Perguntas para Julio Cortázar

Mario Vargas Llosa

Cortázar mora no bairro XV de Paris, em uma casinha estreita e alta como ele, repleta de livros, quadros e objetos curiosos que ele mesmo fabricou ou recolheu pelo mundo. Diante de sua mesa, em uma espécie de lousa, presa com alfinetes como borboletas, há uma espécie de antologia do insólito cotidiano (recortes de jornais, cartões-postais, anúncios publicitários inverossímeis etc.) que sempre se renova e está “em dia”. Espírito extraordinariamente alerta para tudo o que revela no homem uma dimensão maravilhosa, Cortázar é também observador muito certeiro da realidade imediata composta por gestos e palavras banais, por ações triviais sem mistério. Nos seus livros, essas duas faces da vida se fundem como em uma moeda. Porém ele não acredita que a vida seja “divisível”.

O UNICÓRNIO E O CAVALO

Mario Vargas Llosa: Uma das coisas que mais me surpreende na sua obra é a aliança perfeita entre dois gêneros: o realista e o fantástico. Mas eu li, em algum lugar, que você se considerava, acima de tudo, um autor do gênero fantástico. Isso significa que esse traço da sua obra é mais importante do que o realista?

Julio Cortázar: Qualquer pessoa que tenha uma concepção surrealista do mundo sabe que essa “aliança entre dois gêneros” é um falso problema. Entendamos primeiro a própria noção de surrealismo: para mim é simplesmente uma vivência o mais aberta possível do mundo, e o resultado dessa abertura, dessa porosidade diante das circunstâncias, traduz-se na anulação da barreira mais ou menos convencional que a razão raciocinante busca estabelecer entre aquilo que se considera real (ou natural) e aquilo que se qualifica como fantástico (ou sobrenatural), incluindo no primeiro tudo o que tende à repetição, aceita a causalidade e se submete às categorias do entendimento, e considerando como fantástico ou sobrenatural tudo o que se manifesta com caráter de exceção, à margem, insolitamente. Certamente, sempre foi mais fácil e frequente encontrar um cavalo do que um unicórnio, embora ninguém possa negar que o unicórnio projeta na vida significativa do homem uma imagem pelo menos tão intensa quanto a do cavalo. Para uma visão surrealista, a determinação do grau de realidade do cavalo e do unicórnio é uma questão supérflua, que no máximo tem importância pragmática, sem contar que em certas circunstâncias um cavalo pode ser muito mais fantástico do que um unicórnio; assim, nessa alternância em que uma ou outra modalidade do ser se impõe sobre nós com uma evidência total e indeclinável, os termos escolásticos de realidade e fantasia, de natural e sobrenatural, acabam perdendo todo o valor de classificação. Eu não sei — referindo-me agora efetivamente à sua pergunta — onde o real e o fantástico começam e terminam; nos meus primeiros livros, eu optei por inserir o fantástico em um contexto minuciosamente realista (os contos de Bestiário, por exemplo), ao passo que agora costumo manifestar uma realidade ordinária dentro de circunstâncias frequentemente fantásticas. É evidente que me afastei do unicórnio para travar uma amizade mais estreita com o cavalo; mas essa mudança de foco não pressupõe uma renúncia nem uma escolha unilateral. Existe o yin e existe o yang: isso é o tao.

UM ESCRITOR VIVO

Julio Cortázar já completou cinquenta anos, mas ninguém diria isso. Não me refiro apenas à sua fisionomia (embora seja verdade que ele aparenta fisicamente muito menos), mas principalmente à sua postura. Depois de uma certa idade, tendo alcançado certo prestígio, o escritor latino-americano passa a impressão de se precipitar sobre o panteão dos próceres da literatura. Acomoda-se no assento confortável do que já escreveu e leu, e não escreve mais ou se torna repetitivo, perde a curiosidade, a paixão pela leitura, e a literatura já não é outra coisa para ele senão a um cartão de visitas que lhe permite viajar, ser convidado para congressos e colóquios, ou atuar como ministro ou embaixador. Sempre senti um estranho mal-estar ao conhecer pessoalmente os escritores “consagrados” da América Latina com mais de cinquenta anos, comprovando a terrível deterioração da sua vocação, o seu anacronismo. Acredito que, nesse sentido, Cortázar é a única exceção. A sua cultura não só é imensa como também atual, algo vivo, que diariamente se corrige e se enriquece e expande as suas fronteiras. A sua capacidade de se entusiasmar e o seu apetite por achados literários são próprios de um adolescente. E é admirável que, entre nós, um escritor deseje ser apenas um escritor, e nunca tenha cedido diante das múltiplas tentações que secam e extinguem prematuramente os escritores latino-americanos: as honrarias, a preguiça, os cultos.

DA NOSSA TERRA A PARIS

Mario Vargas Llosa: Há quem pense que o “romance da terra” é o mais autenticamente latino-americano. O que você acha disso?

