A obra de Adonias Filho, um dos gigantes da nossa literatura e membro da ABL, volta ao público pela Editora Sator. Iniciamos este resgate histórico com o lançamento de As Velhas em formato Kindle. Um romance de força bíblica e densidade trágica, onde o tempo parece estagnar e a memória pesa como pedra sob o sol da Bahia. Abaixo, compartilhamos o excelente texto de Carlos Nejar, intitulado "Adonias Filho continua à espera de uma releitura de sua obra".
Adonias Filho continua à espera de uma releitura de sua obra
Carlos Nejar
Adonias Filho nasceu em Itajuípe, Bahia, em 27 de novembro de 1915, e faleceu na cidade de Ilhéus, em 1990. Teve a infância em fazenda da região de cacau. No Rio de Janeiro foi Diretor de A Noite, do Serviço Nacional de Teatro e da Biblioteca Nacional. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Foi romancista e ensaísta. Inovador na ficção brasileira, inventor de criaturas primitivas sujeitas à paixão, à luta e ao tempo. Universo trágico e lírico. Poeta da ficção, criou mundo próprio, alegórico, com a ação se fazendo (o passado no presente, antecipando o futuro). Sua narrativa cresce: sinfonia, resvala entre amorios e dores, persevera na agonia. A morte não conta, porque se ultrapassa de viver. William Golding escreveu que há dois tipos de romancistas: um deixa o sentido evoluir com os personagens ou situações; o outro tem uma ideia e procura um mito para lhe dar corpo. Adonias Filho se enquadra nas duas categorias.
Romances: Os servos da morte, 1946, Memórias de Lázaro, 1952, Corpo vivo, trilogia − 1962, O forte, 1965, Léguas de promissão, 1968, Luanda Beira Bahia, 1971, As velhas, 1975. Ensaios críticos: Renascimento do homem, 1937, Tasso da Silveira e o tema da poesia eterna, 1940, Modernos ficcionistas brasileiros, 1958, Cornélio Pena, 1960, História da Bahia, 1963, O bloqueio cultural, 1964, O romance brasileiro de crítica, 1969.
Com exceção de Eduardo Portella, Octavio de Faria, Afrânio Coutinho e algum outro na estelar esfera das páginas recônditas, há um injustificado silêncio sobre a ficção extraordinária de Adonias Filho, que se pode entender como silêncio armado pela ideologia, quando foi ele que ajudou inúmeros intelectuais presos na ditadura. E chegou o tempo de reconhecê-lo e amá-lo, desarmando essa ideologia que tem cometido absurdos entre nós, como o de pospor a autênticos criadores, outros bem menores esteticamente, protegidos por partido, bandeiras ou sistemas, que nada têm a ver com a literatura. A grandeza é a obra, o resto é resto, nem chega a silêncio.
Adonias era de grandes gestos, um romântico seco e fraterno, retido, porque alarmado e um tanto tímido, concha de tempestades e branduras. Começou o itinerário como romancista, depois de um percurso ensaístico. Ao aparecer o livro Os servos da morte, veio feito, com as qualidades que o caracterizariam: a paixão da terra e a terra da paixão; rigor de linguagem para que se tornasse mais belicoso. Mundo selvático, onde os fortes sobrevivem. A violência é quase bárbara num estilo de adaga. A senhora Morte com os que a ela servem, obstinados e duros. Devolvendo à terra — mãe severa — os que dela vieram. Com religiosidade latente e, às vezes, impositiva. Como os protagonistas que têm nomes, agem, lutam, levando o rosto feito de terra, como se fossem anônimos.
Surgiu longe dos modelos da tradição brasileira, próxima de Faulkner, John dos Passos, Hemingway ou Malraux. Aliás, a respeito desse último, o que cabe de luva na criação adoniana, observa Edmund Wilson (Man’s fate):
Malraux cria as personalidades de seus personagens de um modo orgânico e as explora inteiramente. Não só testemunhamos os seus atos como vemos a forma com que reagem em relação às forças da cena sociopolítica; elas dividem conosco suas mais íntimas sensações.[1]
O foco narrativo é de uma onisciência domada, pendular. E a ambientação regional aqui é robusta, agregada ao corpo (corpo vivo?), como se o artista emergisse do caos original entre as trevas da vida, do amor e da morte (essa fatalidade), para o clarão da coragem. Também em relação ao livro que adveio, Memórias de Lázaro — referindo-se ao que ressuscitou através da palavra. Ao memoriar, fala dos gastos da morte, com o eu-narrativo recuperando a lembrança, descrevendo um vale trágico e feroz, como Orfeu que saltasse dos Infernos. Os heróis de Adonias nesses dois livros aproximam-se dos guerreiros de Homero, afrontando a sina, apesar do vaticínio dos deuses, ou até enfrentando os deuses do sangue e do jugo. E nisso se aproxima de Faulkner, sua ressonância maior, com o mesmo ar de tragédia, a mesma natureza épica, com a técnica ousada que se casa ao desenvolvimento narrativo. O desenho é sáfaro e cinematográfico, visualíssimo, portanto, o quadro que a oralidade delineia destes seres que resistem. Os recursos estilísticos utilizados pelo escritor despojam-se na intensidade; o panorama social acutila-se de consciência e o múltiplo foco das circunstâncias e protagonistas evita a linearidade, ao gerar dimensões simbólicas. Ocorrendo, não a poesia da prosa, mas a prosa da poesia, esta alavanca instintiva de fundir o maravilhoso com o dramático, na corda esticada do enredo que se alonga, repentina, seriando-se. E as criaturas que são dirigidas, à proporção em que também dirigem como a rédea no cavalgar psicológico e ritualístico — não das Valquírias wagnerianas — porém de um Bach com Mozart e algo de música atonal. Se Lázaro é o eu que narra, ele o faz com tal objetividade, que se torna coletivo, voz das coisas, ou da existência deflagrada, vencendo obstáculos. Os homens são implacáveis, sobreviventes de reduto também implacável. O rifle e o punhal, os utensílios, o universo rural do interior baiano e o universo mais amplo de nossa penúria e alteza. Kafka também está aqui, como é mais terrível no burocrata mundo dos civilizados.
