Em breve a Editora Sator lançará a versão corrigida e ampliada do fantástico livro de Alexei Bueno: Uma história da poesia brasileira. Reproduzimos abaixo um pequeno trecho, acerca da poesia de Bruno Tolentino:
Após um rumoroso processo pela publicação de um livro inteiramente plagiado, em 1957, Infinito Sul — cujo título era de Sílvio Castro e os poemas de Celina Ferreira, Walmir Ayala, Afonso Félix de Sousa e outros — e a publicação de Anulação e outros reparos, em 1963, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) se afastou por três décadas do Brasil, retornando em 1993. A sua volta marcou a entrada na cena literária nacional do maior mitômano nela aparecido pelo menos desde a chegada de António Botto, o poeta português, muito amigo de Fernando Pessoa, que aqui desembarcou nos anos de 1950, casado, apesar dele mesmo se intitular “o primeiro paneleiro oficial de Portugal”, e distribuindo elogios bombásticos sobre a sua obra, assinados pelos maiores autores universais da época, mas todos escritos por ele mesmo. Em pouquíssimo tempo Tolentino declarou em público que fora casado com a filha de Bertrand Russel (que deveria ter idade para ser sua avó), com a neta de Rilke, cujo marido é sobejamente conhecido, e com a neta de René Char, além de ter sido astrólogo em Los Angeles por doze anos, ter vivido uma década em Alexandria, ter trabalhado como genealogista na Inglaterra, ter sido secretário pessoal de Auden, ter dado aulas por onze anos na Universidade de Oxford, e finalmente, isso um pouco depois, ter sido encarcerado por tráfico de drogas, para nem falar da sua origem na alta aristocracia, na sua mansão familiar e suas preceptoras inglesas, tendo nascido, na verdade, na mais banal classe média tijucana, filho de militar, e tendo vivido a adolescência num quarto e sala do mesmo bairro e depois em Niterói. Só na terra onde foi escrito “O homem que sabia javanês” tal conjunto de afirmações seria deglutido naturalmente como o foi, inclusive pela grande imprensa. A mitomania em si não desqualifica qualquer artista, mesmo um homem de gênio como o cineasta Mário Peixoto tinha fortes traços mitômanos, e isso tudo serve apenas como um índice da impossibilidade de se conhecer a biografia de um indivíduo que, somados os eventos pública e notoriamente por ele narrados, deveria ter perto de trezentos anos de idade.
Após manter uma ruidosa polêmica com os concretistas, justamente num dos melhores aspectos deles, a tradução de poesia, relançou-se com As horas de Katharina, em 1994. Com Os sapos de ontem, de 1995, atacando novamente os concretistas paulistas, se revelou um satírico interessante. Os deuses de hoje, do mesmo ano, compunha-se de poemas políticos, justificados por uma falsíssima luta sua contra a ditadura militar — o típico falso exilado — e não alcançou maior repercussão. Seguiram-se A balada do cárcere, em 1996, O mundo como ideia, de 2002, e A imitação do amanhecer, de 2006, escrito em pretensos alexandrinos que nunca o foram.
Toda a poesia de Bruno Tolentino é vazada numa musicalidade característica, dominada por uma espécie de vício do enjambement que chega a criar poemas quase inteiros sem que uma oração termine no final de um verso. Essa espécie de “realejo de enjambements”, monocórdio ao extremo, perpassa por quase tudo o que escreveu, lançando mão de uma técnica bastante defeituosa: versos de pé-quebrado, especialmente pelo uso e abuso de ectlipses e inúmeras rimas consoantes que nunca o foram. Vez por outra, em meio dessa grafomania versificatória tediosa e obsessiva, espécie de música de feira, surge um grande momento lírico, que não salva o essencial vazio de fundo que domina o conjunto, sem se falar da total inadequação entre um periódico coloquialismo e o tom geralmente elevado do verso. A sua poesia, na verdade, e qualquer leitor médio o percebe, é conduzida pelas rimas e pelo ritmo, e não o contrário, como qualquer poesia digna de tal nome. Verdadeiro personagem de romance, com um talento verbal e histriônico espantoso, mas de repertório curto, um dos fatos mais interessantes da sua imponderável biografia é ter voltado para o Brasil dizendo-se exilado da ditadura militar — afirmava-se convicto homem de esquerda — e trazendo mesmo um livro sobre o assunto, após o fracasso do qual terminou seus dias — há quem diga que não morreu, que garanta que ele está vivo — venerado pela mais rançosa extrema direita nacional.
