Antônio Maria O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: “Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro.” Como são desprezíveis as pessoas que falam no “bom chuveiro”! E segue o parceiro:…
Antônio Maria É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo. Como deve ser…
João do Rio Morreu trasanteontem, às 7 da tarde, de uma congestão, o meu particular amigo, o mendigo Justino Antônio. Era um homem considerável, sutil e sórdido, com uma rija organização cerebral que se estabelecia neste princípio perfeito: a sociedade tem de dar-me tudo quanto goza, sem abundância mas também sem o meu trabalho…
1 Sou o colunista que se repete com um límpido impudor. Não tenho o menor escrúpulo em usar duzentas, trezentas vezes a mesma metáfora. Eis o que me pergunto: por que não insistir na imagem bem-sucedida? Certa vez, vou passando pela porta do cinema Rex. Súbito, ouço o grito triunfal: “Óbvio ululante!” Viro-me e…
João do Rio — Xerez? Coquetel? — Madeira. Eram 7 horas da noite. Na sala cheia de espelhos da confeitaria, eu ouvia com prazer o Pessimista, esse encantador romântico, o último cavalheiro que sinceramente odeia o ouro, acredita na honra, compara as virgens aos lírios e está sempre de mal com a sociedade. O…
Eduarda Carla O suave movimento das ondas dá ao mar efeito e aparência de escamas dançantes, como se milhares de peixes nadassem obedecendo ao mesmo compasso. Talvez – talvez – o todo seja apenas o reflexo da parte. Ou talvez a parte imite a imensidão. Cinco tons de azul compõem a paisagem, é magnífico…
Otto Lara Resende 22.3.92 Nelson Rodrigues foi desde criancinha homem de jornal. A partir de certa altura, quando começou a publicar suas memórias e confissões, Nelson repetiu sem parar certos lances de sua biografia. Era de fato a flor de obsessão, como ele próprio se definia. O jornal, pode-se dizer, estava no seu berço.…
Otto Lara Resende Pudesse eu e diria como o Chesterton: vou para casa escrever um livro. Felizmente o livro já está escrito. É de louvor ao nosso irmão burro. Seu autor é o padre Antônio Vieira, filósofo, ex-deputado cearense, criador do Clube Mundial dos Jumentos. O burro não é réu de crime nenhum, mas…
1 Decerto, vocês conhecem de nome, de vista, de cumprimento ou de simples referência, o Dâmaso Salcede, de Os Maias. É um dos bons tipos do Eça. Pois bem. E o Dâmaso, que era de uma pusilanimidade total, vivia dizendo: “Desaforos, não admito!” Dizia isso ou, melhor, rugia isso, atirando patadas em todas as…
Otto Lara Resende janeiro de 1981 Desde que apareceu Sagarana, tive interesse pela vida e pelo convívio de João Guimarães Rosa, que já conhecia de nome, por circunstâncias ligadas à nossa condição de mineiros. Rosa foi aluno de meu pai, em São João del Rei, e guardou desse tempo permanente lembrança. Achou São João…