!” Viro-me e vejo, na outra calçada, um lavador de automóvel. Passando a estopa no paralama, berra, outra vez: “Óbvio ululante!” Faço-lhe um gesto amigo. E o outro pergunta: “A pronúncia está certa?”

2 Atravessei a rua para cumprimentar o meu leitor. Dei-lhe a minha palavra: — “A pronúncia está certíssima.” E o outro, feliz, abria o admirável riso de um dente só. No pequeno episódio está todo o milagre da repetição. Tenho promovido tão tenazmente o “óbvio” que ele se tornou íntimo de toda uma população. Sim, fala-se do “óbvio” como se ele fosse um amigo, um parente ou jogador do Flamengo.

3 Aprendi que as coisas ditas uma vez e só uma vez, morrem inéditas. Claro que os eternos descontentes, que sempre os há, protestam: “Você já escreveu isso.” E, um dia, uma senhora bateu o telefone para mim: — “O senhor escreveu, hoje, a ‘Confissão’ de ontem.” Disse-lhe: “Boa piada, boa piada.” Rimos ambos e ela já se despedia alegremente: “Desculpe a brincadeira.”

4 A leitora tinha razão a meu respeito, porque não nego as minhas repetições. E, além disso, sem o querer, ela definira toda uma época jornalística. Não sei se repararam que só sai o jornal da véspera e nunca do próprio dia. São fatos da véspera, figuras da véspera, a morte da véspera, a batalha da véspera. O fato do dia não existe ou só existe para o rádio e para as TVs.

5 Um paralelo entre duas épocas jornalísticas ensina que, no passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal. E assim o marido que matava a mulher e a mulher que matava o marido. Tudo tinha a tensão, a magia, o dramatismo da própria vida. Mas como, hoje, só há o jornal da véspera, cria-se uma distância entre nós e a notícia, entre nós e o fato, entre nós e a calamidade pública ou privada. Servem-nos a informação envelhecida.

6 Outro dia, um colega veio para mim, aflitíssimo: “Não sei o que é que eu tenho, não sei.” Pergunto: “Dor de cabeça?” Não, não. E explica: — “Estou me sentindo velho, velho.” Ofereci-lhe um comprimido como se ele pudesse curar a súbita velhice com aspirina. Até que percebi toda a verdade: era uma velhice profissional e repito: nós, jornalistas, é que estamos mais obsoletos, mais fora de moda do que o charleston, do que o tango, do que Benjamin Costallat.

7 Dirão vocês que, apesar dos pesares, o jornal da véspera ainda comove. Não, não. Essa margem de tempo que vai da véspera ao dia seguinte, impede qualquer apelo emocional. Ainda ontem, li uma notícia que, normalmente, seria de um impacto muito firme e muito puro. Imaginem que o Piauí terá sua universidade. Anuncia-se, ao mesmo tempo, que foi criada a Comissão de Desenvolvimento que atuará na bacia de Boa Esperança.

8 Vivo eu a escrever, nesta coluna, sobre a solidão do Piauí. Nenhum Estado mais dramático. Há quem diga que o Piauí é tão só, na comunidade brasileira, tão só como um Robinson Crusoé sem radinho de pilha. Parece que, afinal, cessa a sua incomunicabilidade. Há quem se lembre do Piauí. E eu pergunto: — quem se lembrou do Piauí, quem? Se há um milagre, quem foi o autor do milagre?

9 Imaginei: “Um piauiense.” Claro. Milagres no Piauí, ou em favor do Piauí, exigem a autoria de um piauiense. Pode parecer que é exagero. Absolutamente. Os homens públicos só costumam fazer o que rende promocionalmente. Ajudar o Piauí, dar-lhe a mão, desenvolvê-lo, industrializá-lo — não promove ninguém. Não se conhece uma palavra de d. Hélder sobre o Piauí. Ao passo que a seca, por exemplo, é plástica, literária, retórica, jornalística. E há sempre alguém disposto a fazer nome com a seca. Outro: o Amazonas. Sim, o Amazonas já comove o Brasil.

10 Falamos muito do Nordeste. Ótimo. Mas o que chamamos “Nordeste” é um saco ou pacote, onde enfiamos várias misérias. Chega a ser uma impiedade. Dentro do saco ou do pacote, ninguém é ninguém, os Estados perdem a identidade, nada tem nome. E ocorre esta coisa a um só tempo hedionda e patusca: enquanto resolvemos os problemas do Nordeste, não cuidamos dos flagelados de cada qual. Afinal de contas, o Piauí não quer ser Norte, não quer ser Nordeste e pede ao resto do Brasil que o deixe ser apenas e definitivamente o Piauí.

11 Volto à universidade que vai ser instalada em Teresina, suponho. Li a notícia num jornal que, como todos os seus colegas, nunca é do dia, sempre da véspera. Comecei a especular. Telefonei para vários confrades e acabei descobrindo o autor do milagre. É o Velloso, ou por extenso: João Paulo dos Reis Velloso. Como não podia deixar de ser, trata-se de um piauiense radical. O leitor há de querer saber quem é Velloso, quais são seus títulos, méritos, obras. Vamos lá.

12 A história pública do nosso Velloso começa em Roberto Campos. Antes de assumir o ministério, no governo de Castelo, Roberto Campos tratou de fazer uma equipe seletíssima. E estava procurando nomes, quando alguém foi sussurrar-lhe: “Parece que tem aí um pau de arara interessante, um tal de Velloso.” Roberto Campos deve ter perguntado: “Que é que ele fez?” Resposta: “Foi o primeiro em Yale.” O grande ministro não perdeu tempo: — “Se foi o primeiro em Yale, manda.” Assim Velloso, o piauiense, teve uma nomeação fulminante.

13 Vamos recuar no tempo. Como um pau de arara foi parar nos Estados Unidos? Arranjou, não sei como, uma bolsa de estudo. Ninguém mais desconhecido, ninguém mais anônimo. Só os familiares e os vizinhos é que diziam, esmagados de respeito: “Uma cabeça, uma cabeça.” É doce a vitória de um brasileiro e, ainda mais, piauiense, nos Estados Unidos. Com uns tostões contadinhos, foi um pau de arara perdido, desgarrado, numa apavorante selva humana. E começou a ser o primeiro e continuou o primeiro, até o fim.

14 Eis o que eu queria dizer: foi nos Estados Unidos que teve do Piauí a visão mais nítida, exata, profunda. E criou, dentro da solidão americana, a utopia da universidade piauiense. Se quisesse, podia ter ficado por lá. Ah, os convites que recebeu. Dizia não, não e não. Seu destino era o Piauí. Voltou. Trabalhou com Roberto Campos e sempre pensando na universidade. Os outros tratam do Nordeste. E não ocorre a ninguém que chorar pelo Nordeste é uma boa maneira de não chorar por ninguém. Desde Yale que o nosso Velloso chora pelo Piauí. E a universidade, que finalmente vai sair, tem muito de sua obstinação dramática.


Nelson Rodrigues
O Globo, 16/5/1969

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