Entrevista com Karleno Bocarro

Entrevista com Karleno Bocarro, autor dos romances As almas que se quebram no chão e de Advento, ambos publicados pela Editora Sator (2025). A entrevista foi realizada por e-mail.

1. O que está em sua mesa de cabeceira neste momento?

A Anatomia da Melancolia, Volume II, de Robert Burton; Antologia Poética, de Vinicius de Moraes… E, como sempre entro numa das minhas loucuras quando leio — sou completamente caótico, ou melhor, diletante, nas minhas escolhas, salvo durante os estudos na universidade —, estou agora tentando ler todos os romances que tenham Berlim como locus. Já li alguns: Döblin, Lasker-Schüler, Le Carré, Ian McEwan… Ainda faltam os de Hans Fallada. No momento, leio Goodbye to Berlin, do escritor britânico Christopher Isherwood.

2. Quais são alguns livros que você relê regularmente e por quê?

Se o quinto evangelho é, como já disseram, a música de Bach, o sexto é certamente o maior de todos os romances: Dom Quixote, que eu gostaria de ler todos os anos, como fazia Faulkner. Porque está tudo ali — todos os sentimentos, angústias, dúvidas — a ponto de sua leitura parecer um túnel vital onde todas as nossas sensações se manifestam: choro, riso, gargalhada, espanto, revolta, simpatia, fé… Dom Quixote é aquilo que Wagner tentou realizar: uma Gesamtkunstwerk (“obra de arte total”), o único compêndio já escrito, salvo o Antigo Testamento, capaz de abarcar o homem em toda a sua plenitude.

E, como já disse por aí em algumas entrevistas, sempre que vou começar um novo romance, leio, como pré-aquecimento, as tragédias de Shakespeare, As Vidas Paralelas, de Plutarco, e a velha Bíblia de guerra. Além de me inspirarem, eles me dão boas pedras de pilhagem literária, que eu roubo sem pestanejar para construir as paredes do que escrevo.

3. Que biografias ou autobiografias mais o influenciaram e por quê?

Autobiografias? Confissões, de Santo Agostinho. Porque é uma das obras mais sinceras já escritas. Mas a leio, além de seu valor literário e religioso, porque também procuro acompanhar, e tirar lições para mim mesmo, o itinerário de Santo Agostinho: de um homem completamente desordenado a alguém que enfim toma posse de seus instintos e desvarios. Embora, sempre que a releio, eu sinta que não conseguirei fazer o mesmo… Pela simples razão de que concluí que Deus não vai lá muito com a minha cara; por mais que eu tente conquistá-Lo, Ele não consegue esconder a antipatia que sente por mim.

Outra autobiografia que muito me marcou é Minha Vida, de Leon Trotsky, que foi o primeiro livro que comprei com meu próprio dinheiro, lá pelos treze anos de idade. É claro que não entendi muita coisa, e mais tarde me afastei de seu pensamento, sobretudo o político. E ainda mais ao perceber que ele não seria, caso assumisse o governo, muito diferente de um Lênin. Mas sua prosa enérgica, cheia de ironia, sempre me cativou; e há também aquele ritmo que mistura narrativa com aventura, capaz de encantar qualquer leitor.

Biografia? Os cinco volumes escritos por Joseph Frank sobre Dostoiévski, um esforço monumental de pesquisa e investigação desenvolvido ao longo de quase três décadas. Uma maravilha de se ler.

4. Quais são seus livros de ficção favoritos?

Há um grupo de escritores de que gosto muito, talvez porque tenham em comum um certo espírito de aventura, de destemor diante da vida, de desordem e paixão por ela, de ceticismo e de uma adorável misantropia… Além de recorrerem a um estilo de escrita visceral, intenso, às vezes caótico, como se sob o efeito permanente do álcool e do tabaco; um estilo obscuro, difícil, obsessivo. São eles: Malaparte, Jünger, Hamsun, Céline, Faulkner, Bernhard…

Outro aspecto que os une: seus estilos são absolutamente inimitáveis. É como o de Rosa, em Grande Sertão: Veredas, que é grandioso, mas cujo método de escrita ele levou ao túmulo; talvez seja a obra mais impossível de imitar ou sequer de utilizar como fonte de inspiração.

5. Que livros mais o moldaram como escritor?

O já citado Dom Quixote, de Cervantes… Numa inversão (talvez exigida por nossa época?) demoníaca, nos meus romances há sempre uma dupla de amigos inseparáveis, mas do Mal. Porém, fisicamente, são como Quixote e Sancho Pança: sempre um muito alto e magro, e outro baixote — só que, nos meus livros, ambos profundamente malignos.

Dostoiévski, Tchékhov, os russos em geral, me ensinaram muita coisa. Mas não tenho um escritor, como McCarthy em relação a Faulkner, que me molde de maneira direta. Faulkner é, certamente, um dos autores de que mais gosto, embora seja, como Rosa, quase impossível de emular. Também não tenho um único livro que me tenha “formado” como escritor. Os leitores identificam algumas influências…

Ah, Kafka é outro de quem aprendo um bocado e que provavelmente moldou alguma parte do meu pensamento. Na estrutura dos meus romances há certa influência de Nietzsche: aquela circularidade que evoca o eterno retorno, um ouroboros, mas que, em determinado momento, se rompe; a serpente tem a cabeça explodida, e a história segue para um desfecho. É isso…

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