Nelson Rodrigues
1. Amigos, o meu personagem da semana é do Corinthians ou por outra: — o meu personagem da semana é o próprio Corinthians. Grande time, não há dúvida, de um forte, largo feitio épico. Diz-se, com justiça, que o Corinthians é uma espécie de Flamengo, assim como o Flamengo é uma espécie de Corinthians. E foi por isso, talvez, que o quadro paulista vingou o rubro-negro.
2. Estou falando da surra que o Corinthians enfiou no Boca Juniors. Dias atrás o Boca goleou o Flamengo: 4 x 0! Não há, creiam, escore mais aviltante. O sujeito que perde de seis ou de cinco, ou de oito, é menos ultrajado. Mas quem perde de quatro sofre uma dessas humilhações imortais. Aparece logo um repórter gaiato para abrir a manchete: — “O Flamengo caiu de quatro”. Pois bem. O bonito, o sublime no Corinthians, é que tomou, para si, o papel do vingador, do Monte Cristo.
3. Uma grande equipe tem, de vez em quando, suas fúrias sagradas. E o Corinthians, ao enfrentar o Boca, ia com o apetite, a selvagem euforia da desforra. De mais a mais, o Boca não era apenas o Boca, mas o Feola também. Por trás dos recentes 4 x 0, estava o gordo, estava o barrigudo. Coincidiram as duas coisas: — a estreia de Feola e a humilhação rubro-negra. O torcedor, aqui, uniu os dois fatos e sofreu ainda mais.
4. Entre parênteses, eu fui um dos que deploraram a partida de Feola. Somos um povo de magros, de esquálidos, de subnutridos. E uma barriga a menos significa um desfalque importante. Gordos nacionais como Feola, como o Schmidt, são preciosos. Com o embarque de Feola, o Brasil sofreu um duplo e amargo desgosto: — perdia uma de suas mais líricas barrigas e um dos seus técnicos mais capazes.
5. O papel do Corinthians foi o de vencer os dois: — o Boca e o Feola. Amigos, é doce ganhar em Buenos Aires. A capital argentina foi, durante largo período, uma espécie de túmulo, de mausoléu de escretes e times brasileiros. Lá o Brasil levava sempre na cabeça: — ou na bola ou na tijolada. Quando o futebol local andava escasso, baixavam o cacete na gente.
6. Hoje, inverteram-se os papéis: — o Brasil vai lá e ganha no futebol e na bolacha. Ficou célebre aquele instantâneo sublime de um sururu entre brasileiros e uruguaios, em Buenos Aires. O pau estava cantando. Por toda a parte, cabeça quebrada e canelas ceifadas. E, súbito, Didi corre e se projeta. Foi um salto inverossímil. O público, maravilhado, viu aquelas duas solas arreganhadas, devastando ou afundando caras uruguaias.
7. Assim é o brasileiro moderno. Quando alguém mexe no seu brio nacional, ele mete um penacho na cabeça e entra de sola, como um dragão de Pedro Américo. (Dirá alguém que esta imagem não é muito adequada. Paciência.) Mas o que eu queria dizer é o seguinte: — contra o Boca de Feola o Corinthians jogou de penacho. Durante os 90 minutos da partida, não houve ninguém tão brasileiro, da cabeça às canelas ou, mais ainda, aos sapatos.
8. Claro que, furioso, o Boca Juniors fez o diabo. Houve momentos em que chutaram o baço, os rins, o fígado e até a alma dos corintianos. Mas o brasileiro, graças a Deus, sabe ser cafajeste, de vez em quando. Um fabuloso, um dionisíaco cafajeste. Não correu do pau e pelo contrário: vezes houve em que chutamos o adversário, do pescoço para cima.
9. Ganhamos, finalmente. E foi lindo ver o Boca Juniors sair de campo, a meio pau, a estrebuchar de humilhação e de impotência. Estava raspada, até o último vestígio, a mácula dos 4 x 0. E porque o Corinthians vingou o Flamengo, eu vos digo: — este é o meu personagem da semana.
Foi a primeira e única edição do Torneio Octogonal Internacional (ou Torneio Octogonal de Verão). Ocorreu entre 4 e 25 de janeiro de 1961 em quatro cidades: Rio de Janeiro, São Paulo (Brasil), Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina). Fizeram parte 8 times, sendo 4 do Brasil (Corinthians, São Paulo, Flamengo e Vasco da Gama), 2 do Uruguai (Nacional e Cerro), e 2 da Argentina (Boca Junior e River Plate). No dia 21 de janeiro, o Corinthians venceu, em Buenos Aires, o Boca Junior por 3 x 4. Ao todo, foram 28 partidas. O campeão foi o Flamengo, ganhando 7 jogos e perdendo 2.
Coluna “Meu personagem da semana”, Última Hora, 23/01/1961, p. 16.

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