As duas realidades

1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali, substituindo os pombos. Que faz o grande Adolfo? Atira o milho que trazia nos bolsos. Foi lindo ver o açodamento com que os turistas americanos bicavam o milho pelo chão.

2 Mas o homem de Manchete conhecia tudo aquilo de cor. Já no tédio do turismo convencional, teve uma luminosíssima ideia: “Vou a Moscou.” Três ou quatro dias depois, estava na fila do túmulo de Lênin. Entre parênteses, Lênin morreu quando devia morrer. Nem um minuto antes, nem um minuto depois, mas na hora certa. Vivesse mais quinze minutos e seria um outro Trotski. Mas já estou me desviando do assunto e passo adiante.

3 Onde é que eu estava mesmo? Já sei. Dizia que o grande Bloch foi a Moscou. Com meia hora da Rússia, baixou-lhe uma inconsolável nostalgia do Brasil. Andou cochichando para um dos acompanhantes: “Como isso é chato! Como isso é chato!” E, assim que pôde, veio para o Brasil. Desembarcou, aqui, no Galeão, e foi assaltado por amigos, conhecidos e parentes. Todos perguntaram: “Que tal? Que tal?” Percebeu o seguinte: o sujeito que vai à Rússia, e pelo fato de ter ido, adquire uma dimensão especialíssima. Fez então suspense, fez mistério. Só falou no seu apartamento de mármore. Depois de um imaginário pigarro, improvisou esta síntese fulminante: — “Os russos já comem três pepinos por dia.” Os presentes se entreolharam, num deslumbrante horror: “Três pepinos” (se não se diz deslumbrado horror, desculpem.)

4 Vale a pena lembrar que: quando para aqui veio, da própria Rússia, não sei se Adolfo teria um pepino para lamber. Fugia de uma fome para outra fome. No tempo em que eu morava na rua Alegre, ele ia morar na Pereira Nunes. Nem sempre, naquele tempo, tínhamos esse pepino. Hoje, as varandas de seu apartamento pendem sobre a piscina do Copacabana Palace.

5 Quando Adolfo acabou de falar, Pascoal Carlos Magno, que, num canto, ouvia tudo, abriu a boca: “Hoje, o russo come três pepinos. No tempo do czar, comia um.” E, assim, segundo o Adolfo de um lado e o Pascoal de outro, o papel do socialismo foi acrescentar, ao prato do povo, mais dois pepinos.

6 Tanto Pascoal como Adolfo tiveram que ir a Moscou, para falar sobre pepinos. Muito melhor fez o Otto Lara Resende. Nunca esteve na Rússia. Pois bem. E, um dia, num sarau de grã-finos, um decote pediu-lhe uma frase sobre o mundo soviético. O meu amigo não respondeu imediatamente. Fez um suspense e, por fim, disse: “A Rússia é o Piauí com rampa de mísseis.” Vocês entendem? Ninguém precisa ir à Rússia. Basta ler a frase da Rússia. Os sujeitos que vão lá não percebem que aquilo não passa de um Piauí, naturalmente ampliado (tamanho “família”), com a rampa de mísseis.

7 Aliás, a frase do Otto só tem um defeito: é injusta com o Piauí. O seu autor admite uma certa semelhança do nosso brioso Estado com a União Soviética. Tanto que ele seria igual à Rússia se também tivesse os “mísseis”. Acontece que o Piauí nunca estuprou a integridade do piauiense, nunca o transformou na antipessoa. Lá, a pessoa humana é a pessoa humana. Ao passo que a Rússia desumanizou o russo.

8 Se me perguntarem por que estou dizendo tudo isso, explico: por causa do campeonato mundial de xadrez. Disputaram o título o soviético Bóris Spassky, campeão do mundo, e o americano Bobby Fischer, o desafiante. Pela primeira vez, um jogo que o homem comum não entende, e considera chato, fascinou o mundo. No Brasil, em todas as esquinas e botecos, discutiu-se a sensacional competição.

9 Eu disse sensacional, e por que sensacional? Não éramos analfabetos em xadrez? Éramos. Não continuamos analfabetos? Continuamos. E, então, por que os dois jogadores adquiriram uma súbita e espetacular popularidade? Por que a partida de xadrez, mais que uma partida de xadrez, era o confronto de duas realidades. Não sei se me compreendem. Eis o que eu quero dizer: o comportamento dos contendores exprimia aquelas realidades.

10 De um lado, o burocrata soviético; de outro, o americano, vivendo a sua liberdade, até as últimas consequências. Resumindo: socialismo e democracia. Vejam bem: não o cotejo de socialismo e capitalismo, mas socialismo e democracia. Bobby Fischer fez o que quis e como quis. Inventou um comportamento que não foi jamais do jogador de xadrez e, muito menos, em plena decisão do um campeonato mundial. Fischer agia e reagia como se aquilo fosse uma reles pelada. No primeiro dia, perdeu a partida porque não compareceu, simplesmente não compareceu. Meteu-se com uma pequena, foi ao cinema com a pequena e, quando se lembrou, tinha passado da hora. Vira-se para a garota, às gargalhadas: “Imagine, perdi a hora!” A pequena riu também e emendaram o cinema com um jantar.

11 Compareceu à segunda partida, embora atrasado, e ainda atrasado, e ainda de ressaca. Ao chegar (e apesar da ressaca), riu da cara do adversário. Eu falei em duas realidades, de uma brutal dessemelhança. Acontece que a realidade soviética não ri, não acha graça, não faz piada. Bóris Spassky usou, para todas as partidas, a mesma cara sinistra. Fischer deu-se ao luxo de perder o primeiro jogo.

12 Não só Spassky era sinistro, como também seus assessores. O que o americano andou fazendo não é normal. Houve dias, em que só faltou virar cambalhotas plásticas, elásticas, ornamentais. E começou o massacre do russo. No pavor de qualquer originalidade, nem Spassky, nem seus assessores, queriam nada com a imaginação. De vez em quando, o americano parava: — “Vou-me embora.” Todos se arremessavam: “Embora por quê?” Um dia, ele reclamava contra o barulho. No dia seguinte, contra o silêncio. Nada descreve o que a TV sofreu na sua mão.

13 Os lances do americano eram cada vez mais livres. E, pouco a pouco, o nosso Bóris e seus assessores iam sendo dominados psicologicamente pelo inimigo. Na Rússia, já se dizia que Fischer hipnotizava Spassky. A superioridade do americano sempre foi humilhante. Eu disse que a esposa do soviético veio correndo injetar-lhe um pouco de otimismo? Veio. Mas tudo inútil. O inevitável aconteceu. Spassky só teve uma solução: correr fisicamente da luta. Sumiu. O juiz esperou mais do que devia. E, finalmente, declarou Bobby Fischer o novo campeão do mundo.

14 Os jornais russos estão xingando Fischer de débil mental. Não há, porém, nenhum mistério na derrota cômica. Venceu o homem livre, por ser livre, e perdeu o escravo, por ser escravo. É possível que Spassky esteja correndo e continue correndo até a consumação dos séculos.


Nelson Rodrigues
O Globo, 4/9/1972

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