O jovem escritor piauiense publica seu terceiro livro de ficção, Somos todos inocentes, ainda situado no interior de seu estado. O caso de O. G. Rego é bastante curioso. Há alguns anos publicou seu livro de estreia, Ulisses entre o amor e a morte. Era uma novela e foi saudada com certo entusiasmo por quantos tomaram conhecimento dela — uma narrativa algo poética, já com o halo de sortilégio que iria marcar seus outros livros.
Muitos anos depois o autor publicou Rio subterrâneo e agora Somos todos inocentes. E a constatação é uma só: O. G. Rego de Carvalho mudou. Passou daquela narrativa sensível e forte, para um tipo de romance romântico, algo exacerbado em amores e frustrações, que o levou a usar uma linguagem envelhecida, numa forma de romance acadêmico. O mundo que ele retrata é envelhecido e socialmente atrasado, mas não nos parece que exumar uma forma de linguagem seja o caminho apropriado para um possível “realismo” das situações.
Pelo contrário, os personagens falando pomposamente — com as interferências do autor — no interior do Piauí, repercute falso, quer no espaço mesmo da ficção ou em relação à realidade. Curioso que o mundo rico de sugestões, personagens cheios de possibilidades criadoras, estão presentes nos livros de O. G., que parece ter se esquecido que a ficção no Brasil mudou muito e que o levantamento do coloquial, por exemplo, em nível literário, não admite mais interferências tais como “inquiriu”, “exclamou”, “murmurou”, “admoestou”, etc., expressões de um romance naturalista exaurido. Também o tratamento na segunda pessoa do singular, salvo caso especial, não se coaduna com a simplicidade de uma linguagem interiorana. Enfim, O. G. Rego de Carvalho sabe o que quer e trabalha em função de sua própria sensibilidade.
Fonte: Assis Brasil, História crítica da literatura brasileira — O romance (1973).

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