Piauí já tem o seu estadista

1 Decerto, vocês conhecem de nome, de vista, de cumprimento ou de simples referência, o Dâmaso Salcede, de Os Maias. É um dos bons tipos do Eça. Pois bem. E o Dâmaso, que era de uma pusilanimidade total, vivia dizendo: “Desaforos, não admito!” Dizia isso ou, melhor, rugia isso, atirando patadas em todas as direções. Mas quando o Carlos da Maia o ameaçou de bengaladas, o Dâmaso, em seu pânico feroz, subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional.

2 Com o piauiense, acontece o inverso e repito: o piauiense é muito mais Tartarin do que Salcede. Não lhe façam desfeitas. Com os brios mais eriçados do que as cerdas bravas do javali, não tem medo de nada. Ao contrário do Dâmaso, que engolia os mais nefandos ultrajes, o piauiense realmente não admite desaforos e pior: não admite nem elogios.

3 O leitor, que é um simples, há de imaginar que eu esteja fazendo um exagero caricatural. Deus me livre. De fato, o piauiense tem esta singularidade admirável: ofende-se com desaforos e, mais ainda, com elogios. Posso citar uma experiência que vivi na própria carne e na própria alma. Mas vamos aos fatos.

4 Um dia, escrevi um artigo sobre o Piauí. Ou para ser numericamente exato: não um, mas dez. Foram páginas de amor, páginas de justiça, páginas de solidariedade. Eu sentia isso que é uma evidência concreta e estarrecedora: o Piauí está só. E eu acusava o Brasil de solidão tamanha. O que eu propunha é que, após 469 anos de descaso, todos os brasileiros, vivos ou mortos, fossem irmãos do Piauí.

5 Por que fiz isso? Devo uma amarga confissão aos piauienses e aos nãopiauienses. A dura e feia verdade é que, por um lado, tive os propósitos mais elevados e, por outro lado, intenções quase indignas. No fundo, no fundo o meu narcisismo estava por trás de tudo. Não sei se me entendem e eu explico.

6 Eu contava que o Piauí, agradecido, rendesse a mim as homenagens mais deslavadas. Eu já me via desfilando pelas ruas de Teresina. Toda a cidade na rua. A Assembleia Legislativa, em sessão extraordinária, me daria o título de “cidadão piauiense”. Visualizem a cena. Eu, em pé, de carro aberto, atirando beijos com ambas as mãos. Todas as ruas de Teresina passariam a se chamar “Nelson Rodrigues”. Aqui, em casa, abanando-me com a Revista do Rádio, imaginei a inauguração do meu busto etc. etc.

7 Mas o que eu não sabia é que o piauiense não admite elogios. E mal saía aqui o primeiro artigo, e lá a imprensa, numa unanimidade feroz, bramava horrores de mim. O Liberal, por exemplo, chamou-me de “cabra velho muito sem vergonha”. A minha perplexidade assumiu proporções quase dolorosas. Como? Eu atirava pétalas sobre o Piauí e ele me apedrejava como uma adúltera bíblica? Passei dias e noites exalando a mais cava depressão.

8 Ainda tenho comigo um recorte de O Liberal, que é o New York Times de Teresina. Lá está uma relação imensa das figuras notáveis do Piauí. Segundo O Liberal, os grandes homens do Estado são inumeráveis. Vejamos alguns: Deolindo Couto, João Paulo dos Reis Velloso, João Paulo dos Reis Velloso, Deolindo Couto, Deolindo Couto, João Paulo dos Reis Velloso, João Paulo dos Reis Velloso, Deolindo Couto. Paro, porque são tantos os nomes que este artigo correria o risco de passar por uma lista telefônica.

9 Mas vejam que coisa prodigiosa. Feliz do Estado, em que os grandes homens ou se chamam Deolindo Couto ou João Paulo dos Reis Velloso. E se é assim no presente, deve ter sido assim no passado. Há quatrocentos anos que qualquer piauiense ilustre ou é Deolindo Couto ou João Paulo dos Reis Velloso.

