A América Latina, essa desconhecida

1 O sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Digamos que ele tenha tomado uns três uísques. Bem sei que há pessoas sem nenhuma resistência. Tenho um amigo que se embriaga até com o licor do bombom. Normalmente, porém, os três uísques não derrubam ninguém, e repito: é comum que, com três uísques, o sujeito adquira uma aura interessantíssima.

2 Certa vez, numa conversa de grã-finas, uma delas perguntou a outra: “Você gosta do seu marido?” Resposta: “Gosto, depois do terceiro uísque.” E explicou que, sóbrio, castamente sóbrio, o marido tinha a aridez de três desertos. Precisava beber naquela exata medida. E, então, tornava-se mais interessante, mais denso, mais amoroso e lúcido. Em casa, quando o via bocejar de tédio cruel, a própria esposa preparava, uma por uma, as três doses. Se ele queria uma quarta, ela negava: “Chegou!”

3 Por que é mesmo que eu estou dizendo isso? Já sei. Tenho um amigo que está exatamente nesse caso. Ou por outra: esse amigo é o marido da grã-fina, ou seja, o tal que, sem os três uísques, não é nada, não é ninguém. E, ontem, ele bateu o telefone para mim. Começou: “Preciso falar contigo.” E eu: — “Quando?” Foi taxativo: “Agora.” Era meio-dia. Justamente, eu estava saindo para o almoço. Fez o apelo: “Almoça comigo.” Digo: “Está bem.” Combinamos que seria no Nino. Uma hora.

4 Minha impontualidade é uma virtude: chego antes. Às dez para uma, estava lá. Entro e vejo o Fulano na mesa do Lolô Bernardes e do Aloísio Sales. Aproximo-me. Abraço o Lolô e o Aloísio. O Fulano já está de pé. Pede licença e me leva. Sinto a sua angústia. Finge naturalidade: “Que papelão do Fluminense!” Paro, ressentido: “Você me chamou para falar contra o Fluminense?”

5 Disse: “Estou brincando.” Ocupamos uma mesa dos fundos. Vem o garçom. Antes de escolher, digo: “Traz Lindoia.” O garçom inclinou-se para o Fulano: “O senhor toma alguma coisa?” Vacila: “Lindoia também.” Mas logo muda de opinião: “Traz uísque.” Quando o outro sai, meu amigo segura o meu braço: “A situação lá em casa não está boa.” Pausa. Pergunto: “Mas o que é que há?” Suspira: “Minha mulher está me tratando como nunca me tratou.” Não entendo: “Mau?” Geme: “Bem.”

6 Voltava o garçom, com a Lindoia e o uísque. Meu amigo bufa: “Deixa a garrafa aí.” Espera que o garçom sirva e se afaste. Diz patético: “Eu não acredito em mulher que trata bem o marido.” Protesto: “Meu anjo, isso é uma frase.” Pulou: “Frase? Você diz frase? Escuta, deixa eu falar. Não me interrompe, bolas!” Digo: “Fala.” Mas vinha o garçom, com água tônica. Deixa que o garçom se vá. Recomeça, numa melancolia brutal: — “Eu tenho uma vasta experiência de esposa amável. Fora de brincadeira. Quando a esposa trata o marido assim, e faz charme para o marido, abra o olho.” Bebe uísque, lambe os beiços e continua: “Eu tenho um caso na família. Ouve que essa vale a pena. Tive uma tia que era uma víbora. Morreu, coitada. Mas uma víbora em último grau. Só faltava dar bola de cachorro ao marido.”

7 Contou-me toda a história da tia. A família, os amigos, os conhecidos, diziam da vítima: “Um santo.” Imaginem que ela vociferava horrores e ele baixava a cabeça e não dizia nada. Uma vez, a criada o vira chorando, atrás da porta. Os eternos descontentes, que sempre os há, é que insinuavam a dúvida sarcástica: “Ou é santo ou é sem-vergonha.” Até que, um dia, a esposa muda. Ainda na véspera, o humilhara na frente de estranhos, dizendo: — “Sai daí com o teu beijo.” Tudo porque o marido, que acabara de chegar, quis beijá-la, de leve, na face. E, no dia seguinte, foi ela que, inversamente, reclamou: “Você não me beija?” O pobre-diabo tremeu em cima dos sapatos. Disse, trôpego: “Oh, querida!” Desvairado, foi espalhar para todo mundo: “Fulana me pediu um beijo!”

