Na “Copa do Mundo de 1958”, o Brasil fazia parte do Grupo 4, ao lado da Inglaterra, União Soviética e Áustria. Na estreia, contra a Áustria, o Brasil venceu por 3 x 0, com dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos. O jogo ocorreu em 8 de junho, em Udevalla. O empate em 2 x 2, entre Inglaterra e Rússia, foi em Gotemburgo, no mesmo dia. Também pela 1.ª rodada: no Grupo 1, a Alemanha venceu a Argentina por 3 x 1 e a Irlanda do Norte venceu a Tchecoslováquia por 1 x 0; no Grupo 2, a França venceu o Paraguai por 7 x 3 e a Iugoslávia empatou com a Escócia em 1 x 1; no Grupo 3, a Suécia venceu o México por 3 x 0 e a Hungria empatou com o País de Gales em 1 x 1.
1. Vaiaram este escrete, nos treinos e nos jogos daqui. E aconteceu, então, o seguinte: — o brasileiro humilhado precisa de dez para segurar como chinês da anedota. E, ontem, na Suécia, que vimos nós? O escrete que, em sua própria pátria, só faltava ser cuspido, a equipe, dizia eu, deu um banho na velha Áustria. Boa resposta para os brasileiros que viviam, como urubus, pelos cafés e pelas esquinas, crocitando: — “O Brasil nem se classifica!”
2. A vitória inicial foi gostosa e, eu diria mesmo, foi sublime. Em primeiro lugar, porque as redes brasileiras permaneceram furiosamente invictas. Aquele zero, no placar, aquele zero, amigos, era um poema. E, além disso, os outros resultados parecem dar uma nova dimensão ao feito da nossa turma. Por exemplo: — o caso da Argentina. Ao contrário do brasileiro, que se julga um pobre-diabo nato e hereditário, o argentino declara-se o maior do mundo. Em Buenos Aires, os jornais tinham a seguinte manchete engatilhada: — “Vencemos os campeões do mundo!” E a Alemanha passou na cara a Argentina!
3. E não só a Argentina conheceu uma torva e treda decepção. Também a Rússia, também a Inglaterra, que eram as maiores. Na batalha de ontem, as duas não passaram de um muito pífio, um muito chocho empate de 2 x 2. Outra: — a Hungria. Falava-se num novo escrete húngaro, ainda melhor que o anterior, que já era o máximo. Vem o País de Gales e enfia um empate na fabulosíssima Hungria. Os paraguaios apanharam uma surra dos franceses e os mexicanos um banho da Suécia.
4. Ora, o empate é o menos viril dos resultados. E essa rajada de empates prova apenas o seguinte: — que os concorrentes ao Mundial talvez não tenham o valor que a nossa imprensa, o nosso rádio e a nossa televisão, com brava pusilanimidade, lhes atribuíram. Podemos perder, futuramente, porque ninguém é infalível. Mas uma coisa parece-me óbvia: — Está dentro de nossas possibilidades reais o título máximo. Eu vos digo: — desde que não leiam os nossos jornais, nem ouçam os palpites de nossa torcida, os brasileiros terão 99 por cento de probabilidades a favor.
5. Algum urubu há de crocitar: — “Olha a máscara!” Ao que eu respondo: — “Máscara, vírgula!” E, de fato, a simples e exata consciência do nosso valor nunca foi máscara, nem aqui, nem na China. O que o Brasil precisa arrancar, urgentemente, é uma espécie de máscara às avessas, que ela afivelou. E, com efeito, nas grandes partidas internacionais, aparecemos com a máscara da humildade, a máscara de inferioridade. Foi assim em Wembley contra a Inglaterra, assim na Suíça contra a Hungria, assim no próprio Maracanã contra o Uruguai. Nas três oportunidades, o Brasil dava a sensação de um autêntico vira-latas.
6. Por isso, insisto, — foi bom que, aqui, nos treinos e nos jogos preparatórios, tivéssemos vaiado e xingado o escrete. Foi bom que um gaiato tivesse apunhalado Feola com a piada crudelíssima e imortal: — “Oh! Casas da Banha!” Tanto os jogadores, como o técnico, engoliram a desfeita. Mas eu sempre digo que os grandes heroísmos nascem das grandes ofensas, das grandes humilhações. E quem pagou o pato foi a Áustria.
7. Um dos nossos locutores, na irradiação do jogo, lamentava: — “Os austríacos não estão jogando bem!” Mentira! E eu peço licença para replicar, daqui, em termos chulos: — “Não estavam jogando bem, uma ova!” Jogando muitíssimo bem. E, até, chegando a dar a ilusão de uma superioridade platônica. Atacaram muito, fizeram pressão. Mas os brasileiros reagiam com a malícia ou por outra: — reagiam com a saborosa, a fidedigna, a inimitável, a divina molecagem carioca. Deixavam o adversário atacar e, de vez em quando, faziam um gol.
8. Ou muito me engano ou este campeonato do mundo vai dar ao brasileiro a impressão de que não é tão inepto, tão incapaz, tão inferior como ele mesmo se julga.
Última Hora, 09/06/1958, p. 9.

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