O Piauí admite tudo, menos espinhas

1 Imaginem vocês que, no dia 19 deste mês. Foi deste mês ou mês passado? Não, não. Agora me lembro: foi deste mês, sim. Portanto, no dia 19 de março, escrevi uma das minhas “Confissões” mais patéticas. Vocês leram ou, se não leram, ouviram falar no “J’accuse”, de Émile Zola. Nesta página espantosa de justiça e de procela, Zola foi um “momento da consciência humana” ou por outra, foi a própria consciência humana.

2 Eis o que queria dizer: no dia 19, tive um momento de inspiração raríssima. Bem sei que, para as novas gerações, o ato literário há de ser esforço, paciência, disciplina, métier, lucidez. E a chamada “inspiração” está tão fora de moda como o charleston ou “La Garçonne”. Mas insisto: no dia 19, Zola baixou na minha mesa. E escrevi, se bem que em proporções infinitamente mais modestas, o meu “J’accuse”. Sim, eu acusei o Brasil, de alto a baixo, da cabeça aos sapatos.

3 E o meu Dreyfus era o Piauí. Anteriormente, falei no crime que se cometia contra o Amazonas. E, súbito, verificava que o Piauí sofria um abandono ainda mais cruel, uma solidão ainda mais feroz. Eu dizia o óbvio ululante: — uma Pátria não podia fazer com um dos seus filhos o que o Brasil faz com o Piauí. Havia, pois, um “crime permanente” contra o Estado tão esquecido. E os criminosos éramos eu e mais oitenta milhões de brasileiros, inclusive os piauienses.

4 No meu dilacerado sentimento de culpa, contei o meu próprio caso. Imaginem que passo quarenta anos sem me lembrar do Piauí. Em toda a minha infância, a única referência, que tive do admirável Estado foi o “Meu boi morreu”, que, afinal de contas, não deixa de ser um mugido promocional. E eu entendia que o piauiense tinha todas as razões para estar ressentido contra a própria pátria.

5 E fiz outra observação que achei, e ainda acho, apavorante. No Rio de Janeiro há de tudo e até cariocas. O sujeito quer um baiano, e tem um baiano. Há cearenses, maranhenses, paraenses, paulistas, gaúchos, paranaenses, catarinenses, espírito-santenses. Só amazonenses, conheço dois: O Áureo Nonato e o Paulo Bentes. E fazia, no meu artigo, a pergunta alarmada: e por que ninguém queria ser piauiense? Era um mistério desesperador, ou por outra: não era nem mistério. O Piauí não saía do Piauí; era um Estado fechado em si mesmo; e o piauiense lá ficava, no seu petrificado fatalismo.

6 Daí o meu espanto quando me apresentaram, ali, na esquina de Sete de Setembro com a Avenida, um piauiense do puro, do legítimo, do escocês. Foi para mim uma surpresa muito doce. No artigo, eu descrevia assim o rapaz: — magro, o peito cavo, uma timidez quase agressiva. E cometi a imprudência de observar-lhe as espinhas. Achei que as espinhas davam a sua figura uma pungência, uma plangência, tocantes. Fosse como fosse, era o primeiro piauiense que eu descobria na vida real.

7 Pois bem. Saiu o artigo. E como não podia haver uma página mais terna e indignada, mais veemente e mais solidária, esperei a gratidão ululante de todo o Piauí. Confesso que teci duas ou três fantasias narcisistas. Imaginei que a Assembleia Legislativa de lá ia se reunir, extraordinariamente, para conceder-me o título de “cidadão piauiense”. E quem sabe se todas as ruas de Teresina, por iniciativa da mesma Assembleia, passariam a chamar-se Nelson Rodrigues?

8 Mas vejam vocês. Vinte e quatro horas e começaram a acontecer coisas estranhíssimas. Ninguém até aquela data era piauiense. Tenho amigos acreanos. Piauiense, nenhum. Pois bem. No dia mesmo em que saiu o artigo, fui procurado por um companheiro. Apareceu solene, hierático, enfático. Simplesmente, queria dizer-me o seguinte: “Eu sou piauiense!” Recuo dois passos, como um agredido. Balbucio: “Mas como? E desde quando? Piauiense de quinze minutos para cá?” Se estivesse na minha frente, de chapéu com peninha, e se declarando tirolês, o meu espanto não seria maior.

