1 O contínuo, espavorido, ligou para mim: “Tenho um telegrama urgente para o senhor.” Sou dos tais que cultivam, até hoje, um funesto preconceito contra o telegrama. Sempre que recebo um, imagino que uma calamidade vai desabar sobre minha cabeça. E vamos e venhamos: o telegrama, até que se prove a sua intranscendência, é uma janela aberta para o infinito.
2 De mais a mais, era urgente. Eis a pergunta que me fazia, sem lhe achar resposta: por que urgente? A “urgência” insinuava não sei que possibilidades sinistras. Reparem como nunca os telegramas informam que ganhamos o Prêmio Nobel. No telefone, o contínuo, solidário, insinuou: “Quer que eu abra e o leia?” reajo, em pânico: “Não abre nada, nem lê nada. Deixa que eu leio.” E vim para a cidade, mas confesso: já se instalara em mim um processo de angústia.
3 Vinte minutos depois salto eu, do táxi, na porta do jornal. Estou na portaria. Não preciso nem abrir a boca. Sem uma palavra, o contínuo passa o telegrama. Explica: “Telefonei porque era urgente.” Viro e reviro. Telégrafo Nacional. Lá estava escrito: “Urgente.” Em vez de abrir e ler, com normal e sadia curiosidade, eu o enfio no bolso. Subo para o segundo andar. Eu próprio fazia o suspense e o cultivava. A “urgência” era um mistério ameaçador.
4 Vou para a minha mesa. Tiro o telegrama, e o apalpo. Só faltei farejá-lo, como se a má notícia pudesse ter um cheiro inalienável, inconfundível. Finalmente, abro. Leio da primeira à última palavra. Em seguida, releio. Eis o que estava escrito: “Tomando conhecimento artigo Piauí dia dezenove vg lamentando falta conhecimentos geográficos ética profissional ilustre jornalista vg convido pessoalmente conhecer nossa terra passagem estada tudo minha conta fim não escrever bobagens sua coluna tão apreciada Saudades — Matias Portela Melo Royal Palace Hotel.”
5 Um telegrama não tem as boas maneiras do envelope. Ainda ontem, dizia eu que os envelopes só nos chamam de “excelentíssimo”, de “ilustríssimo” para cima. Ao passo que o telégrafo, que é um voraz caça-níqueis, cobra o “bom-dia”, os “abraços”, os “beijos”, as “saudades eternas” etc. etc. O telegrama amável arruína quem o passa.
6 Mas não era isso que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que, já nas primeiras palavras, o telegrama fazia-me uma acusação crudelíssima de ignorância geográfica. Por mais doloroso e humilhante que me seja admitir tamanha deficiência, confesso lisamente o seguinte: a geografia nunca foi meu forte. Lembro-me de que ao escrever o artigo do dia 19, passei por uma vergonha inesquecível. De repente, verifico que não sei o nome da capital do Piauí. As hipóteses mais extravagantes me ocorreram. Por fim, vi-me diante da seguinte opção: ou São Luís ou Aracaju. Até que despontou uma terceira possibilidade: Teresina.
7 E eis que se cria um novo problema: Teresina ou Teresinha? O telegrama dizia: Teresina. Mas quem sabe se o telégrafo, que cobra cada letra, resolvera economizar o “h”? Seja como for, eu não queria que o linotipista e o revisor percebessem a falta, que tanto me humilha, de conhecimentos geográficos. Por fim, a minha última dúvida era um “h”. Eu não podia sair pela redação, de mesa em mesa, perguntando: “A capital do Piauí tem ou não tem ‘h’?”
8 De uma forma ou de outra, e já arquejante, sacrifiquei o “h” e saiu Teresina e não Teresinha. Mas o que me impressiona é que, sem me conhecer, o nosso Matias Portela tenha descoberto a ignorância que eu não confessaria ao médium depois de morto. Vejamos: que disse eu, no lamentável artigo, que traísse a minha incompatibilidade com a geografia?