Julio Cortázar: Acredito que aqui eu possa empregar os mesmos termos com os quais respondi a uma pergunta parecida de Rubén Bareiro Saguier. Se por terra se entende o drama do homem americano em seu cenário desmesurado (cenário cotidiano, social, ideológico, histórico), não é de se surpreender que, dessa situação profundamente trágica, tenha surgido um repertório romanesco sobressalente. Assim, dadas as planícies venezuelanas e as suas condições de vida e de morte, Doña Bárbara [Dona Bárbara] é quase uma fatalidade. Mas a minha desconfiança começa quando releio em sua pergunta o advérbio “autenticamente”; nela, existe uma espécie de armadilha sutil, uma tentativa de forçar a mão da realidade. Eu diria que o romance da terra é o mais estatisticamente latino-americano, e isso pelos avassaladores motivos telúricos apontados. Observe que, se aceitarmos a noção de “autenticidade”, daremos margem para que o primeiro desaforado estabeleça que o romance da terra é uma obrigação. E, neste caso, eu lhe digo como Hamlet: “Existem mais coisas na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia…”

Mario Vargas Llosa: Você vive há vários anos em Paris, e eu acredito que essa cidade sempre exerceu uma grande atração sobre os escritores latino-americanos, por diferentes razões. O que Paris significa para você?

Julio Cortázar: Durante muitos anos, Paris me garantiu a liberdade que só pode ser dada pelo anonimato que tanto causa desespero naqueles que acreditam ser importantes em seu país. Continuo acreditando que ser ninguém em uma cidade que é tudo vale muito mais do que a fórmula contrária.

Cabe explicar que Cortázar respondeu a essa pergunta no passado, há certa confissão nostálgica nisso. Ele já não consegue viver anonimamente em Paris. Sei que não há jovem poeta, romancista ou crítico sul-americano que, ao passar pela cidade, não tente ver Cortázar. E ele é sempre cordial e hospitaleiro com todo mundo, desde que o visitante não lhe peça uma entrevista ou o convide para um congresso. Neste caso, é sempre cordial, mas raramente responde a um questionário e ninguém nunca conseguiu arrastá-lo para um congresso.

UMA CADEIRADA NA CABEÇA

Mario Vargas Llosa: Se um jovem de quinze anos viesse até você e lhe dissesse “Quero ser escritor, aconselhe-me sobre o que devo fazer”, o que você diria para ele? (Estou pensando em um jovem sul-americano.)

Julio Cortázar: Assim como os professores zen, eu tentaria quebrar uma cadeira na cabeça dele. É possível que o jovem sul-americano compreendesse o que há por trás da cadeirada; se, apesar de tudo, a minha resposta não ficasse clara o bastante para ele, eu lhe diria que o simples fato de buscar os conselhos dos outros em matéria de literatura comprova a sua falta de vocação verdadeira. Mas talvez a cadeirada acabasse sendo fatal, e teríamos um epígono a menos, o que sempre é uma vantagem em nossos países.

Tenho certeza, no entanto, de que seria diferente se o jovem sul-americano levasse um manuscrito para Cortázar e pedisse uma opinião. Então ele leria esse texto com a mesma atenção rigorosa com que leria um inédito de Shakespeare, e em seguida chamaria o jovem e lhe diria, conforme fosse o caso, para se dedicar a “alguma coisa mais útil” (o embaixador do Peru, Héctor Boza, disse para Espinoza Dueñas quando descobriu que este era pintor: “Não seria melhor ter se tornado engenheiro, homem, que tem mais futuro?”), ou para corrigir de forma parcial ou total o seu manuscrito, ou para deixá-lo tal qual. E, neste último caso, Cortázar faria o impossível para que o jovem sul-americano encontrasse um editor. Não tem nada de estranho, pois, que tantos jovens o procurem quando querem um parecer absolutamente honesto sobre o que escrevem.

PREFERÊNCIAS

Mario Vargas Llosa: Quais autores, quais livros estão mais presentes para você atualmente? Ou qual poeta, qual contista, qual romancista você releu mais vezes?

Julio Cortázar: As suas perguntas não são intercambiáveis, embora pareçam, e por isso eu responderei separadamente. À primeira: os autores mais presentes para mim são sempre os franco-atiradores, os marginais, os alienados da literatura; todos os terríveis travailleurs, para usar a expressão de Rimbaud. Impossível fazer uma lista; cito aleatoriamente Jarry, José Lezama Lima, Roussel. Em contrapartida, quando você me pergunta pelo poeta, o contista e o romancista que eu reli mais vezes, está se referindo, no meu caso, àqueles cuja releitura signifique um prazer mais do que um risco, uma conciliação mais do que uma aventura. Sem hesitar, dou três nomes: o poeta Keats, o contista Borges, o romancista Dickens.


Publicado originalmente no Expreso, Lima, 7 de fevereiro de 1965.

Fonte: As cartas de Boom

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