João Antônio
Quando entrou na cela o carcereiro para trazer a boia, deu-me na cachola a lembrança estranha de (que doidice) saber que dia era.
O homem rosnou um vinte de janeiro, com má vontade, num trejeito.
Estremeci. Vinte de janeiro… dez anos que estou aqui. Nunca senti remorso do que fiz, mas hoje esta tristeza se intrometeu comigo. Estarei doente? Não, por certo. No ambulatório me disse o médico, um dia desses, que estou bem.
Noite. Paulo, meu parceiro de cela, dorme feito um suíno. Não posso pregar os olhos. Nem sei porque esta insônia. Talvez sejam estes pensamentos que me atordoam a noite toda.
Quiçá, a velhice. Sim. Estou velho. Os cabelos brancos dizem bem. Sessenta e um, em agosto. Sessenta e um anos… Trabalhar um tempão imenso, sacrificar-se como um penitente, pular da cama pela madrugada todos os dias, todos os dias correr para a fábrica e depois passar horas inteiras de pé a andar dum lado para outro, daqui, dacolá, vigiar, verificar, ticar relógio, revistar pacotes, o diabo. Para quê? Vem uma cambada de patifes e me estraga a vida.
Antes tivesse feito como o Lucas, que adentrou a casa de Alberto, arrombou-lhe a burra, limpou tudo, encheu-se de dinheiro e ganhou mundo. Polícia? Pra inglês ver. O malandro sumiu destes lados, e ninguém lhe botou a mão. Hoje, ao certo, é rico.
E eu? Vivi anos a lutar sem parada. Davam-me, como para outros guardas, um descanso semanal. Domingo, feriado, dias santos, que nada! E o salário! Um convite ao suicídio.
Contudo, economizava uns poucos cobres. Nunca fui de farras e gastos imoderados. Quinze anos vivi na capital e não conheci por dentro uma dúzia de cinemas! Antes os tivesse frequentado. Hoje, não estaria aqui a matutar nestas coisas. Recordaria os filmes que vi, de cócoras, ou a olhar um tiquinho do céu, de onde desaba esta chuva.
Fiz casa, em alguns anos. Pobre, mas era uma casa. Comia em pensão, casado que não sou. Outra errada — não me casei. Que me valeu isto? Teria, agora, uma visita de quando em vez. A mulher me traria bolo aos domingos, os filhos viriam me visitar, a vida me seria mais suportável.
Antes, faltavam parentes. Agora, nem parentes, nem amigos, nem mulher, nem filhos, nem nada. Os companheiros de prisão são uns desgraçados como eu. Tristes, miseráveis, estragados, andam a arrastar-se por aí.
Fiz casa, e a vida se me suavizou um pouco. Tinha com que me entreter nas folgas. Não estaria como Bento, antigo colega de quarto, a gastar o ordenado nas mesas de bilhar. Vivia eu, pobre, só, mas sossegado. Ao cabo dalgum tempo com umas economias, comprei um rádio. Passava, então, horas a ouvi-lo. Ainda mais: fazia já planos para o futuro. E, em devaneios, vinham-me à cabeça vislumbres de riqueza.
Entrementes, a revolução estoura. O arrabalde onde morava encheu-se de praças, que, em grupos, deambulavam pelas ruas. Nunca buli com eles. Saía pela madrugada e voltava à tarde. Entretinha-me a fazer qualquer coisinha em casa. Não bulia com eles. Sabia de suas safadezas — que não me interessavam.
Um dia, chego em casa, e encontro tudo escancarado.
— Quem está aí dentro?
— Entra — disse uma voz de homem.
Estaco. Podia ser insídia. Berrei:
— Quem está aí dentro?
Saiu um soldado de cor, corpulento.
— Soubemos que o senhor tem arma em casa…
— Nunca andei armado. Podem revistar o que quiserem; o que não está certo é isto de…
Não terminei. O praça me dera um safanão. Louco, avancei para ele.
— Ajuda aqui, Júlio! — gritou.
Veio outro soldado. Quis-me agarrar. De um tranco atirei-o em terra.
— Canalhas!
Quanto tempo durou aquilo, não avalio. O que fiz foi deixar o praça negro estirado no quintal, a cabeça sangrando. Inda gemia. E eu o olhava extático, a arma na mão, que, na luta, arrancara do outro.
Prenderam-me. Vi-me num tribunal onde me disseram palavras difíceis, que não entendi. Não relutei, em nada. E ouvi, sem palavra, a decisão do meritíssimo.
Madrugada. Angústia. Insônia. Lassidão. Silêncio cerrado. Lá fora, há uma chuva dos diabos que não estia por nada. E uma escuridão tremenda. E este sibilar do vento que é um choro em desespero.
Que tristeza! Paulo dorme. O vigia dormita. O corredor é um deserto. E esta chuva, este vento!
Se Paulo acordasse, teria com quem conversar. Se o vigia estivesse ali, do lado de fora, contaríamos casos à distância.
Ninguém. Nada. E passarei aqui mais de dez anos a comer boia magra, fria, em promiscuidade, ouvindo humilhações duns e nostalgia doutros, a pressentir a vida correr lá fora, e, enjaulado, feito bicho, me acabo neste buraco!
Publicado com a assinatura “João Antônio Ferreira Filho” em O Tempo, São Paulo, 24 de fevereiro de 1954, na seção “O conto do dia”.

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