1 Estou saindo de casa. Sete e meia da manhã, vinte para as oito, por aí. Tomo o elevador e imagino: “Vou encontrar a minha vizinha.” Admirável senhora! Gorda e patusca como uma viúva machadiana, não para em casa. Na Índia, há milhões de sujeitos que nunca moraram. Vocês percebem? Milhões que jamais tiveram uma cama, uma mesa, um teto. Nascem na rua, e vivem, amam e morrem sempre na rua. A minha vizinha tem apartamento, sala, quarto, janela, ar-refrigerado, televisão. E não sai da calçada.
2 Chega a ser meio alucinatório. A qualquer hora do dia e da noite, está na calçada. Muitos desconfiam que não almoça, não janta, não toma café. E, se passa um conhecido, ela o atraca. Mas como eu ia dizendo: saio do elevador, vou até o portão e paro. Eu a vejo e ela me vê. Veio depressa, no seu passo miúdo de gorda. Já me disseram: “Tem varizes até na alma.” Para diante de mim e diz: “Tudo se sabe.” Conversamos ainda um momento. E, na despedida, repete: — “Tudo se sabe.”
3 É inimiga das coisas nítidas, precisas; e tem o gênio da insinuação. Pouco depois, estou no táxi, a caminho da cidade. Sua voz e sua frase vão comigo. “Tudo se sabe.” Já na avenida Atlântica, sou obrigado a reconhecer que a santa senhora tem razão. Mais cedo ou mais tarde tudo se sabe. Ao passar pelo Copacabana Palace, penso num amigo meu, doce como um irmão: o Carlos Castelo Branco. Toda a imprensa o chama de “o Castelinho”. E é, sem a menor dúvida, um dos homens mais inteligentes do jornalismo brasileiro.
4 Há um ano atrás, estou eu num sarau de literatos. A propósito não sei de que, digo ao Hélio Pellegrino: “O Castelinho, que é mineiro” etc. etc. Continua a conversa, mais adiante, repito: “O Castelinho, que é mineiro” etc. etc. Foi então que alguém, talvez o próprio Hélio Pellegrino, me chamou para a varanda. Enquanto os pirilampos faziam pisca-pisca no jardim, o Hélio baixa a voz: “Não é mineiro.”
5 Recuo o rosto como um agredido: “Quem não é mineiro?” E o Hélio, depois de olhar para os lados: “O Castelinho.” Nada descreve o meu escândalo: “Não é mineiro?” O Hélio teimou: “Nunca foi mineiro.” Vejam vocês como a nossa vida é, realmente, a soma de equívocos insuportáveis. Sou o homem de muitas dúvidas e raríssimas certezas. E o Castelinho sempre me parecera o mineiro radical, absoluto, eterno. Tão mineiro como o Otto Lara Rezende, o Hélio Pellegrino ou o Paulo Mendes Campos. Eis que, numa reunião de literatos, vem o Hélio e, com um frívolo piparote, põe abaixo uma das minhas certezas mais consideráveis.
6 No meu assombro, ainda perguntei: “Se não é mineiro, é o quê?” Resposta: “Piauense.” Estou de pé; sento-me em câmara lenta. Saía de um espanto para outro espanto. Repito para mim mesmo: “Piauense!” Obrigo o Hélio a sentar-se a meu lado: “E desde quando?” Imaginem vocês que eu conheço o Castelinho há trinta anos. Como diz minha vizinha: — “Trinta anos não são trinta dias.” Há muitos que não vivem tanto. Pois bem. E durante trinta anos cultivei a ilusão de que o Castelinho era uma flor ou joia, sei lá, de Minas. Nunca o vira declarar, de fronte alta e olho rútilo: “Meus senhores e minhas senhoras, sou do Piauí.” Em trinta anos, jamais o Castelinho fizera um esforço para arrancar-me do fatal equívoco. E, ao mesmo tempo, cabia a pergunta: como se pode ser piauiense com tanto sigilo, pudor, mistério?
