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A costureira
Linha, agulha, e paciência. Movimentos sem pressa, e ágeis. Mãos enrugadas, machucadas, repletas de história. E a máquina de costura em seu tique tique tique. O tecido? Velhos retalhos de camurça. Primeiro um círculo, perfeito tal capoeira, astrolábio, ou ainda uma roda de dança Tupi Guarani debaixo do céu sem fim. Um céu escuro,…
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Rua Sabará, 400
Lygia Fagundes Telles A empregada era a Alina, uma bonita crioula que sempre dava um jeito de arrumar uma festa. Nessa noite (Baile da Primavera) o vestido de cetim rosa-choque já estava estendido em cima da cama, tinha agora que sair galopando para fazer o penteado e comprar os brincos. Antes, renovou o leite…
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Em falta
Karen Valentim Alves Entre todas as cores da casa, uma em falta. O vermelho vivo dos vestidos de dona Dalva, tão floridos quanto o quintal — sempre num capricho danado. Mas, naquele dia, apenas cinza e folhas secas. E uma rede barulhenta. — Ei, menina! E esse pé nas minhas plantas!? Para aqueles pezinhos,…
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Temos, no Rio, uma fabulosa mulher de papel
1 Eu diria que a grã-fina não tem nada a ver com a vida real. Há um ano, ano e pouco, passei no Antonio’s. Era meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora. Entro e ouço: os palavrões gorgeavam como nunca. Vi, num canto, uma mesa para dois. Eu era um, mas sentei-me. Coincidiu…
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Liev Tolstói, “A morte de Ivan Ilitch”
J. M. Coetzee Em 1884, no auge da fama como romancista, Liev Tolstói produziu um estranho documento autobiográfico que, devido a seus comentários polêmicos sobre a religião, precisou ser publicado no exterior. Intitulado Confissão, falava de uma crise espiritual que o autor atravessara em 1877, durante a qual achou que sua vida perdera o…
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Quimera
Rayssa Sales Uma flor rosa, daquelas de jardim, com suas pétalas ingênuas. Na escola, quando na quinta série, um toque suave na mão e uma troca de sorrisos infantis. Sexta, sétima, oitava série… ensino médio. Conversas nas entrelinhas e provocações sem fim. — “Amizade ou amor?” Nada claro, nenhuma declaração, nunca. Oito ou oitenta,…
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O pior encontro casual
Antônio Maria O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: “Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro.” Como são desprezíveis as pessoas que falam no “bom chuveiro”! E segue o parceiro:…
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Café com leite
Antônio Maria É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo. Como deve ser…
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Um mendigo original
João do Rio Morreu trasanteontem, às 7 da tarde, de uma congestão, o meu particular amigo, o mendigo Justino Antônio. Era um homem considerável, sutil e sórdido, com uma rija organização cerebral que se estabelecia neste princípio perfeito: a sociedade tem de dar-me tudo quanto goza, sem abundância mas também sem o meu trabalho…
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Nada mais antigo do que o passado recente
1 Sou o colunista que se repete com um límpido impudor. Não tenho o menor escrúpulo em usar duzentas, trezentas vezes a mesma metáfora. Eis o que me pergunto: por que não insistir na imagem bem-sucedida? Certa vez, vou passando pela porta do cinema Rex. Súbito, ouço o grito triunfal: “Óbvio ululante!” Viro-me e…
