Rua Sabará, 400

Lygia Fagundes Telles

A empregada era a Alina, uma bonita crioula que sempre dava um jeito de arrumar uma festa. Nessa noite (Baile da Primavera) o vestido de cetim rosa-choque já estava estendido em cima da cama, tinha agora que sair galopando para fazer o penteado e comprar os brincos. Antes, renovou o leite na tigela dos gatos:

— Não sei por que fui inventar esse baile! — gemeu abrindo os braços, ela gostava de se queixar.

Quando entrei na cozinha para preparar o lanche, apareceu Paulo Emílio e pediu um café, Ô! que vontade de um café. Sentou-se e deixou na mesa o livro que estava lendo, O assassinato de Trotsky, a página marcada com um filete de papel. Eu me lembro, pensei em ver o nome do autor mas a água já estava fervendo, deixei para depois e nunca mais.

Escrevíamos então, Paulo e eu, um roteiro para cinema, Capitu, baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. A encomenda era do diretor Paulo Cezar Saraceni, amigo e colaborador muito querido e que o Paulo Emílio apelidou de Capitu porque às vezes ele tinha aquele mesmo olhar fugidio da moça, eram olhos verdes ou azuis? Olhos de ressaca de um mar voraz que vem e arrasta tudo para o fundo.

Paulo Cezar achou graça no apelido? Penso que sim, principalmente quando Alina abria a porta e vinha anunciar, Chegou o sêo Capitu.

Dar apelidos era um costume de Paulo Emílio, a começar pelo Pum-Gati, um gatinho mijado que meu filho achou na rua. Veio com disenteria e por isso ficou sendo o Pum mas assim que sarou, devido às corridas derrapantes que dava no assoalho do apartamento, virou o Pum-Gati, homenagem ao carro Bugatti de tantos brilhos passados. Uma gatinha infanta nos chegou em seguida e ficou sendo a Pum-Gata. Venha ver o Pum-Gati competindo com a Punga! o Paulo chamava e ria da rodopiante parelha em preto e branco nas tábuas enceradas do corredor. Eu mesma não escapei e virei Kuko (a letra K era uma cortesia) devido ao fato de me atrasar nos compromissos, bem no estilo do cuco do relógio da avó inglesa, ele falava muito nessa avó do relógio com o tal cuco desatento. Nosso amigo Almeida Salles (presidente da Cinemateca Brasileira e de tantas outras coisas, eleito presidente até de um bar!) naturalmente era o Presidente e o meu filho (Goffredo Telles Neto, ainda adolescente) ficou sendo o Jovem.

Fiz o café à moda antiga, com o pó fervido na caneca e o tradicional coador de pano esperando no bule escaldado. Ele recebeu a xícara com entusiasmo.

— Acho melhor guardarmos uma certa distância do Bentinho e dessa Capitu — ele advertiu muito sério. — Houve traição? Não houve traição? A gente não vai tomar partido, quero dizer, não assim de modo que transpareça no roteiro, não somos juízes.

Fui buscar um cinzeiro e sentei-me ao seu lado.

— Que coisa extraordinária, Paulo, eu estava pensando justamente no Bentinho. Como adivinhou?

— Ah, pela sua expressão — ele disse e sorriu com malícia. —Há pouco você me olhou com aquela mesma cara interrogativa do Bentinho, acho que vou começar a te chamar de Kuko-Bentinho.

Achei uma certa graça (não muita) no novo apelido acoplado ao primeiro e até aí nenhuma novidade, eu estava mesmo do lado do Bentinho, ele teria se encarnado em mim? No fundo, aquela velha história da ficção (quando assim tão forte) começar a se emaranhar na vida real num emaranhado que podia ser excitante, até divertido. Mas nesse caso, bastante perigoso, tantas dúvidas! Tirei depressa a gatinha de cima da mesa onde ela passeava a sua curiosidade e tentei o tom imparcial. Comecei por dizer que gostaria de esclarecer umas coisas, que coisas?

