Otto Lara Resende
janeiro de 1981
Desde que apareceu Sagarana, tive interesse pela vida e pelo convívio de João Guimarães Rosa, que já conhecia de nome, por circunstâncias ligadas à nossa condição de mineiros. Rosa foi aluno de meu pai, em São João del Rei, e guardou desse tempo permanente lembrança. Achou São João triste. Oralmente e por escrito, mais de uma vez referiu-se aos sinos de São João del Rei. Há alusões à tristeza do Oeste mineiro em sua obra, por certo a partir de sua experiência infantil.
Até o fim da vida, sabia de cor uma cópia que meu pai passou-lhe, por estar lendo durante a aula um livro de Camilo Castelo Branco. A cópia tinha várias linhas e era um elogio da leitura… nas horas adequadas. Rosa repetia a cópia (que infelizmente não guardei) e imitava meu pai, referia-se aos seus olhos que refletiam autoridade. Em Belo Horizonte, o meu tio Sylvio, irmão de minha mãe, conheceu Guimarães Rosa e conviveu com ele.
O pai de Hélio Pellegrino, dr. Braz Pellegrino, foi professor de Rosa, na Faculdade de Medicina, e dele guardava lembrança, pequenos episódios relativos ao ex-aluno. Vicente Guimarães, irmão da mãe de Guimarães Rosa, também foi aluno de meu pai. Anos depois fomos colegas no O Diário, de Belo Horizonte. Mais tarde, Vicente, conhecido como Vovô Felício, autor de histórias para crianças, divulgou suas reminiscências de Joãozito, apelido do escritor em família.
Guimarães Rosa tinha sedução por obras volumosas, alentadas. Extremamente cuidadoso, minudente, concentrado no labor literário, e cada vez mais concentrado à medida que os anos passavam, vivia obcecado pelo mot juste, qual Flaubert, ao mesmo tempo que se deixava derramar no encantamento das palavras.
Queria ser sintético, dizer o máximo no mínimo de palavras: e queria entregar-se ao fluxo verbal, numa caprichada prolixidade que implicava muito de invenção pessoal, seja a partir de seu grande conhecimento de línguas estrangeiras, inclusive arcaicas, seja a partir de um sentimento lúdico, quem sabe mais comprometido com o ocultismo do que com a etimologia… Pouco antes de sua morte, em 1967, Rosa dizia que andava estudando vietnamês arcaico. Como hoje se comprova através de sua correspondência, em particular pelas cartas que trocou com o tradutor italiano e com o tradutor alemão, Rosa se interessava de perto pelo trabalho de passar a sua obra para outras línguas. Discutia cada pormenor, analisava cada palavra.
Quando tinha dúvida, ou queria aprofundar a sua certeza, consultava pessoas competentes. Uma vez, almoçamos juntos, Antonio Callado, ele e eu. Rosa expôs a Callado uma série de dúvidas acerca de palavras e expressões inglesas. Discutia as várias alternativas. Como ao fim andássemos pela rua, Rosa parava e, apoiado contra a parede, tomava notas do que lhe pudesse ser útil.
João Guimarães Rosa gabava-se de escrever de pé, em seu apartamento da rua Francisco Otaviano. Gostava muito de lápis, de cuja ponta cuidava com esmero. Antes de começar a escrever, dizia que era preciso “limpar o aparelho”. Assim chamava o trabalho prévio de rabiscar, escrever uma ou outra palavra, desenhar garatujas, até que o “santo” baixava e se punha a escrever febrilmente.
Sua concepção de literatura era meio mediúnica. Tudo já está escrito, dizia. O escritor é assim apenas um intermediário, escolhido para recolher o texto, quase psicografá-lo. Por isto mesmo, não julgava as traduções de sua obra. Sustentava que, vertido para outra língua, um texto pode até ficar melhor. A tradução norte-americana de Grande sertão: veredas é sabidamente insatisfatória. Rosa conhecia bem inglês, mas nunca se importou com o destino de seu romance nos Estados Unidos. Não se queixava. A seu ver a tradução era um jogo, uma aventura, podia sair melhor ou pior do que o original. Aquela era pior, mas outras seriam melhores.
Citava como exemplo “A terceira margem do rio”, um conto que considerava de muita sorte. A própria inspiração veio-lhe de graça. Ele estava no Itamaraty, diretor do Serviço de Demarcação de Fronteiras, quando sentiu aproximar-se a aura. Ao ter certeza de que a história vinha com força, saiu, pegou o bonde na rua Larga e foi para casa, no Posto Seis, em Copacabana.
