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O Não-Eu
Eric Malta Túmulos. Defuntos calados, flores de pranto. Lápides, saudade, fria neblina de ternura em morna solidão. Coração de pluma, soprado pela não-tristeza, inesperada, neste prado da melancolia. Dois pés. Um olhar. Um não-olhar. Não-pés. Cenário transparente. Não, moça transparente. Com juras de vida, mas aura de morte. — Você, senhor… — Sim, madame.…
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Retrato do jovem brigador
Ignácio de Loyola Brandão Quando soube que o Dudu Aspirador, sujeito sessentão, forte e desordeiro, morrera com dez gramas de coca na cabeça, Marc exclamou: “Morreu como um herói”. Aos trinta e três anos, Marc era ainda um garotão de rosto balofo e traços delicados, olhos levemente empapuçados e cabeleira enorme caída para a…
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Itapuã
Brendha Caldas É uma verdade universalmente conhecida que, se forem colocados veículos suficientes em uma via, eles assumem as propriedades de um fluido. Graças a Pascal, também sabemos que uma pressão exercida em um ponto de um líquido é integralmente transmitida a todos os pontos deste. Eis a explicação física para o fenômeno dos…
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O Defunto
A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpoevitem os inúteis disfarces,os disfarces com que os vivos,só por piedade consigo,procuram apagar no Mortoo grande castigo da Morte. Não quero caixão de vernizou os ramalhetes distintos,os superfinos candelabrose as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano.Dêem-me as…
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As obsessões de um bibliófilo
José Mindlin O amor ao livro e o hábito da leitura vêm de longe e constituem um dos interesses centrais de minha vida. Esses interesses poderiam ter sido atendidos sem que tivessem resultado numa biblioteca de proporções talvez excessivas, se eu me tivesse sempre limitado aos livros que conseguisse ler, comprando um livro de…
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Sol de fantasia
Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……
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Marcinho
Misael Pulhes Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás. Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.…
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As duas realidades
1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali,…
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Praia do Forte
Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…
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Plebiscito
Artur Azevedo A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois, um menino…