— Bom, quando li o livro pela primeira vez eu era uma estudante e desse Bentinho me lembro que ficou uma impressão negativa, ai! aquele marido encegado pelo ciúme, azucrinando a pobre da moça naquele movimento assim cruel de parafuso, zuc… zuc… A Capitu, pobrezinha, uma vítima do sadomasoquista atormentador e atormentado, zuc… zuc… E agora, tanto tempo depois, está me ouvindo? descobri de repente uma outra Capitu e essa foi uma revelação: a moça era mesmo dissimulada e astuta, não vítima mas uma manipuladora esperta. Calculista. Amante, sim, do Escobar com quem teve um filho que saiu a cara dele!

Paulo Emílio estava gostando da conversa. Serviu-se de mais café.

— E então, Kuko-Bentinho?

— Então fiquei envolvida, resistir, quem há de?… Mas nessa embrulhada toda, apareceu um dado novo, é um detalhe, um miserável detalhe mas tão importante que acabou mudando tudo.

— Outra vez? — espantou-se Paulo Emílio.

— Outra vez — confirmei com ar grave.

Ele riu. Mas logo ficou sério ao fazer o gesto que eu costumava fazer, uma reminiscência das partidas de vôlei, quando as jogadoras, meio confundidas na quadra, pediam Tempo armando um T com ambas as mãos. Estava muito interessado nessa novidade mas antes queria pesquisar a geladeira, ah! como esse assunto abria o apetite. Espera aí, ele pediu: Que tal uns ovos mexidos nem muito moles nem muito duros, hein? Bastante cheiro verde, pouco sal. Temos que nos fortalecer, Kuko! avisou e trouxe do armário a cesta do pão e uma garrafa de vinho tinto. Deixou a garrafa no fogão, perto da chaleira de água quente, a noite estava fria, era bom aquecer um pouco o vinho. Sentou-se, acomodou o Pum-Gati no colo e abriu o vidro de azeitonas.

— O que você descobriu, Kuko, conta!

Comecei a quebrar os ovos.

— É apenas um detalhe que me caiu assim como uma bomba! Já vou contar, espera, deixa eu diminuir aqui esta chama…

Paulo Emílio começou a cortar o pão.

— Quando jovem, também eu embirrei com aquele Bentinho — ele disse e pegou o saca-rolhas. — Sempre mordido pelos tais dentes do ciúme, lembra? O romance também fala na má terra da verdade que estava era dentro dele mesmo, alimentando suas entortadas raízes. Cheguei à mesma conclusão, Capitu era uma coitadinha que vivia tremendo de medo, é lógico, conhecia de sobra o mecanismo do marido em crise permanente. Para piorar tudo, o chato daquele filho andando feito o Escobar, parecido com o Escobar… Bizarro! — exclamou Paulo Emílio afastando um pouco o Pum-Gati para poder abrir a garrafa. — Mas essas semelhanças não provam nada, conheci no ginásio um menino que era a minha cara! Tirante minha vesguice, podia ser meu irmão gêmeo, as coincidências. Bom, suspendi o juízo desta vez enquanto você virou o Kuko-Bentinho. E apareceu esse detalhe, mudou de novo? Fragilidade, teu nome é mulher!, citou eufórico enquanto levantava o copo para ver o vermelho do vinho contra a luz. Bebeu devagar. Hum!… é da melhor safra. Prova, Kuko, prova!

Instalado no colo de Paulo, de repente o Pum-Gati esticou o pescoço, avançou a pata na curvatura de uma concha e conseguiu abocanhar um naco do mexido de ovos. Que achou quente demais porque depressa largou o bocado na beirada da mesa e me enfrentou com olhar acusador, Queimei a boca, viu?!

Nesse instante a gatinha atravessou na minha frente, tive que me apoiar na cadeira para não pisar nela, Desvia, Punga! eu pedi e ela foi saindo com soberba, o rabo erguido. Desatei a rir, ah! o mesmo verde nos olhos da Capitu, dos gatos, do Paulo Emílio e até da azeitona que ele começou a mordiscar.

— Mas fala, Kuko, e o detalhe? Capitu ficou de novo inocente, é isso?

