Elegias do País das Gerais

“Você já leu o Dantas Motta?” Não tinha lido, e Mário de Andrade observou: “Carece.” Carecia mesmo. Entretanto, à primeira leitura não me entusiasmei tanto assim. Parecia-me que o poeta juntava belos versos sem contudo chegar ao poema. Esses versos isolados eram porém tão excelentes que mais de uma vez pensei em Mallarmé. Mas eu […]

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Descrição

“Você já leu o Dantas Motta?” Não tinha lido, e Mário de Andrade observou: “Carece.” Carecia mesmo. Entretanto, à primeira leitura não me entusiasmei tanto assim. Parecia-me que o poeta juntava belos versos sem contudo chegar ao poema. Esses versos isolados eram porém tão excelentes que mais de uma vez pensei em Mallarmé. Mas eu desconfiava das paixões de Mário de Andrade, embora nunca o houvesse visto elogiar com ardor um escritor medíocre. Ruim talvez, medíocre não.

Foi com “Anjo de Capote” que comecei a admirar de verdade Dantas Motta e — o que é importante — a comungar em sua poesia. Ainda meio desnorteado, sem dúvida, mas na certeza de estar diante de um homem diferente falando uma linguagem nova. Quando um poeta nos põe um problema, de estilo ou de mensagem, é porque algo inédito aconteceu. Dantas Motta punha um problema, um duplo problema, de estilo e de mensagem, e algo estava acontecendo.

Mas a grande obra do poeta iria ser, por certo, a série das Elegias do País das Gerais, de que faz parte também a “Epístola do São Francisco”. Eu bem sentira, desde o início, a preocupação do social em Dantas Motta e o tom profético de seus poemas. Pois essas características de sua personalidade surgiam agora amadurecidas e encontravam sua melhor, mais pura e mais ríspida expressão. E ele se apresentava como Roma se apresentou a meu espanto: quando imaginava encontrar a ópera dava de cara com uma “pelada” no Coliseu. Deparava, paradoxalmente, em Dantas Motta com uma ausência de retórica quase chocante em quem escrevia, por assim dizer, para lamentar a decadência de sua terra e advertir os donos dela do perigo da revolta dos que nada esperam. Um romântico? Sim, mas um romântico do século XX que assentava o expressionismo natural dos românticos numa disciplina cubista.

Correu Dantas Motta, amiúde, o risco da queda na grandiloquência. Ficou porém, sempre, na eloquência, a eloquência de que não prescindem os grandes temas, os grandes sentimentos, as grandes emoções. Aceitou-a corajosamente, sem a obsessão do pudor, em voga entre os de sua geração.

A poesia de Dantas Motta não é uma poesia fácil. Se sentenciosa por vezes, é através de imagens e de uma larga margem de sugestão. Perdeu-se, em nosso tempo, o amor à linguagem simbólica. Não se lê mais a Bíblia, não se compulsam os Evangelhos. Se o fizéssemos ainda, nesses livros é que iríamos deparar com as raízes de sua fala inteiramente original na nossa literatura. E, como já disse, em Mallarmé também. Porque cumpre ler seus versos tendo sempre em mente o valor etimológico e histórico das palavras. Por outro lado, aliando uma sintaxe ortodoxa às maiores liberdades, e ousadias, do vocabulário moderno, Dantas Motta cria um clima de mistério que é, no fundo, a própria essência da realidade mais chã.

O poeta enriquece tudo o que toca. Em verdade, reanima o que parece morto, valoriza integralmente o que aos olhos do vulgo se afigura desprovido de significação. Todos podem pescar ostras no mangue ou nos rochedos da costa, mas o poeta mergulha e traz a pérola, que é a quinta-essência da ostra, sua razão de ser, sua afirmação. Mas há mares ricos de pérolas e outros de que só os fabulosos mergulhadores tiram alguma coisa. Dantas Motta não hesitou em descer ao abismo mais pobre e mais perigoso, e o que de lá nos trouxe é de espantar, é de assustar. Mário de Andrade tinha razão: carece ler.

Sergio Milliet

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