Durante a viagem, o conto delineou-se e surgiu inteiro, irretocável. Rosa o conduzia com o maior cuidado, para que não fugisse, nem se evaporasse. Levava-o — a imagem é dele — com a cautela de uma criança que leva um balão colorido que pode arrebentar. Desceu em casa e foi direto à mesa de trabalho: “A terceira margem do rio” saiu de um jato, praticamente sem precisar de revisão. Antes mesmo de ser incluído em Primeiras estórias, o conto foi publicado em Buenos Aires. Do castelhano passou para outras línguas. Estava escrito também o seu destino — dizia Guimarães Rosa, feliz com a carreira espontânea de “A terceira margem do rio”.
Para ser veraz, Rosa gostava de tudo que escrevia. E gostava de elogios. Guardava com carinho os artigos laudatórios. Os que lhe eram contrários, ou lhe faziam restrições, guardava de cabeça para baixo. Era o castigo que impunha aos que não apreciavam a sua obra… E nunca mais os relia. Tinha confiança em seu poder criador e não escondia esta autoconfiança, sobretudo depois do reconhecimento que o cercou de consideração e respeito.
Guimarães Rosa aconselhava a todo escritor que tivesse o seu cahier d’écrivain, como é costume entre os franceses. Segundo ele, o francês diz: “Prenez votre cahier d’écrivain”, quando vai contar uma história ou fazer uma observação interessante. Grande sertão: veredas foi precedido de vasto material de pesquisa, de garimpagem na memória e de consultas sucessivas e minuciosas a pessoas de sua confiança, a começar por seu pai. Lembro-me do interesse com que me contou o conhecimento que conseguiu sobre certas particularidades de um rio, em particular do rio São Francisco. Explicou-me o que era uma coroa e depois o pássaro que aí se aninha.
Sempre encantado com as palavras, gostava de ler o que escrevia, para que se apreendesse todo o sentido do texto. Por outro lado, inibia-se às vezes ao escrever, ainda a coisa mais simples, um bilhete, uma dedicatória. Tenho um exemplar de Corpo de baile com a dedicatória incompleta, porque Rosa, na Livraria José Olympio, da avenida Nilo Peçanha, foi por um momento incapaz de completar o que pretendia dizer. Deixou o espaço em branco e depois passou a dizer-me que só escreveria quando eu “merecesse”, isto é, quando tivesse lido cada uma das histórias.
Na última vez que o vi, véspera de minha viagem para Lisboa, almoçamos na José Olympio da rua Marquês de Olinda e fomos juntos para a cidade. Descemos na avenida Rio Branco, fomos a pé conversando até o Itamaraty. Lá ficamos toda a tarde. Rosa me deu uma encomenda para o seu editor português Antonio de Sousa Pinto e prometeu-me que iria a Lisboa para o lançamento de Grande sertão. Falou-me de Portugal com intimidade. Como falássemos da paisagem e de flores, Rosa passou a me expor o que sabia sobre os vários tipos de mel português. Era um conhecedor também de mel, segundo as flores e as abelhas. Separamo-nos, dirigi-me a sua mesa, gostou de minha volta, me fez entrar e acabamos saindo juntos do Itamaraty.
A notícia de sua posse na Academia foi dada por mim. Assim que marcou a data, pediu-me para dar uma nota no Jornal do Brasil, informando apenas que JGR, “segundo consta”, iria afinal tomar posse de sua cadeira. Depois eu diria algo mais explícito no programa que na época fazia diariamente na TV Globo. Ele telefonou-me para casa no dia seguinte e me pediu, rindo, que me referisse a ele como embaixador e contasse uma história de sua neta. Desejava que a neta me visse na TV, falando dele, para que ficasse feliz e soubesse que o avô era “muito importante”… A notícia de sua posse acadêmica seguia um roteiro longo e cheio de curvas. Rosa explicava: “É para iludir a morte”.
Grande sertão: veredas, a crer na conversa do próprio autor, era para ser apenas um conto — e não dos mais longos. Numa sexta-feira, quando ainda trabalhava se não me engano nas histórias de Corpo de baile, Rosa pôs-se a escrever o tal pequeno conto. Tinha a narrativa elaborada, era só “copiá-la”. Seria mais um biscoito, a sair prontinho de seu forno doméstico. Começou a escrever e não parou mais. Entrou num delírio que prosseguiu pela noite adentro, até o sábado. Só parou obrigado pelo cansaço ou pela necessidade. Escreveu todo o sábado. Entrou pela noite de sábado para domingo. Trabalhou o domingo inteiro. Até segunda-feira, quando tinha delineado o romance fluvial, a sua pirâmide.
