José Lins do Rego

Antônio Maria

Após alguns meses de duros padecimentos, morreu José Lins do Rego. Nada me fazia acreditar que Zé Lins escapasse ou, ao menos, resistisse mais tempo. Entretanto, a notícia de sua morte causou-me ressonâncias de qualquer coisa inesperada. Como se eu não soubesse que o escritor estava desenganado, não só na experiência dos médicos como nas esperanças dos amigos. Como se eu estivesse intimamente convencido de que, à última hora, a morte lhe faltasse ao encontro marcado. É que eu estava persuadido do seu lema, da sua fé, da sua divisa: “Com Zé do Rego ninguém pode”.

As lembranças do meu pouco convívio com Zé do Rego são as mais ternas. Anteontem contei de sua preocupação com os meus excessos e de uma conversa que tivemos no terraço de sua casa, enquanto Naná nos servia o café. Este encontro ficou em fotografia, hoje em poder de João Condé, fotografia que eu gostaria de guardar como lembrança de um conhecimento e de uma amizade que prezarei entre as mais ternas recordações.

Num sábado, após um almoço de churrascaria, saímos de automóvel a caminho de São Conrado. Iam conosco João Condé, Di Cavalcanti e, possivelmente, mais uma outra pessoa que não consigo lembrar quem era. Pretendíamos ir à casa de Oscar Niemeyer para fazer-lhe uma surpresa e possivelmente melhorarmos o verão num banho de piscina. Zé Lins estava pernambucaníssimo e me fez cantar, a viagem inteira, os três frevos descritivos dos carnavais do Recife. Mal eu acabava, mandava que recomeçasse, fazendo questão que eu caprichasse nas difíceis introduções de cada um, cuja quantidade de notas musicais me levava quase à asfixia, e dizia, segurando-me a nuca: “Rapaz, eu estou lhe descobrindo hoje. Você é um homem danado”. A maior prova de afeto que um nortista pode dar é chamar alguém de “danado”. E aquele carinho me cativava e envaidecia.

Oscarzinho não estava em casa e descemos para comer pamonhas nas barracas sertanejas de São Conrado. Pois bem, mesmo com a boca cheia de pamonha, eu tinha que cantar os frevos do Recife, porque a arrumação das palavras, dentro da cadência picada do frevo, era um milagre que encantava Zé do Rego.

Depois, em Paris, soube que acabara de chegar. Meia hora depois, vinha com Cícero Dias visitar-me, na sessão permanente do meu quarto, no Chambiges. Tínhamos vinho na mesa e alguns queijos. Todos estávamos contentes. Mas Zé Lins, não. Parecia preocupado com alguma coisa. Sentou-se. Adernou a cabeça para um lado e ficou ouvindo a conversa. Daí a tempos, como se estivesse despertando, deu a ordem: “Vai, rapaz, canta o frevo”. Cantei e pensei que estava continuando o exaustivo festival do nosso passeio a São Conrado. Mas só foi preciso cantar uma vez. Zé Lins ficou depressa desinteressado. Queixou-se de que estava cansado e pediu que o fosse ver, à noite, no jantar da casa do Cícero. Lá, a mesma coisa. Aquele homem repleto de vida, aquele homem transbordante de alegria já não era o mesmo. Parecia que nunca tinha sido alegre. Lembro-me de que Gilberto Freyre puxava por ele, recordava coisas, pessoas, e em resposta não ouvia mais do que pequenos resmungos de quem está preferindo o silêncio. Todos estranhamos o Zé Lins de Paris, sem imaginarmos, todavia, que sua morte estava começando ali, num mutismo de vaguidão e desencanto, que nem Paris nem a nossa alegria de Paris conseguiam abalar.

Zé do Rego, depois de escrever isto aqui, vou cantar os frevos em sua homenagem. Vou caprichar nas introduções asfixiantes. E vou rever, em seu rosto grande, sua boca sertaneja abrir-se num sorriso. Vou ouvir de novo que sou um danado e sentir a mesma alegria daquele momento em que fui elevado à categoria de danado. Somos uns danados, eu, Condé João, Odorico Tavares, Cícero Dias, Thiago de Melo, Odilon Bezerra Coutinho, Luís Jardim. Danado era Vitorino Carneiro da Cunha, montado em sua égua pelos córregos e atalhos do engenho, soberbo sonhador de glórias impossíveis. O maior personagem do romance brasileiro! Quando eu quiser ouvir sua voz, pedirei a Jardim que me a imite. E Jardim me contará a história daquela promissória que vocês fizeram juntos (Jardim como avalista) e que, no dia de pagar, fez você dizer a Jardim: “Vá, rapaz. Você assinou, agora você honre a sua assinatura”. Saudade, Zé do Rego. Muita.

O Globo, 13/09/1957


Antônio Maria Araújo de Morais (Recife, Pernambuco, 1921 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1964). Cronista, locutor, produtor de rádio, caricaturista, compositor e repórter. Transita entre diferentes áreas artísticas, tendo a escrita como pano de fundo de suas obras, que vão de composições musicais à produção literária de crônicas.

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