9 Ainda pensei que ele viesse agradecer, em nome do Piauí, a minha solidariedade. Não escrevera eu que o Piauí é pobre por nossa culpa? Mas o rapaz, como um patriota ultrajado, foi sucinto e taxativo: “Não gostei.” Imagino: — “Deve ser um neurótico.” De qualquer maneira, seria talvez um caso único. Mas em seguida, como que saídos de tocas, cavernas, túneis inimagináveis, brotaram outros piauienses. A coisa começou a ficar alucinatória. Estava vendo a hora em que, de repente, por um desses milagres cínicos e deslavados, os nossos oitenta milhões de habitantes iam se declarar piauienses. Eu já não entendia mais nada. E só depois de muito matutar é que descobri, finalmente, a verdade nada misteriosa.

10 Parece, ou por outra: parece, não. É certo que meu artigo provocou, em certos piauienses inconfessos, um súbito e agudo sentimento de culpa. Muitos passavam por baianos, mineiros, paulistas, gaúchos. E eis que, por um desses arrependimentos tardios e dolorosíssimos, cada qual vem à boca de cena anunciar: “Meus senhores e minhas senhoras, eu sou do Piauí!” Mas repito: são quase todos piauienses de 15 minutos.

11 Não perdi por esperar. Recebi, ontem, um jornal de Teresina. É um tabloide. Já o título tem qualquer coisa de antigo, nostálgico, defunto. Chama-se O Liberal. Na época de Evaristo da Veiga, tal nome estaria em plena moda. E que diria O Liberal do meu “J’accuse”? Vou ler. A manchetinha diz: “As confissões de Nelson Rodrigues.” O artigo do dia 19 é transcrito. Antes, porém, O Liberal dá a sua opinião. Começa assim: “Um cabra velho muito ordinário, talvez do bairro do Alagado, das bandas do Recife, que acode pelo nome de Nelson Rodrigues.” É o jeito antigo, espectral do Palma Cavalão.

12 Leio e releio o insulto, num mudo escândalo desolado. Constatava, ali, que, pela primeira vez na história das relações humanas, a simpatia ofende, a solidariedade ultraja. Acreditem: não senti nenhuma indignação, mas um divertido horror. Foi como se, depois do “J’accuse”, a mulher de Dreyfus fosse a Zola cuspir-lhe na cara. No seu assombro, Zola era capaz de ficar com a saliva pendurada na face, sem enxugá-la. Mas foi o que senti, lendo e relendo O Liberal. É fantástico. Ninguém fala do Piauí, eu falei, e acuso o Brasil de abandoná-lo; e clamo por uma solidariedade nacional.

13 Digo que a nossa imprensa faz, sobre o belo Estado, um silêncio crudelíssimo. Resultado: os patriotas de Teresina estão ventando fogo por todas as narinas. O Secretário particular do Governador escreveu-me uma carta, que ainda não recebi, mas que já foi publicada. E, lá, para esmagar-me com seu sarcasmo, apresenta uma lista de todos os nomes ilustres do Estado. Penso que vai entupir-me com quinhentos piauienses notáveis. Diz dois nomes, exatamente dois. Não acredito. Quero crer que Piauí tenha dado muito mais que dois escassos talentos.

14 O leitor há de perguntar por que tamanha fúria estadual. Vejamos. No artigo do dia 19, contei que acabava de conhecer um jovem piauiense; e que o rapaz tinha espinhas. Pois as espinhas humilharam todo o Estado. A imprensa, as autoridades, as classes produtoras, estão quebrando lanças em defesa da própria pele. Não há espinhas no Piauí. E, além disso, eu chamei o Estado de “pobre”.

15 Eis a verdade que só tardiamente descubro: o Piauí é rico. Quem o diz, e sabe o que diz, é o Secretário particular do Governador. Ora, cada brasileiro vivo ou morto é um pobre vocacional. O Ceará, o Amazonas, ou Rio Grande do Norte, ou Pará, e, numa palavra, todos os Estados exageram e dramatizam a sua pobreza. É importante ser pobre para ganhar verbas. O Piauí é o único Estado rico. Se duvidarmos, acabará emprestando dinheiro ao Brasil. Muito menos feliz, a Guanabara tem problemas atrozes e os confessa, com límpido impudor. Saibam, portanto, que há um Piauí rico num Brasil pobre.


Nelson Rodrigues
O Globo, 28/3/1969

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