Temos, no Rio, uma fabulosa mulher de papel

1 Eu diria que a grã-fina não tem nada a ver com a vida real. Há um ano, ano e pouco, passei no Antonio’s. Era meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora. Entro e ouço: os palavrões gorgeavam como nunca. Vi, num canto, uma mesa para dois. Eu era um, mas sentei-me. Coincidiu que à mesa, ao lado, estivesse a grã-fina. Era um grupo de seis ou sete, todos grã-finos.

2 O Antonio’s vivia, então, o seu grande momento. Todo mundo ia amar no Antonio’s, odiar no Antonio’s, trair no Antonio’s. Não era um restaurante, mas uma pose. Ninguém o frequentava para comer ou beber, mas para posar. E, de vez em quando, aparecia lá, desgarrada, uma dessas velhas internacionais inimagináveis, fascinada pela história e lenda do Antonio’s. E eu da minha mesa, não tirava a vista da grã-fina.

3 De repente ela solta uma gargalhada. No bom tempo, os fregueses do Antonio’s, entre o sorriso sutil e a gargalhada vital, preferiam esta última. E os eternos descontentes, que sempre os há, e sarcásticos, diriam que a grã-fina ria como uma lavadeira. Já estou comendo um bom bife. E eis que vem o garçom, ou gerente. Agora me lembro — o gerente entrega ao marido da grã-fina um maço de papéis. A olho nu, fiz os meus cálculos: seis meses de contas nababescas.

4 Imediatamente, meu prato, meu bife, minhas fritas tornaram-se secundários, irrelevantes. Só tive olhos e ouvidos para ver e ouvir o que estava acontecendo ao lado. E eu olhava como se a cena fosse um quadro de Goya. Imaginem se, de repente, entra no Antonio’s um quadro de Goya. E se o quadro de Goya, devidamente autenticado, ocupasse a mesa mais próxima. Não seria mais agudo o meu prazer visual. Pena que não seja eu um descritivo para fixar, em todo o seu dramatismo, o que estava acontecendo.

5 E, então, com infinita paciência, um interesse quase lúbrico, o marido foi repassando, um por um, aqueles papéis. Não sei se me entendem. Eram papéis que, somados, dariam uma bobina de jornal. O grã-fino não tinha pressa e pelo contrário: examinava as contas com ternura. E, de vez em quando, entre uma gargalhada e outra, a grã-fina olhava as notas com uma curiosidade a um só tempo furtiva e encantada.

6 Eram despesas feitas, noite após noite, através de seis meses, talvez um ano. E os papéis pareciam-me liricamente amarelados como flores secas de um amor fenecido. Durou duas horas a revisão. Em igual tempo, ele teria lido a metade do Conde de Monte Cristo. Já não me lembrava mais do meu prato, do meu bife, de minhas fritas. Eis o suspense que me torturava: que faria ele quando acabasse de conferir o último papel? Instalou-se em mim a certeza fatal: “Vai pagar.”

7 Ao mesmo tempo começava, entre os companheiros do casal, um certo processo de angústia. Ninguém falava, nem ria. Estavam todos magnetizados por uma dívida do rei Farouk. Nas mesas próximas, os palavrões tinham emudecido. O suspense contagiara todo o restaurante. Evidentemente, o grã-fino não estaria conferindo as notas por simples curiosidade vadia. Final mente, ao cabo de duas horas intermináveis, chegou ao fim. E, então, sem uma palavra, deu a papelada à mulher.

8 A cena repetiu-se. Continuava o suspense. Adiava-se o desfecho. E a grãfina, com a mesma e delicada paciência do marido, examinou todas as contas, uma por uma. Eram antigos jantares, vinhos, ou por outra: velhos uísques nostálgicos. Notas de duzentos contos, trezentos, quatrocentos ou quinhentos. A tensão dos presentes já era insuportável. O gerente, lá de longe, lambia o casal com a vista. E a grã-fina continuava, não tinha nenhuma urgência. De vez em quando, voltava atrás e reexaminava uma despesa talvez maior.

9 No fim de certo tempo, quem estava exausto era eu. Mas não sairia dali nunca, tão inarredável era a minha curiosidade. Queria ver o momento em que o grã-fino ia encher um cheque de cem milhões para pagar seis meses de despesas suntuárias. E, por fim, depois de outras duas horas, a grã-fina chegou ao último e miserável papel. Leu e releu com uma espécie de volúpia. E, em seguida, com um suspiro imperceptível como o hálito, devolveu a papelada ao marido.

