A Perimetral Norte

1 Um dia, estou tomando sopa, honrada sopa, quando me ocorre o seguinte: — há quarenta e tantos anos, eu não pensava no Piauí. Vocês entendem? O Piauí é nosso, é nosso sangue, é nossa terra, e há brasileiros que nascem, vivem, envelhecem e morrem sem pensar no Piauí. Se eu fosse único, teria este consolo: — “Sou o único.” Mas eis a questão: não sou o único. Assim como eu, milhões não pensam no Piauí. Nunca vi ninguém começar uma conversa assim: — “Que acham vocês do Piauí?” Ninguém acha, eis a verdade, ninguém acha.

2 Por outro lado, os piauienses que estão no Rio não se confessam piauienses. Quando eu soube que o Castelinho, do Jornal do Brasil, era piauiense, tremi em cima dos sapatos. Reagi: “Não é possível!” Se o fosse, eu, que sou seu amigo, seu admirador, eu saberia. Vim a saber que era e nada descreve o meu divertido horror. Mas se o era, porque não veio à boca de cena, declarar, de fronte alta: — “Meus senhores e minhas senhoras, eu sou piauiense!” Nós, seus amigos e admiradores, teríamos aplaudido o Castelinho, de pé, como um final de ato.

3 Mas disse eu que ninguém se confessa piauiense nato e já me ocorre uma exceção: ministro Reis Velloso, o jovem sábio. Pensando bem, e sem querer injustiçar ninguém, João Paulo dos Reis Velloso é o único piauiense que pensa no seu Estado, e lhe tem amor, e luta por ele, e cuida dos seus interesses. Não nego que existem outros, mas afirmo que não os conheço. Ou eles se escondem ou eu é que sou um solitário irremediável.

4 Outro Estado que não ficava a dever nada ao do Piauí: o do Amazonas. Vejam qualquer mapa do Brasil. É um elefante geográfico. Impossível não se ver o Amazonas no mapa. Mas era o que acontecia. Por um cínico e deslavado milagre ótico, o sujeito não via nada. E, então, milhões de brasileiros iam do berço ao túmulo sem pensar uma única e escassa vez no Amazonas. Era um abandono tão cruel, tão brutal quanto o do Piauí. Eu ouvia todo mundo falar em esquimó, em patagônio, em pele-vermelha, em tirolês, em mandarim. E não via ninguém aparecer, tirar um pigarro e declarar enfático: “Eu sou amazonense.” Eu tinha quarenta anos, quando fui apresentado ao Áureo Nonato, rapaz que anda metido em teatro. Quando ele se disse amazonense, ainda quis resistir: “Não é possível.” Ele não gostou: “Por que não é possível?” Desconversei. Mas a verdade é que se declarasse: “Sou mandarim” — eu me espantaria menos. Mandarim eu conhecia, quanto mais não fosse, os de carnaval.

5 Antes que o Amazonas se tornasse um assunto geral, com a Transamazônica, eu tive uma conversa com o meu amigo Euciro Pereira. Ele se incorporara a uma turma do projeto Rondon e andara por lá. Na volta, veio conversar comigo. E o que ele me contou sobre o Amazonas foi de fascinar. Vou dar uma imagem para explicar o que é aquele mundo. Imaginemos o seguinte: uma massa de elefantes em disparada. O seu rumor povoa de medo a solidão. E, súbito, um deles desgarra dos outros. Está monstruosamente só. E, sempre só e cada vez mais só, tenta construir seu destino individual. Vai pisando tudo e assassinando tudo. E só para quando morre. No fim, não é mais o homicida, mas o suicida.

6 Também sozinho constrói sua morte. Matou e agora se mata. Eu não sabia que assim como um elefante desgarra do seu povo, há rios que têm amor, desgarram do seu leito. Foi isso que me sugeriu, por outras palavras, o meu amigo Euciro Pereira. Mas como eu ia dizendo: até bem pouco tempo, não se falava no Amazonas e vamos e venhamos: por que falar do que não se sabe. O sujeito que no Leblon ou no Antonino declama sobre o Amazonas é, na melhor das hipóteses, um cínico. Teríamos que ir lá, fisicamente, teríamos que apalpar, farejar aquela imensa e florestal Sibéria. O Amazonas não é um mundo, são vários mundos. E, no entanto, vejam vocês: vários mundos que têm, ao todo, uma população menor do que Madureira.

7 E, súbito, muda o destino do Amazonas. Ele se torna assunto, notícia, manchete, fotografia. Sua presença inunda os jornais, as revistas, a televisão. Seu pôr de sol é página dupla. Agora mesmo, o ministro Mário Andreazza deu início à construção da Perimetral Norte. Curiosa a figura desse gaúcho. Diga-se, de passagem, que eu não sei se será próprio chamá-lo de gaúcho, apenas gaúcho. Sei que cada um de nós é mineiro, paulista, pernambucano, ou cearense. Mas a obra de Andreazza cobre, na verdade, todo Brasil. Ele faz tanto por todos os Estados. Varou o país inteiro com seus caminhos. Atravessa floresta, rios. Sua história e sua lenda estão ligadas ao desenvolvimento brasileiro.

8 Esse homem não está em lugar nenhum ou por outra: está sempre chegando e sempre partindo. É visto na Guanabara, meia hora depois em São Paulo, ou uma hora depois no Paraná e, num mesmo dia, no Rio Grande do Sul e no Norte. Toda a sua figura tem a solidez do bárbaro. A cara forte, de ventas triunfais; e mão pesada; anda em rútilas passadas. Quem se interna pelo Brasil há de estar sempre pensando: “Andreazza andou por aqui.” E, realmente, andou por lá.

9 Não sei se essa geração de praia, de uísque, de boteco ideológico, compreende um homem, cuja loucura é trabalhar e nunca parar. Outro dia, alguém me perguntou: “Será um possesso?” Exatamente, é um possesso. Olhem a ponte Rio-Niterói. Mora junto da ponte, quase debaixo da ponte. Precisa estar perto. É voluptuoso, um lúbrico da própria obra. Inspeciona os trabalhos como quem faz um jogo amoroso. Tem o olhar úmido da posse. De tarde, quando sobe, na linha do horizonte, a primeira estrela da noite — ele fica horas, olhando a ponte e com que estremecido amor.

10 Rio-Niterói devia ser um canto de cisne para qualquer outro. Não para esse bárbaro, cuja ambição não é bem o poder, mas o trabalho. Enquanto o deixarem fazer, simplesmente fazer, ele será o mais feliz e realizado dos brasileiros. Cada um de nós está sempre a um milímetro da depressão, a um milímetro da euforia. Aderna para um lado ou para outro, segundo estímulos eventuais. Mas Andreazza é um brasileiro que não conhece o tédio. Só conhece a euforia de sua obra. Ele sabe que não há nada de efêmero no que faz. Trabalha para sempre. Por exemplo: a Perimetral Norte, que é um gigantesco desafio, faz-se para sempre.

11 Eis o que estou lendo no discurso de Andreazza, feito, na presença do presidente Médici: “A região abrange 1.400.000 km2, correspondente a 15% do território nacional ou seja, estende-se por uma área igual a dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais.” — Vejam bem: o que era o mais colossal terreno baldio do mundo, incorpora-se ao processo do nosso desenvolvimento.

12 Meu espaço está chegando ao fim. Mas eu não queria concluir sem dizer que homens como Andreazza, e obras como a Perimetral Norte, profetizam um Brasil maior que a Rússia e maior que os Estados Unidos. Um dia o mundo ouvirá do Brasil a grande Palavra Nova.


Nelson Rodrigues
O Globo, 30/7/1973

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