Mastigando o bocado que deixou esfriar, Pum-Gati levantava o corpo para dar uma nova patada nos ovos com seu esmerado estilo de jogador de golfe. Agarrei-o em plena ação, enlacei a Pum-Gata que já ia saltando na mesa e levei ambos para a sala. Fechei a porta.

— Vou escrever um livro que vai se chamar Os Gatos! — avisei e bebi para brindar a ideia.

— Estes ovos e este vinho! — disse o Paulo voltando a encher os nossos copos. — E daí, Kuko? Esse detalhe que mudou tudo?!…

Ouvi a voz de Alina conversando animadamente com a amiga na área de serviço, deviam estar saindo. Sem abrir a porta ela quis saber, Vocês querem alguma coisa? Levantei a voz para que me escutasse, Tudo bem, Alina, boa festa! Saíram com alvoroço e fez-se o silêncio na área enquanto na sala os gatos começaram a miar. Passei devagar o miolo de pão no fundo do prato e comecei meu pequeno discurso lembrando a noite em que Bentinho (Dom Casmurro maduro) recebe a notícia da morte do filho em terras distantes. E o nosso Bentinho, o que faz em seguida? Calmamente confessa que apesar de tudo jantou bem e foi ao teatro. Mas isso justo na noite em que ficou sabendo da morte desse moço? O homem é um monstro!

Paulo Emílio riu.

— Mas você se esqueceu, Kuko? Ele nunca perdoou aqueles dois, a primeira namorada e o primeiro amigo que ele amou tanto, lembra? E que se juntaram para a traição. Ora, se o moço era o filho deles, dane-se! deve ter pensado. Dane-se!

— Disso eu sei, embora já velhote o Bentinho continuava emputecido — (corrigi depressa) enfurecido, ah, ele morreu? E eu com isso? E foi jantar com apetite e se divertir. Mas espera, querido, esse rapaz que tinha acabado de morrer por acaso não era aquela encantadora criança que se sentava em seus joelhos e o chamava de pai com o mais ardente amor? A paixão que o garoto tinha por ele! Tantas lembranças desse tempo inocente, quer dizer que tudo isso desapareceu?! A pele desse Dom Casmurro ficou assim tão impermeável? Ah, esse cara sempre foi um neurótico. Se ao menos nessa noite tivesse apenas jantado, vá lá! mas jantar bem e depois ir pandegar? Comportamento de um perfeito psicopata.

— Mas ele não foi pandegar, foi ao teatro e teatro é coisa séria — disse Paulo Emílio me tomando pelo ombro. — Quer dizer que com isso a Capitu ficou de novo aquela santa da sua primeira leitura?

— Ficou.

— Então não leia mais o livro porque essas descobertas não vão acabar nunca — ele suspirou arrolhando a garrafa.

Os miados dos gatos subiam agora lancinantes. Fomos para a sala. Ele acendeu o abajur e ligou o toca-discos, Mozart? perguntou enquanto tirava o disco do envelope. Sentou-se na poltrona, acomodou Pum-Gati no colo mas de modo a não fechá-lo no seu espaço, Pung gostava de se sentir livre. Pegou o livro que estava lendo e baixou os óculos para me ver melhor.

— Tudo bem, Kuko, mas não vamos descartar a hipótese da traição.

Meu filho entrou, foi ao quarto e voltou com um pulôver nos ombros e com um caderno.

— Vai sair, Jovem? — Paulo Emílio perguntou.

— Vou estudar com um colega, tenho prova amanhã.

Acenou, pegou a chave em cima da mesa. Ouvi a porta se fechar. Paulo então puxou o abajur para mais perto e começou a ler. Abri a janela.

— Mas o céu está desabando de estrelas! — eu disse baixinho.

Como se tivesse me entendido, a Pum-Gata aproximou-se com um miado amoroso, subiu no espaldar da poltrona verde e esfregou a cabeça acariciante no meu braço. Em seguida, com seu ar bem-comportado ela sentou-se no topo da almofada e ficou olhando a noite.


Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou na adolescência seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado. Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o prêmio Camões. É autora de clássicos como As meninas, Ciranda de pedra e Seminário dos ratos. Faleceu em 4 de abril de 2022, na cidade em que nasceu.

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