7 “Tudo se sabe”, diz a minha vizinha. E, após uma convivência diária de trinta anos, eu sabia. O segredo não era mais segredo. Dirão vocês que estou fazendo uma caricatura do meu espanto. Absolutamente, e explico: na vida real, quase não há piauienses. O brasileiro é gaúcho, carioca, capixaba, paulista, cearense, alagoano, pernambucano etc. etc. Nunca piauiense. Por outro lado, os jornais, o rádio e a TV fazem um silêncio total sobre o Piauí. Sabemos mais do esquimó do que do piauiense.
8 Ainda ontem fiz um teste com o Hélio Pellegrino: “Há quanto tempo você não pensa no Piauí?” Pausa. O amigo faz os cálculos. Diz: “Vinte e cinco anos.” E foi ao ler uma das minhas recentes “Confissões” que voltou para o Piauí suas vistas e seus cuidados de brasileiro. Os paus de arara são do Ceará, de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Amapá, do Acre, do Maranhão. Saí disposto a escrever sobre o Piauí. Queria chamar a atenção do Brasil para o crime que se está cometendo. Não há Estado mais abandonado, nem o Amazonas.
9 Deixei passar um tempo e comecei a escrever. Já no primeiro artigo, explodiram os protestos. Choviam cartas, telegramas, telefonemas: eram os piauienses indignados. Tratavam, a pontapés, a minha solidariedade. E verifiquei, aterrado, que o Piauí está satisfeitíssimo com a própria miséria. Imaginem um Narciso às avessas, sim, um Narciso deslumbrado com as próprias chagas. Aí está o caso do Piauí.
10 Os piauienses que me atacam, ou pelo jornal, ou por telegramas e cartas, têm esta sólida, inarredável e apavorante certeza: o Piauí atravessa uma fase de prosperidade, desenvolvimento, crescimento industrial. Não há fome, não há mortalidade infantil, ou descontentamento popular. Pelo contrário. O que há, inversamente, é exultante ufanismo. As chagas estão orgulhosas de si mesmas.
11 E como falei em pobreza, todos os jornais me chamam de venal. Quando li os insultos, caí das nuvens. Um dos palmas cavalões da terra afirma que eu quero “tomar dinheiro do Piauí”. Eu podia, se o quisesse, fazer a troça cruel: “E quem me paga? Onde está o dinheiro? E há dinheiro?” Mas vamos falar sério. O pior vocês não sabem: recebo convites para ir a Teresina. Portanto, vejo que a imprensa, o povo, as autoridades piauienses pensam que as feridas de um povo são turísticas.
12 Dizia-me no telefone o Hélio Pellegrino: “Cuidado para não chocar o Piauí.” Devo ter o cuidado oposto, ou seja — o cuidado de chocá-lo. Um Estado tão esquecido, tão malquerido, tão solitário precisa de urgente e vital tristeza. O que não se suporta é um pobre que trata as próprias chagas a pires de leite. Temos de entristecer o Piauí. É preciso que, de repente, baixe, em todo o Estado, a consciência do próprio inferno.
13 Fosse eu um idiota da objetividade e estaria apresentando, aqui, dados precisos. Diria, por exemplo, que a diferença de renda “per capita” entre o Piauí e a Guanabara é de um para dez. Mas deixo de lado a verdade numérica e implacável. Eis o que eu queria dizer: O Amazonas assumiu sua miséria. Tem menos habitantes do que Madureira. Vê os próprios horrores e os reconhece. Portanto, o Amazonas não é o Napoleão de hospício. Nas casas de saúde grã-finas não há napoleões. Nos hospícios públicos, sim, nos hospícios abjetos, o delírio de grandeza assume as suas formas mais radicais. Para não apodrecer, de todo, o doido indigente tece a sua fantasia napoleônica.
14 O que não se admite é que o Amazonas, por um narcisismo invertido, quisesse glorificar o seu pavoroso deserto fluvial ou florestal; e que sonhasse atrair turismo com suas fomes, suas doenças, suas agonias, sua mortalidade infantil ou adulta. Quero um Piauí triste como o Amazonas. Sim, o Piauí tem que assassinar, a pauladas, o seu ufanismo. E quando assumir a sua plena miserabilidade — estará salvo.
Nelson Rodrigues
O Globo, 22/4/1969

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