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As duas realidades
1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali,…
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Praia do Forte
Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…
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Plebiscito
Artur Azevedo A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois, um menino…
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A América Latina, essa desconhecida
1 O sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Digamos que ele tenha tomado uns três uísques. Bem sei que há pessoas sem nenhuma resistência. Tenho um amigo que se embriaga até com o licor do bombom. Normalmente, porém, os três uísques não derrubam ninguém, e repito: é…
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Os Canarinhos
Eric Malta Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou…
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A RUA
Cassiano Ricardo Bem sei que muitas vezes,o único remédioé adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,a dívida, o divertimento,o pedido de emprego, ou a própria alegria.A esperança é também uma formade contínuo adiamento.Sei que é preciso prestigiar a esperança,numa sala de espera.Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,esperança…
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Os servos da morte
Adonias Filho contribuiu de forma decisiva para uma das maiores criações ficcionais da literatura brasileira: o sertão. Adonias Filho, autor de “Os servos da morte” A cena se passa em torno da mesa. O velho cego e os quatro filhos, todos homens. A refeição é tensa. Paulino Duarte, o velho, interroga um dos filhos,…
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Corinthians
Nelson Rodrigues 1. Amigos, o meu personagem da semana é do Corinthians ou por outra: — o meu personagem da semana é o próprio Corinthians. Grande time, não há dúvida, de um forte, largo feitio épico. Diz-se, com justiça, que o Corinthians é uma espécie de Flamengo, assim como o Flamengo é uma espécie…
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A Perimetral Norte
1 Um dia, estou tomando sopa, honrada sopa, quando me ocorre o seguinte: — há quarenta e tantos anos, eu não pensava no Piauí. Vocês entendem? O Piauí é nosso, é nosso sangue, é nossa terra, e há brasileiros que nascem, vivem, envelhecem e morrem sem pensar no Piauí. Se eu fosse único, teria…
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Um preso
João Antônio Quando entrou na cela o carcereiro para trazer a boia, deu-me na cachola a lembrança estranha de (que doidice) saber que dia era. O homem rosnou um vinte de janeiro, com má vontade, num trejeito. Estremeci. Vinte de janeiro… dez anos que estou aqui. Nunca senti remorso do que fiz, mas hoje…