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O autor destas últimas linhas foi muito criticado na época da primeira edição deste livro, 2007, pela referência ao falecimento não acreditado do poeta em pauta — comportamento que foi geral e irrestrito no Rio de Janeiro —, com o famoso argumento de que os mortos não podem defender-se, caso em que qualquer um teria que calar quaisquer ressalvas a Hitler ou a Pol Pot pelo fato de eles não poderem mais defender-se. O episódio não seria inédito. Luís Edmundo, no seu O Rio de Janeiro do meu tempo, já narrava o caso de Figueiredo Pimentel, que simulara, em 1895, ter-se jogado de uma barca na Baía de Guanabara, deixando a capa, o chapéu e um bilhete de adeus sobre um banco, para divulgar um seu romance a ser lançado — como o foi —, intitulado O suicida. Neste ano de 2023, no qual o presente livro está sendo corrigido e ampliado, encontrou o autor um longo texto de Walmir Ayala, publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 22 de novembro de 1960, e do qual reproduzimos apenas os dois primeiros parágrafos, prova da manutenção do mesmo modus operandi de psicopata durante quase meio século, fato sobre o qual poderíamos, aliás, publicar um livro gigantesco:
PLÁGIO E PREMIAÇÃO
O que o senhor Bruno Lúcio Tolentino está pretendendo, certamente, com esta série de disparates com que está entremeando uma pretensa vocação literária de saltimbanco visionário, é publicidade em torno de seu nome. Façamos-lhe a vontade. Não há nele, desde que o conheço, outro indício de verdade existencial que o da própria mentira inerente ao seu temperamento e natural ao seu cotidiano. Não se pode mesmo, não posso pelo menos, separar a invenção do verídico, em toda a sucessão de acontecimentos que forjam a sua vida para os outros. É um jovem. Comecemos perguntando quantos anos tem? Desde que o conheço, há quatro anos, que não sai dos 19. Mas isto não tem importância.
Quando o conheci (esclareço que os fatos que vou relatar aqui foram assistidos em grupo, nunca sozinho, o que salvaguarda, o meu depoimento, de qualquer exagero) pareceu-me um talento precoce, misterioso e inquieto. Até um certo ponto é tudo isto. Naquela época tinha voltado de uma viagem à Europa. Terá mesmo ido à Europa? Não sei. Há certos detalhes deste relato que ainda permanecem velados para mim, Certas coisas podiam ter acontecido, são perfeitamente cabíveis. Mas teriam acontecido? Diante dos antecedentes do moço chego a duvidar de que ele respire, ande, coma, como toda a gente e, quem sabe, até exista. Pois naquela época tinha vindo ele de uma viagem à Europa onde dera concertos em todos os grandes teatros. Lembro detalhes: tocara no Convent Garden e fora impedido de tocar em Madrid porque trazia um repertório exclusivamente de compositores russos, como Stravinski, Tchaikóvski, Rachmaninoff, etc. É preciso esclarecer que naquela época a fixação de Bruno Lúcio era o piano e não a poesia. Hoje ele até tem negado para pessoas de recente conhecimento que toque qualquer instrumento. Vamos adiante: neste mesmo dia em que, indo ao piano, nos executou música dissonante, acompanhada com batidas de mão na caixa do piano, dizendo que se tratava de música concreta, vimos sobre a mesa um programa de concerto. Quis ver de que se tratava. Ele impediu, dizendo que preferia que eu não visse, que era um concerto que ele dera num dos países da América Latina, um programa de concessão ao público, etc., e colocou o programa na prateleira de livros, passando a outro assunto. Como a curiosidade a respeito desse impresso me assediasse, pedi-lhe que me trouxesse água, e, na sua ausência, apanhei o programa para constatar que não era dele e nem se tratava de um repertório fácil. Talvez ele até hoje não saiba que fiz isso. Mas foi aí que comecei a pegar a meada de suas mentiras. Entre outras, ele dizia que morara no atelier de Matisse, com o próprio, em Paris; que estava concorrendo e era o provável ganhador de um concurso internacional de crítica nos Estados Unidos; que trocava, em fitas gravadas, diálogo com Sartre; e já mostrava seus poemas, única coisa que eu realmente acreditava verdadeira. Já disse aqui, e repito, que um canalha pode ser poeta. Até hoje, diante do caso que se armou em torno desse rapaz, eu me pergunto se não serão dele mesmo os versos premiados no Concurso de Revelação de Autor.
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