8 Durante uma semana, marido e mulher pareciam dois namorados. Em caso de dúvida, ela dizia: “Benzinho, quem manda é você.” Ele, que tinha coceiras alérgicas, melhorou de pele, e engordou dois quilos. Uma noite, a ex-víbora virou-se para o marido: “Coração, quer me fazer um favor?” Ele gemeu, iluminado: “Já fiz o favor.” E ela, de olhos baixos: “É o seguinte: Você quer comprar um túmulo para nós dois?” Apanhou as mãos do marido e beijou uma e outra com estremecido amor. No dia seguinte, a mulher some. Numa época em que ninguém foge, ela fugira com um ourives, um ourives de quinta classe.

9 Agora, no Nino, meu amigo tinha um riso terrível: “Você entendeu? Na véspera, queria ser enterrada com o marido. No dia seguinte, foge com um ourives.” O que ele queria dizer, por outras palavras, é que a mulher só trata bem por sentimento de culpa. A fidelidade tem que ser neurótica. Faço graça: “Você não pensa assim. Isso é uma pose.” Fulano já bebera uma dose de uísque; e estava na metade da segunda. Foi veemente: “Palavra de honra! Olha aqui. Minha tia morreu. Passou até fome com o ourives. Pois bem. Eu juro pela alma de minha tia. Estou dizendo o que sinto, penso e sei. Acho que a mulher fiel tem de ser intratável.” Acaba a segunda dose e prepara a terceira.

10 De repente, levanta-se: “Vou ali, um instantinho, falar um negócio com o Aloísio Sales.” Foi, levando o copo. Penso no que me dizia a mulher: — “Gosto do meu marido, depois do terceiro uísque.” O meu amigo passou dois minutos com o Aloísio. E, lá mesmo, acabou de beber a terceira dose. Voltou com uma euforia, uma luminosidade que o transfiguravam. Perguntou-me, à queima-roupa: “E a América Latina, hein? Olha. Sem lugar-comum diz o que é que você acha da América Latina.”

11 Repito: “O que é que eu acho da América Latina?” Antes que respondesse, ele tomou-me a palavra: “Não fala. Já sei o que você vai dizer.” Não parou mais. Pensava eu que o Brasil mora na América Latina? Eis aí um espantoso erro geográfico. O Brasil não é América Latina, não tem nada com América Latina. Faço uma risonha objeção: “Não exageremos, não exageremos.” Na sua tensão dionisíaca, disse: “A América Latina é uma orla do Brasil. Se não existisse o Brasil, o Piauí, o Rio Grande do Norte e a Paraíba seriam importantíssimos países sul-americanos. Outro grande do continente seria Madureira.”

12 Por conta da terceira dose, afirmou que não via razões históricas que justificassem uma radical solidariedade brasileira. Por quê? Ele desafiava, na sua ferocidade jucunda: “Responde.” Quando eu ia abrir a boca, cassou-me novamente a palavra: “Se Bolívar e San Martin baixarem numa sessão espírita, e se alguém perguntar pelo Brasil, vão responder que nunca em tal ouviram falar.” Como eu aludisse a “interesses comuns”, “interesses criados”, o meu amigo dava gargalhadas dentro do Nino. Contou-me que os muros de vários países latinos-americanos são pichados com “morras” ao imperialismo brasileño.

13 Sempre rindo, disse mais: “O Brasil quer ajudar, colaborar, doar aos outros países do continente? Deve fazer o seguinte: primeiro desenvolver-se; e quando tiver tanto dinheiro como os Estados Unidos, deve mandar alguém percorrer a nossa orla. E o nosso representante há de desfilar por entre cusparadas.” Por fim, eu não falava e só ouvia, enquanto ele repisava suas verdades fanáticas. “O Brasil é brasileiro e não latino-americano.” Na saída vira-se para mim: “Espera aí que eu vou telefonar para minha mulher. Um minutinho.” Atracou-se ao telefone: “Como vai essa coisinha linda? Sabe que eu te amo, sabe? Um beijo. Não ouvi. Ah, quer ouvir o barulhinho?” Fez o som do beijo. Desligou e veio ao meu encontro. Era um prodigioso ser atravessado de luz.



Nelson Rodrigues
O Globo, 19/12/1972

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