10 Criou-se o terceiro e alucinante suspense: e se tudo começasse de novo? E se o marido fosse ler a papelada outra vez? Não. Fez um gesto para o gerente. Lá veio o homem com sombrio élan. Naturalmente, esperava que o pagassem, claro. Está ao lado da mesa, firme, hierático, ereto como que ouvindo o Hino Nacional. É agora. O grã-fino pega a papelada e a passa ao gerente. Disse apenas: “Traz a nota.” Como um escorraçado, sai de cena o gerente. Pouco depois vem o garçom com a nota que o grã-fino visa sem olhar, com o tédio dos finais de noite. Era mais uma. E o casal e os companheiros se levantaram. Retiraram-se, por entre mesas e cadeiras, acenando em todas as direções.

11 Segundo Mao Tse-tung, a bomba atômica é um “tigre de papel”. Eu diria que a verdadeira grã-fina é também uma mulher de papel. É de papel ou são de papel os papagaios que o grã-finismo vai largando nos bancos. Mas comecei dizendo que a grã-fina nada tem a ver com a vida real. Pensem na cena do Antonio’s. Não é um casal qualquer, mais o mais célebre, talvez, da cidade. Quando ela passa, há o cochicho universal: “Olha Fulana! Olha Fulana!” Por toda parte, inspira paixões e suicídios. Suicídio, não. O homem se mata por amor e não por sexo. E o marido não tem como pagar o pileque de ambos.

12 Mora num palácio. Quem fez o seu jardim foi Burle Marx. Na hora do banho, o que jorra de uma bica de ouro é o efervescente leite de cabra. Não pensem numa banheira trivial. Banha-se numa piscina. E crocodilos ornamentais deslizam, no leite, sem marola. Manchete vai à sua casa, para fotografar um dos “mais belos interiores do Brasil”. E o patético é que vive tal vida — sem um tostão.

13 Dirão os idiotas da objetividade que estou fazendo um exagero caricatural. Mas repito: sem um tostão. Tem setecentos pares de sapatos e deve do primeiro ao último par. Vai devendo em todos os restaurantes. Nas suas paredes, as telas são de Cézanne, Claude Monet, Degas, Picasso e outros, e outros. Os idiotas da objetividade poderão insistir: “E o dinheiro? E o dinheiro?” Mas eu adverti, na primeira frase desta confissão, que a grã-fina não tem nenhum compromisso com a vida real. Ela vive como se o mundo fosse um cósmico Antonio’s, onde ela pudesse “espetar” o sapato, o vestido, os caprichos e o pileque.

14 Já disse, e aqui repito, que São Paulo não tem uma única grã-fina. E por que não a tem? Porque há dinheiro em São Paulo. E a mulher rica não precisa ser grã-fina. Ora, partindo do princípio de que o grã-finismo exige a comunidade pobre, escrevi, certa vez, que o Estado ideal para a grã-fina seria, entre outros, o Piauí. Disse-o e logo me arrependi. Os protestos choveram.

15 Verifiquei então, com desolado escândalo, que Piauí não quer ser pobre. Mas desde quando a pobreza foi vergonha? Não sei se contei, aqui, o caso daquele governante que entrou rico na Sicília pobre e saiu pobre da Sicília rica. A riqueza é que era sua humilhação total. Mas quando, sem um níquel, saiu do Poder, os sicilianos, em massa, atiravam-lhe rosas para que ele as pisasse. A nossa Assembleia Legislativa, pressurosa, deu-lhe o título de “Cidadão Carioca”. E o presidente De Gaulle, em pessoa, veio enfiar-lhe na lapela a Legião de Honra. E tudo por quê? Porque o ex-governante, tendo perdido tudo, passou a dever até o leite do caçula. Sua mulher acabou grã-fina.

16 Segundo deduzo, o Piauí não entendeu que lhe tenho profunda simpatia. Chamando-o de “pobre”, tive a intenção óbvia de elogiá-lo. Era como se o estivesse gabando: “Vejam como o Piauí é pobre” etc. etc. E, no entanto, vejam vocês: pela primeira vez, desde que se inventou a cortesia, um elogio é injurioso. Ainda ontem, recebo de São Luís. Desculpem. São Luís é Maranhão. Eu queria dizer Teresina. Ou não é Teresina? É Teresina, sim. Mas como ia dizendo: recebi um telegrama de lá, ofendidíssimo. Sim um telegrama cujos brios estavam mais eriçados do que as cerdas bravas do javali. E o remetente exigia-me satisfações urgentes e totais. Excelente! Já vi que terei de recolher todos os elogios que lhe fiz.


Nelson Rodrigues
O Globo, 22/3/1969

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