Quando nasci deram-me um nome. Se este nome consiste em som ou letra, desconheço. Na minha certidão diz: Donald Eckhart. Possuo esse nome, apesar de nunca tê-lo comprado, e todo ser vivente que quiser se referir a mim terá de usá-lo.
Lidos em conjunto, os contos de Fabrício Tavares de Moraes em “E bem quisera que já estivesse em chamas” deixam uma impressão nítida: a de um autor para quem o mundo comum nunca é apenas comum.
O jornalista e colecionador João Condé notabilizou-se pela coluna “Arquivos implacáveis”, inicialmente publicada em A Manhã e Letras e Artes.
Rafaella Salles O Brasil acorda antes do sol, mas nem sempre levanta. Fica ali, sentado na beira da cama, coçando os olhos, esperando o dia explicar a si mesmo. Há um tempo próprio nas manhãs brasileiras: o tempo do café esfriando enquanto a esperança ainda ferve. Na calçada, um homem varre folhas que voltarão…
Em breve a Editora Sator lançará a versão corrigida e ampliada do fantástico livro de Alexei Bueno: Uma história da poesia brasileira. Reproduzimos abaixo um pequeno trecho, acerca da poesia de Bruno Tolentino: Após um rumoroso processo pela publicação de um livro inteiramente plagiado, em 1957, Infinito Sul — cujo título era de Sílvio…
Um esquete beckettiano Lugar indiscernível. Entardecer. Mesa ao lado.Sentada num banco isolado, Lavínia tenta calçar os sapatos.Entra Estevão.ESTEVÃO: Eu estava pensando…LAVÍNIA: Que droga.ESTEVÃO: O que foi?LAVÍNIA: Esses malditos sapatos parecem ter encolhido da noite pro dia.ESTEVÃO: Oh, que pena. Quer usar os meus?LAVÍNIA: O que você estava pensando?ESTEVÃO: Eles são confortáveis.LAVÍNIA: Você chegou dizendo…
Tudo o que tem vida vive a espera: o filho no ventre, a porta entreaberta,a fuligem de tempo, ouro divino.Os dias, acesos, a cada dia esperamo homem e a expectativa dos vivos,os anos cansados no caminho.No lugar do espinho,todos os dias o mundo aguarda o reconhecimento do nada,seus milagres e suas facas;e a ressurreição…
A ilha era sonho durante todo o ano, mas, nas férias, tinha cheiro de sal e gosto de caju. O sol de meio-dia se escondia detrás das nuvens para deixá-la brilhar e ela despontava verdinha no mar azul, matéria de poema, mistério nu, além da espuma branca que dançava ao redor da balsa. O…
Por Lêdo Ivo* A vida misteriosa de Cornélio Penna (1896/1958)** A casa onde reside Cornélio Penna, em Laranjeiras, dá frente para a rua e, com a sua alta porta de madeira pintada de escuro, cor de bronze antigo, lembra logo um pequeno convento. Para essa impressão, muito contribui o estar sempre de janelas cerradas, bem…
Entrevista com Karleno Bocarro, autor dos romances As almas que se quebram no chão e de Advento, ambos publicados pela Editora Sator (2025). A entrevista foi realizada por e-mail. 1. O que está em sua mesa de cabeceira neste momento? A Anatomia da Melancolia, Volume II, de Robert Burton; Antologia Poética, de Vinicius de…