Por sua vez, O forte (homem, muralha) situa-se na cidade de Salvador. Obra-prima de recurso estilístico e humanidade. O forte é Jairo, O Forte é Salvador; o povo e o amor se personalizam em Tibiti, com o amor de Jairo e a terra que também é guerreira. Se a pensadora que foi Simone Weil percebeu nos heróis homéricos, como centro, a força, em Adonias é a mesma energia humana. O incêndio do Forte recorda o incêndio das muralhas de Troia por invasão dos gregos. É impressionante o uso da ação dos verbos no gerúndio.
Os assaltos viriam sempre, canhões como os trovões do céu, soldados praguejando em fúria de doidos. Fazia-se tesa, endurecendo-se, quase uma rocha. Os negros caíam, exaustos, alguns sangrando nas mãos, Manuel Azul ameaçava, brandia o relho, era o dono. O trabalho não tinha como se interromper. Um escravo substituía outro na tarefa, carregando nas estacas, retirando a terra dos buracos, montando a paliçada (Vejam os leitores como a narrativa que estava objetiva, agora se subjetiva)… a primeira chuva de sangue caiu (observem a sinestesia, o ato de derramar — sangue/chuva) na véspera, ocupando o sítio, e comandados pelo capitão, soldados se colocaram atrás da paliçada. Os movimentos e as providências eram de guerra, Manuel Azul, (eis o nome do personagem e a cor que o tipifica, poeticamente) ao retirar-se com os seus negros, dissera em tom alto:
— Não tenho escravo para morrer flechado. A vontade de ver me prendera. Com a arma emprestada pelo capitão, a mochila de balas nas costas, aguardei a luta com certo nervosismo. Ainda não tínhamos um Forte, é o que afirmo… Antes que ocupassem as posições no silêncio feito (particípio passado — contraste), o capitão disse:
— Eles subirão amanhã, logo cedo, na madrugada. Tenham os olhos abertos e os bacamartes prontos. Não clareara ainda, as fogueiras em brasas, e rio de baixo aquele rumor de correnteza (metáfora poética) se engrossando. Centenas de homens, aos gritos, deviam subir. Nossas mãos não tremiam, os olhos esperando, parados (particípio passado — contraste) os corpos. Ouvidos apanhavam a gritaria, pés se movendo, braços e arcos avançando. O chão do Forte parecia sofrer, doendo (como uma pessoa) a sua frieza, mais humano que os soldados embrutecidos (as coisas mais humanas que os seres humanos — brutos). E como que estremeceu quando a descarga explodiu, a pólvora cheirando, as árvores surgindo com a primeira luz.
— Atirem para matar! — a ordem do capitão. Descarga puxou descarga naquele momento. Os que vinham de baixo, porém, continuaram a subir. Gemidos, e muitos, fazendo ferver (ódio) o sangue. A luz cresceu, o sol espiando e vimos os outros homens. Nus, entre as árvores, correndo e saltando. Avançavam sobre os que caíam, nas mãos as bordunas, as feras do mato. O capitão rodava em torno da paliçada, a saliva grossa nos dentes, confiando nas estacas pontas de lanças. Adivinhávamos na febre dos seus olhos congestionados, que o corpo a corpo seria inevitável. Abriu-se a brecha na paliçada. O sol queimava, sede nas gargantas, ocupadas todas as mãos. Raiva e somente raiva em nossa vontade. Eu vi pouco porque era um entre eles.[2]
É quando os leitores se dão conta de que o eu que narra, integra os que tomam o Forte.