9 Estou com o recorte na minha frente. Digo eu, entre outras, que passo dez, 15, vinte anos sem pensar no Piauí. Meu Deus do céu! Serei acaso o único? Não. O Piauí consegue ser mais esquecido do que o Amazonas. Pode parecer uma negra impiedade que, em 56 anos de vida, só tenha pensado três vezes no Piauí. Mas há pior e, repito, há pior: milhões de brasileiros nascem, vivem e morrem, sem que tenham pensado uma única escassa vez no Piauí. De forma que as minhas três vezes passam a ser de uma abundância numérica inenarrável.
10 E os nossos jornais? Fala-se de tudo em nossos jornais, menos no Piauí. Os nossos patrícios que viajam contam que a imprensa mundial não concede a graça de uma notícia, sim, de uma notícia compassiva do Brasil. Já contei o caso daquele fotógrafo brasileiro que foi fazer uma reportagem internacional. No fim de quinze dias, estava desesperado de nostalgia. Queria notícias da pátria e não as tinha. Aflito, foi bater em nossa embaixada. E, lá, todo mundo só falava francês. Por fim, desatinado, batia no próprio peito: “Brésilien! brésilien!” A presença de um brasileiro na embaixada causou o maior estupor. Foi como se ele se declarasse girafa e seu pescoço começasse a espichar para o alto. Eis o que eu queria dizer: se a imprensa mundial esquece o Brasil, a imprensa brasileira esquece o Piauí. Neste país, o Piauí é o maior silêncio impresso que se conhece.
11 No famoso artigo de 19, denunciei como um crime o que se fazia com um Estado irmão. Era indesculpável que o Brasil só conhecesse o Piauí através de um verso que é um mugido: “o meu boi morreu” etc. etc. Em suma: — jamais redigi artigo mais terno e mais solidário. Mas vejam vocês: mal o artigo veio à luz e começaram os protestos. Nenhum, porém, teve a inclemência do telegrama do Matias. Proclama que me faltam, não só “conhecimentos geográficos”, como “ética profissional”.
12 Já vimos que nem sei se a capital piauiense tem “h” ou não tem “h”, se é Teresina, como pretendem alguns, se é Teresinha, como insinuam outros. Portanto, aí se patenteia, com uma evidência translúcida e, mesmo, espetacular, que sei menos geografia do que um sábio francês. Mas em que momento da “Confissão” arranhei a ética profissional? Há, sim, um trecho em que apresento o Piauí como um “Estado pobre”. Será que ninguém sabia da “pobreza” e eu, sem o saber, traí um segredo sepulcral?
13 Talvez. Há uma passagem no telegrama, em que, dando nome aos bois, o bom Matias aconselha-me, paternalmente, a não escrever bobagens sobre o Piauí. Cremos, como Pirandello, ser um autor à procura de suas bobagens. Mas onde estarão elas, as bobagens? Digo, no artigo, que a grã-fina é uma deliciosa figura que deve o que come, o que bebe, o que veste, o que calça. Fixei uma cena antológica do nosso Antonio’s: um grã-fino recebe uma bolada de notas. São seis meses de jantares, seis meses de uísques — não pagos. E ele lia as notas com delicada voluptuosidade e, repito, lia como se lambesse cada papel. E dizia eu que o grã-fino vive de suas dívidas. As dívidas têm-no feito. Levando o meu raciocínio às últimas consequências, concluí que o lugar ideal para o grã-finismo era o Piauí. Lá não há dinheiro e o grã-fino tem a arte de gastar sem pagar.
14 De tudo isso deduziu o Matias Portela que entendo tanto de geografia, quanto de ética. E se propõe a minha ida a Teresina é porque quer me espantar com uma Nova York. Portanto, temos que mudar, às pressas, toda a imagem irrealista e suntuária que fazíamos de São Paulo. Releiam o telegrama do caro Matias Portela. É um desafio. Ficamos sabendo que São Paulo é uma ilusão ou por outra: que o verdadeiro São Paulo é o Piauí.
Nelson Rodrigues
O Globo, 26/3/1969

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