Entrevista com Fabrício Tavares de Moraes, autor do livro de contos E bem quisera que já estivesse em chamas, publicado pela Editora Sator (2025). A entrevista foi realizada por e-mail.

1. O que está em sua mesa de cabeceira neste momento?
Derrubar árvores: uma irritação, de Thomas Bernhard. E Mares do leste, reunião de poemas de Tomas Transtromer.
2. Quais são alguns livros que você relê regularmente e por quê?
Meridiano de Sangue, porque simplesmente é, ao lado de Grande Sertão: Veredas, o maior épico do século XX e, de igual modo, um experimento insuperável na linguagem. Arcaico, alquímico, encantatório, mítico, bíblico — o romance de McCarthy é uma espécie de livro apócrifo de uma tradição religiosa esquecida. E é a evidência de que a linguagem efetivamente funda um mundo. Também retorno sempre aos contos de Maupassant: a simplicidade enganosa; as febres contidas e ocultas sob as frases límpidas; e, é claro, os enredos que se desenrolam como a inevitabilidade de uma lei natural. E, por fim, o grande filósofo cujo pensamento me marcou, cujas obras são demasiadamente vitais para que possamos sistematizá-las: Eugen Rosenstock-Huessy. Leio-o e releio-o. Suas obras servem-me de crisol para o espírito.
3. Que biografias ou autobiografias mais o influenciaram e por quê?
A primeira não é exatamente uma autobiografia, embora revele todo o processo de vida e pensamento de um artista, nomeadamente, Cartas a Théo, de Van Gogh. Há de tudo ali: alegrias e pequenas euforias, os laivos da loucura, a confiança e sensibilidade de um grande artista a seu irmão. Quanto a biografias, eu diria Jesus de Nazaré, de Bento XVI. É um estudo apaixonado e culto, que a todo momento testemunha — no estilo e na argumentação — o vigor ontológico inaugurado pela ressurreição do Cristo.
4. Quais são seus livros de ficção favoritos?
Não obstante nossas listas se alterem com a idade e com o ciclo da vida em que nos encontramos, creio que há sempre alguns marcos, algumas colunas que permanecem em meio às marés. Nesse caso, citaria o romance O litoral das Sirtes, de Julien Gracq, que pinta o ocaso de uma civilização com uma prosa paradoxalmente luminosa. Aliás, diria que qualquer obra desse hierático e obscuro autor francês está entre meus livros de ficção favoritos. Citaria também O processo Maurizius, de Jakob Wasserman, que inicia uma trilogia que muito aprecio. Há, na obra, como que um embate entre uma lei ancestral e o desejo latente por liberdade e justiça. Embora situado na República de Weimar, o enredo do romance parece por vezes uma transposição do mundo dos patriarcas bíblicos que se vê em confronto com o universo dos heróis idealistas do medievo. A descrição da dinâmica mental de um homem que, condenado à prisão, lida obrigatoriamente com um tempo que se arrasta quase viscosamente é um dos maiores exemplos de estudo psicológico num romance, só equiparável à cena de demolição da arquitetura cerebral de Javert, em Os miseráveis.
5. Que livros mais o moldaram como escritor?
Eu diria que, como quase todo contista, Edgar Allan Poe é o primeiro (e incontornável) mestre literário de minha vida. Em seguida, Henry James (que, aliás, detestava Poe), com a tecedura sutil e sensível de uma linguagem que busca a captação dos mínimos movimentos da teia da consciência humana. Mais tarde, li Aquilino Ribeiro, que se tornou para mim um paradigma tanto em razão de seu léxicon pletórico (no qual desaguam séculos e séculos do poroso contato da língua portuguesa com o árabe, o espanhol e o galego) quanto por suas ambiências rurais de uma brutalidade e força míticas. Por fim, elencaria Adonias Filho, um gigante esquecido de nossas letras, que também cria mundos trágicos em que a inocência é sempre indesejável.

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