Adonias Filho, mestre nas técnicas estilísticas, tem processo peculiar de narrar. Um José de Alencar rijo, atordoante e retido, substantivador, essencial. Essa essencialidade da matéria ficcional nasce do desbastar de arestas supérfluas na descrição, a poupança nos diálogos, o efabular pensando pela mente das criaturas, como se avalizando seus atos, dentro de flashes, (des)montagens, rupturas e o dedilhar da memória nas licões mais de Faulkner, que de Proust, sombreando-se. Como as camadas e as imagens contundentes de sonhos na realidade que se escondem, para não rebentarem. E o círculo se repete: “Os homens não se dispersam, não quebram o círculo, imóveis, os pés descalços.”[3]
Sua visão e tipos são universais. Usando a alegoria com pertinência, enraíza-se no contado, como um rio pelos juncos. Malraux afirma: “Quanto mais Balzac descreve um rosto, menos eu vejo o rosto que ele descreve.”[4] Em Adonias, os rostos que descreve são para serem imaginados. E usa metáforas e símbolos que se distraem, ajustados tal o musgo nas pedras, indagando. Sua aproximação dos clássicos não é um mero retorno, é uma viagem de ida. Por lhe escavarem mais ardorosamente ainda as pegadas de rudeza agreste e modernidade, o fatalismo da natureza e a natureza dos seres, sem esquivança do real. Mencionei um trecho de Corpo vivo. E impõe-se a análise dessa outra obra-prima. Como William Faulkner, Adonias tem, aqui, sua cidade encantada, Macanã. Porque, em amplitude, o seu território é o interior baiano e Salvador. De Itajuípe ao mundo. O romance começa e termina, no ninho; A serra, como um círculo, seguindo a lição de Carlos Fuentes que ensina a importância da primeira e da última frase de um romance. Cajango não está sozinho, vincula-se ao Corpo vivo de seu povo. Não se demitiu, ao não realizar sua vingança. Ultrapassou-se Também graças ao amor de Malva (vejam a construção semântica: M — o eu e Alva). Caio é o alter ego do autor. Serial é o trabalho de construção da realidade, para escapar do linear, com estrutura matematicamente calculada. O artista e o ser ético, ou metafísico, dão-se as mãos. Assim, o artista não superou o ético, porque o artista é o ético. Se isso caracterizou Corpo vivo (faz-se dificultoso saber-se o que nele é humano além do corpo), é porque houve o abandono, sim, do herói grego. O Ulisses vindicativo, ou Aquiles irado e cheio de amargor. Adonias Filho supera a figura do herói grego que norteou a sua poética excepcionalmente, iluminando a figura do herói cristão, tocado pelo amor de (M)Alva, a revelação da luz. Ao renunciar à vingança, o herói Cajango transpassa a escala sanguinária para a escala da misericórdia, persistindo amor de salvação. Queira-se ou não, sempre careceremos de heróis, de poetas e santos. A mediocridade geral não elide a necessidade da grandeza.
Léguas de promissão, de solidão cósmica, divide-se em: “Imboti”, “O pai”, “O túmulo das aves” (texto da mais pura poesia); “Um anjo mau”, “O rei”, “Simoa”. Vivem como contos independentes e simultaneamente, entrelaçados à terra, aos motivos comuns, personagens vigorosas, solidárias, com Itajuípe e suas léguas de promissão, léguas de um mundo se desintegrando, chocante e chocado, o povo negro como abelhas no açúcar. “As estrelas chegaram — eles viram — as estrelas do sul da Bahia. Deitaram-se na terra, abraçados, para o sono.”[5]
Em Luanda Beira Bahia emerge o sentimento religioso, sendo, mais uma vez, Salvador o palco. Adonias renova a capacidade da dureza, do corte, a volúpia de contar, reunindo o sincretismo cultural afro-baiano no ambiente marítimo, cadenciado de ondas e paisagem. O romance As velhas volta à subjacente mitologia grega, agora a das Parcas, tecedoras do destino humano. Como as da Grécia, também essas de Adonias, são quatro: Tari Januária; Zefa Cinco; Zonga Rainha Preta; Lina de Todos. Relata a romaria sinistra do filho pataxó atrás dos ossos do pai, Jasão atrás do velocino de ossos, entre rancores, vinditas, astúcias. Tem a sombra de Pedro Páramo, de Rulfo, no enviar do filho a Comala, a fim de encontrar o pai. E finda a narrativa com esta sentença-oráculo: “As velhas, ele ainda pensa, todas as velhas têm os seus mortos. A questão é saber se esses mortos ficaram ou se estão esperando na frente.”[6] É um clássico. E o valor dos clássicos está na razão direta do seu teor de vida. E do seu teor de memória.
[1] Edmund Wilson, O castelo de Axel (São Paulo: Companhia das Letras, 2004).
[2] Adonias Filho, O forte (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980), p. 21-22.
[3] Adonias Filho, Corpo vivo, 22.ª ed. (Rio de Janeiro: Bertrand, 1988), p. 132.
[4] André Malraux, apud Léo Schlafman, A verdade e a mentira: novos caminhos para a literatura (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988).
[5] Adonias Filho, Léguas de promissão (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979), p. 109.
[6] Adonias Filho, As velhas (Rio de Janeiro: Difel, 1975), p. 126.

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