Domingo para sempre

Misael Pulhes

Crônica postada originalmente no blog Escritor Brasileiro, em 07/09/2025. Republicada com autorização e pequenas alterações. Coincidentemente, ou não, na data desta publicação completa-se exatamente 1 ano daquele 24 de agosto.

Se meu avô tivesse que escolher um dia para nos deixar, talvez escolhesse um domingo. O Dia do Senhor, o dia de alguns almoços em família, de descansar do cheiro de tinta da semana, de ver o São Paulo Futebol Clube… domingo foi um dia de muitas alegrias para o meu avô. Era principalmente o dia de ouvir, na igreja, verdades que ele semeou ao longo de toda a vida, por todo lugar em que passava, e histórias que ele contava para os netos, e versículos que ele decorava aos montes e adorava recitar. Era quando sua voz grave poderia ser ouvida da congregação, cantando hinos que ele também tinha bem guardados na memória.

Domingo representa muito bem meu avô, pois simboliza aquilo que era sua marca mais notável, um brilho incandescente, sempre visível, sempre vigoroso. Mesmo quando o corpo começou a falhar e ele não pôde mais subir escadas, dirigir o fusca azul, nem mesmo ir ao templo. Mesmo quando os dedos já não montavam tão facilmente os acordes no violão de nylon. Esse brilho radiante era sua fé.

O dia 24 de agosto de 2025 era um domingo, e minha mãe me ligou às 22h59. Eu atendi imediatamente e logo imaginei. A ligação durou 54 segundos, mas não me lembro de ter demorado tanto. Só ressoa na memória: “meu filho, ligaram do hospital, seu avô faleceu”.

O pastor João, que tem o nome do meu avô, disse certa vez que chegará o dia em que, enfim, será domingo para sempre, eternamente. Eu costumo acrescentar que, enquanto isso, há segundas-feiras, talvez para nos lembrar que ainda não chegamos lá. O dia 25 de agosto de 2025 era uma segunda-feira. E quando um homem terminava de lançar aquela indiferente mistura de cimento num túmulo simples ao fundo do cemitério, eu olhei e vi o crepúsculo cinza e laranja do inverno do Cerrado, o sol baixando mais uma vez naquela cidadezinha onde nasci, cresci, ouvi histórias e cantei hinos com meu avô; um dos amigos de infância agora me abraçava, enquanto uma família simples e comum aceitava mais um pedaço do seu quinhão de dores, certamente a maior delas até então.

Pediram para meu tio escrever com um pedaço de pau a data daquela segunda-feira no cimento ainda fresco. Pedi a ele o pauzinho. Desenhei um peixe — aquele dos cristãos de antigamente. Acho que meu avô teria gostado. Assim como talvez ele gostasse da ideia de um homem de fé morrer em um domingo. Agora é domingo para sempre para o meu avô. Ele começou a experimentar o sabor pleno daquilo que sempre lhe deu esperança, e justo no dia em que seu Senhor ressuscitou. Descansa, vovô. Nós, aqui, vamos tolerando as segundas-feiras e as saudades até que seja domingo eternamente.

Vejo o senhor em breve.

(in memoriam)

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Misael é paulista, casado com Carolina e mora em Uberlândia/MG. É cofundador e primeiro vice-presidente do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @misaelpulhes.


5 respostas a “Domingo para sempre”

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