Resenha – “E bem quisera que já estivesses em chamas”

Lidos em conjunto, os contos de Fabrício Tavares de Moraes em E bem quisera que já estivesse em chamas deixam uma impressão nítida: a de um autor para quem o mundo comum nunca é apenas comum. Uma sala de convívio, um claustro, um quarto de hotel, um estacionamento, um bar, — nada disso aparece como simples cenário. Tudo parece carregado de uma eletricidade moral, espiritual ou demoníaca, como se a matéria do cotidiano estivesse sempre prestes a romper sua superfície e revelar alguma coisa mais funda, mais antiga, talvez mais terrível.

Não é difícil reconhecer aí uma imaginação cristã, ou ao menos fortemente moldada por uma sensibilidade cristã: culpa, queda, provação, carne, vigília, revelação, juízo. Esse é, talvez, o traço mais consistente do autor. Fabrício não escreve histórias sobre o sagrado; ele escreve histórias em que o sagrado contaminou a percepção. O que liga os contos não é apenas a recorrência do religioso, mas a convicção de que a realidade visível está sempre grávida de sentido.

A realidade narrativa não se apresenta como plano empírico neutro, mas como superfície sobredeterminada por forças de ordem espiritual, moral e hermenêutica. O mundo ficcional comparece sempre já investido de significado excedente, como se cada objeto, espaço ou gesto contivesse uma reserva de sentido a ser decifrada.

Essa visão de mundo se realiza, antes de tudo, na linguagem. O léxico de Fabrício é denso, deliberadamente carregado, por vezes precioso. Ele não busca a palavra transparente; busca a palavra que já venha com sombra, com peso, com memória. Há gosto pelo termo raro, arcaizante, litúrgico, viscoso, quase sempre escolhido não apenas por aquilo que designa, mas pela temperatura que injeta na frase. É uma prosa que quer produzir clima antes mesmo de produzir informação. Em seus melhores momentos, isso funciona admiravelmente: a linguagem não apenas descreve o ambiente, ela o expõe. Em seus momentos menos controlados, no entanto, essa mesma abundância dá a impressão de que quase tudo quer brilhar ao mesmo tempo, e então a frase perde contraste.

A sintaxe reforça esse efeito. Fabrício escreve em períodos largos, muitas vezes sinuosos, com encaixes, desvios, adendos, reformulações. Em vez de atacar o objeto de frente, ela o rodeia, o pressiona, o envolve. Esse procedimento é particularmente eficaz quando o conto precisa encenar obsessão, febre, vergonha, delírio ou contemplação extrema. A sintaxe faz o papel de psicologia: ela nos dá o regime mental da personagem sem precisar explicá-lo. O problema surge quando esse mesmo andamento deixa de ser necessidade interna e vira hábito: a frase continua se expandindo mesmo depois de já ter encontrado sua melhor forma.

A construção frasal, aliás, é onde mais claramente se percebe a força e o risco dessa prosa. Fabrício tem talento real para erguer frases que parecem respirar por conta própria, carregadas de ritmo, suspensão e pressão imagética. Há momentos em que a frase se torna uma pequena cena autônoma, quase um organismo. Mas esse tipo de escrita exige poda severa e frequente, e é por aí que ocorrem alguns escorregões. Muitas vezes o autor não confia plenamente na potência da primeira imagem e acrescenta outra, e depois outra, e mais uma qualificação, e mais um desvio metafórico. Em vez de aumentar a força, isso por vezes a dispersa. O leitor percebe a ambição literária, percebe a voltagem, mas já não sabe exatamente qual é a imagem que deve permanecer. Fabrício recorre com frequência a estruturas de comparação explícita — “como”,

“como se”, “à semelhança de”, “ao que parecia”, “semelhante a”. Isso não é um detalhe de superfície; é um mecanismo central do seu estilo. Ele escreve como alguém para quem nada pode permanecer idêntico a si mesmo: toda coisa precisa apontar para outra, ressoar além de si, sugerir uma segunda camada. Em tese, isso é coerente com o projeto dos contos, porque todos eles se organizam em torno da ideia de que a realidade que percebemos está, como já mencionei, codificada — ou seja, não acessamos o mundo diretamente, mas através de camadas de interpretação. Mas, na prática, a repetição desse expediente cria um tique. A metáfora, em vez de irromper, é anunciada; a frase, em vez de encarnar a visão, muitas vezes a comenta. A comparação explícita tende a enfraquecer a imagem justamente porque a mantém em estado de aproximação, não de presença.

O mais interessante, no entanto, é que o excesso não destrói o projeto. A escrita de Fabrício nasce de uma recusa da neutralidade moderna, como se ele não aceitasse que o mundo pudesse ser apenas paisagem social, cenário psicológico ou inventário de objetos. Por isso, tudo em sua prosa quer virar sinal. O autor escreve como se ainda fosse possível devolver ao mundo sua espessura sacramental — ou infernal. É justamente essa ambição que torna seus contos interessantes: eles não pretendem reproduzir a experiência contemporânea em tom morno, mas reinscrevê-la num drama maior, onde o banal ainda pode ser lido como rito, castigo, alucinação ou promessa.

Talvez se pudesse dizer, em resumo, que Fabrício é um prosador de imaginação teológica e disciplina ainda irregular. Tem voz própria, mundo próprio, respiração própria. Sabe criar atmosfera, sabe adensar a matéria verbal, sabe converter espaço em destino e percepção em liturgia. Mas ainda cede, aqui e ali, à tentação de intensificar tudo, de elevar tudo, de metaforizar tudo. Quando confia mais na cena e menos no comentário imagético da cena, sua prosa ganha violência e autoridade. Quando não confia, a linguagem se dobra sobre si mesma e corre o risco de admirar demais a própria combustão.

No fim, esse desequilíbrio é inseparável da sua força. Há autores cuja falha é a insuficiência; em Fabrício, a imperfeição é o transbordamento. E talvez seja melhor assim. Entre a prosa tímida e a prosa que às vezes passa do ponto, é quase sempre a segunda que deixa marca.

Considerando que E bem quisera que já estivesse em chamas é a primeira obra de ficção de Fabrício Tavares de Moraes, o mais impressionante é a sensação de estreia sem timidez: já há uma voz nítida, ambiciosa e reconhecível, capaz de impor desde o início uma atmosfera própria e um horizonte estético muito definido. Fabrício estreia sem soar derivativo. Sua prosa tem corpo, gravidade, risco. Há, nos contos, uma rara combinação de imaginação densa, vocação simbólica e domínio de clima.

Mesmo quando o texto excede, esse excesso nasce de ambição verdadeira, não de vazio. É o excesso de alguém que quer dar ao mundo densidade moral, imagética e espiritual. Também chama atenção a coragem formal. Em vez de buscar a limpidez fácil ou a frase domesticada, o autor aposta numa linguagem que tenta fazer da própria prosa uma experiência. Esse tipo de projeto costuma fracassar quando não há musculatura verbal; aqui, ao contrário, percebe-se lastro, repertório e escuta.

Outro mérito importante é que o livro parece pensar alto sem abandonar a ficção. Os contos não são ensaios disfarçados, ainda que sejam intelectualmente exigentes; eles preservam cena, atmosfera, personagem e assombro. Ou seja: a inteligência do autor além de não esvaziar a matéria narrativa, a incendeia. Poucos livros de estreia dão ao leitor a impressão de estar diante não apenas de talento,mas de projeto. O que se vê é um ficcionista que já chega com imaginário, dicção e obsessões próprias — e isso, em literatura, vale muito.

Roberson Guimarães
Médico, crítico literário e tradutor

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