10 Bem. Até aqui, falou o meu alegre ressentimento por tudo que lá se disse e lá se escreveu contra mim. Entre parênteses, acabei adquirindo um cruel sentimento de culpa. Mas tenho uma atenuante, que quase me justifica e quase me absolve: sob minha palavra de honra, eu ignorava, com a mais crassa e obtusa boa-fé, que o Piauí, ao contrário do Dâmaso que não admitia desaforos, o Piauí não admite elogios. Mas como eu ia dizendo: esqueço o meu fracassado narcisismo, e passo a falar sério.

11 Tempos atrás, jantei na casa de José Vieira, com João Paulo dos Reis Velloso e Marcelo Soares de Moura. Não foi o iradíssimo O Liberal que me revelou a existência de Velloso. Muitos amigos meus já me haviam falado de Velloso como uma extraordinária figura. Vale a pena resumir a sua história. Em sua adolescência, ele não tinha onde cair morto. Até que, um dia, embarcou para os Estados Unidos. Imagino que viajou num cargueiro e não me admiraria nada se tivesse lavado pratos. Muito bem. E desembarca nos Estados Unidos.

12 Pergunto se vocês imaginam o que seja a solidão de um pau de arara naquela nação formidável. O nosso Velloso chega lá e não teve medo de nada. Entrou numa fabulosa universidade e foi o primeiro em tudo. Ninguém mais lúcido, mais inteligente, mais tenaz, de uma seriedade mais fanática. Não sei, mas acho que passou fome. Certa vez, falei do então ministro Nascimento Silva que chegava a ser humilde de tão simples e assim parecia o contínuo de si mesmo.

13 Também João Paulo dos Reis Velloso não tem, fisicamente, nada do grande homem. Não usa ternos de grande homem, nem gravata de grande homem, nem sapatos de grande homem. Diz as coisas mais inteligentes sem nenhuma inflexão de grande homem.

14 Mas quando Roberto Campos tratou de formar a sua equipe, que tinha uma figura genial como Mário Henrique Simonsen. Mas o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah, dizia que, ao formar sua equipe, Roberto Campos ouviu falar em Velloso. Soube que, na universidade americana, o valor de Velloso humilhara todos os estudantes seus contemporâneos. Roberto Campos tem, além do mais, o gênio da seleção. Do mesmo modo que abomina o idiota, é um fascinado pela competência. Velloso foi uma das grandes figuras do seu ministério.

15 Volto ao jantar na casa do José Vieira. O primeiro a falar do Piauí foi o Marcelo Soares de Moura. Começou assim: “Você esqueceu um piauiense excepcional.” E repetia: “Um grande piauiense.” Aleguei que a injustiça não era minha mas da imprensa piauiense que citara escassamente dois piauienses ilustres: “Deolindo Couto e João Paulo dos Reis Velloso.” Perguntei quem era o piauiense de tantos méritos que eu absolutamente não conhecia. O Marcelo Soares de Moura deu o nome: “Martins Napoleão.” O meu amigo não parou mais: “Poeta dos maiores do Brasil. Você precisa ler a sua obra. Admirável.” Prometi-lhe, de pedra e cal, que, na primeira oportunidade, ia ler o Martins Napoleão. E observei, então, que devem existir uma série de talentos piauienses que ninguém sabe que são piauienses. Contei que levara 57 anos para descobrir que o Castelinho (Carlos Castello Branco) e o Odylo Costa, filho, eram piauienses.

16 Quando o Marcelo acabou a sua apologia, voltei-me para o João Paulo dos Reis Velloso. Disse-lhe, à queima-roupa: “Velloso, você precisa ser governador do Piauí.” Riu, achou graça. Subitamente sério, replicou: “Eu sirvo melhor ao Piauí em Brasília.” Mas sou um obsessivo: “Não, Velloso. Você tem que ser governador do Piauí. Tem que ir para lá. Seja governador do Piauí.” Falei como se piauiense fosse. Em resumo, eis meu argumento: “Ninguém faz o Piauí. É um Estado à espera de alguém que o faça. Nunca foi feito, até agora não foi feito.” Terminei, enfático: “O Piauí precisa de um estadista.” Saiu-me a palavra e, de repente, senti que estava, ali, na minha frente, o estadista. Chama-se João Paulo dos Reis Velloso.


Nelson Rodrigues
O Globo, 24/10/1969

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