• O Defunto

    A Afonso Arinos de Melo Franco Quando morto estiver meu corpoevitem os inúteis disfarces,os disfarces com que os vivos,só por piedade consigo,procuram apagar no Mortoo grande castigo da Morte. Não quero caixão de vernizou os ramalhetes distintos,os superfinos candelabrose as discretas decorações. Eu quero a morte com mau gosto! Dêem-me coroas de pano.Dêem-me as…

  • As obsessões de um bibliófilo

    José Mindlin O amor ao livro e o hábito da leitura vêm de longe e constituem um dos interesses centrais de minha vida. Esses interesses poderiam ter sido atendidos sem que tivessem resultado numa biblioteca de proporções talvez excessivas, se eu me tivesse sempre limitado aos livros que conseguisse ler, comprando um livro de…

  • Sol de fantasia

    Dia cinza… Novo. Mais calamidade. Lágrima, janela… Pouca claridade. Sentimento? Vida? Tudo sepultura. Ora sol na tarde, ora só tortura. A fotografia: molde da lembrança — pálido resquício, palco da criança. Solitude: lenda. A sutil mentira. Risco transparente, pássaro na mira. Sol sempre mais perto que o sol do dia. Calendário cego. Tudo fantasia……

  • Marcinho

    Misael Pulhes Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Impulso do pai nas costinhas. A rede num balanço gostoso, pra frente e pra trás. Então, o barulho da campainha. E gritos, e passos apressados pela varanda, de crianças, muitas: primos e primas, amigos e amigas, vizinhos, muitos, muitíssimos. E uma bola.…

  • As duas realidades

    1 Tempos atrás, Adolfo Bloch foi viajar. Andou por Londres, Paris, Roma. Esteve na praça de São Marcos. E lá, vira-se para não sei quem e pergunta: — “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: “Olha ali.” Protesta: “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam, ali,…

  • Praia do Forte

    Giovanna Souza Daniel O céu é metade chuva — densa, cinzenta, carregada — e metade glória ensolarada, radiante de expectativa. As nuvens se reúnem em um canto estreito da janela, hora ou outra respingando no vidro com lágrimas de despedida, a cidade cada vez menor no retrovisor do carro. A primeira das metrópoles brasileiras,…

  • Plebiscito

    Artur Azevedo A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois, um menino…

  • A América Latina, essa desconhecida

    1 O sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Digamos que ele tenha tomado uns três uísques. Bem sei que há pessoas sem nenhuma resistência. Tenho um amigo que se embriaga até com o licor do bombom. Normalmente, porém, os três uísques não derrubam ninguém, e repito: é…

  • Os Canarinhos

    Eric Malta Trabalhar como porteiro não é difícil. Acordo cedo, me arrumo, pego a marmita e chego ao serviço em dez minutos ou menos. A guarita é alta, feito um ninho em cima de uma rocha. E ali, fico empoleirado. É solitário, confesso, mas um solitário bom. Leio, jogo e assisto, quando não estou…

  • A RUA

    Cassiano Ricardo Bem sei que muitas vezes,o único remédioé adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,a dívida, o divertimento,o pedido de emprego, ou a própria alegria.A esperança é também uma formade contínuo adiamento.Sei que é preciso prestigiar a esperança,numa sala de espera.Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,esperança…