As duas palavras, biscoito e pirâmide, estão associadas a um dito que ele costumava passar aos amigos: “Não faça biscoitos, faça pirâmides”. Com isto, desaconselhava o trabalho dispersivo dos jornais, a crônica, ou mesmo o pequeno conto. Sustentava que o escritor devia concentrar-se, condensar-se, viver monacalmente para a sua obra, preparar-se longamente para ela e pôr-se ao trabalho sem hesitação ou fadiga. Grande sertão: veredas exauriu-o fisicamente. O “delírio” criador continuou dias seguidos, até a conclusão do romance.
Adaptado ao cinema, Grande sertão não teve carreira das mais felizes. Quando Rosa cedeu os direitos aos irmãos Santos Pereira, alguém lhe disse que os diretores mineiros não eram os mais indicados para filmar a história. Rosa não se deixou impressionar. “Eles pediram primeiro”, e sustentou a cessão dos direitos. Tinha aí a mesma posição já referida a propósito da tradução: era outra obra, outra arte, podia ser melhor ou pior do que a original, já não lhe pertencia. A obra pode multiplicar-se à vontade e o autor não deve policiar essa multiplicação.
Publicado, Grande sertão lhe dava alegria e orgulho. Gostava das ilustrações, da impressão, de tudo. Vi-o pegar o livrão mais de uma vez: “Olhe, fica em pé” — dizia ele, com prazer sensual do livro volumoso, sua pirâmide. Livros grandes, extensos, exerciam sobre ele forte fascínio. Louvava um roman-fleuve pelo trabalho físico que dava ao autor. Como estreou tarde, queria escrever muito, sem parar, livros volumosos, piramidais. Sua dedicação à literatura, à sua obra, levou-o a esquivar-se de postos diplomáticos no exterior.
Promovido a ministro de primeira classe, nunca exerceu a chefia de uma embaixada. Preferiu evitar os deveres convencionais da diplomacia, em particular os sociais. Não tinha tempo a perder. E com isto perdia dinheiro, deixava de receber em dólares. E todavia gostava confessadamente de dinheiro. Disse-me que o dinheiro não se destina a comprar coisas, mas, sim, as coisas é que são feitas para se transformar em dinheiro. Viajava com passagens e hospedagem pagas e fazia questão de regressar com algum dinheirinho no bolso. “Viajo para ganhar dinheiro” — gracejava.
Quando se cogitou de seu nome para membro do júri do Prêmio Walmap de romance, perguntou-me se o trabalho era remunerado. Se não fosse, não aceitava. Num almoço por essa época, brincou que o prêmio devia ser distribuído entre os membros do júri… Ao premiado, dizia, basta a honra da láurea e a publicação da obra.
A crer no depoimento oral do próprio Guimarães Rosa, ele não programou Grande sertão: veredas. Quando submeteu os originais de Sagarana a um júri ilustre, e não foi premiado, Graciliano Ramos, impressionado com o escritor desconhecido, escreveu um artigo profético. Dizia que dentro de dez anos aquele mesmo escritor seria autor de um grande romance. Era uma antevisão… Grande sertão: veredas. O artigo de Graciliano está nas suas Obras completas, volume Linhas tortas.
Rosa não imaginava, quando escreveu Sagarana, que escreveria um romance. Grande sertão pegou-o desprevenido. Insinuou-se como conto e de repente avolumou-se, transbordou, resultou na cheia fluvial que conhecemos. Obviamente, Rosa tinha farto material não apenas de memória, mas também e sobretudo escrito, milhares de anotações.
Depois de Grande sertão, continuou a trabalhar, precisava estar empenhado em novos projetos. Parecia convencido de que, se parasse, a morte não o pouparia. Uma vez um jornal mencionou seu nome como possível candidato ao Prêmio Nobel. Pediu-me que, por favor, evitasse associar o seu nome ao Nobel. Por quê? “O Nobel mata” — disse ele, brincando a sério. Esse mesmo temor da morte estava associado à sua posse na Academia. Curiosamente, morreu setenta e duas horas depois de tomar posse.
Quando se candidatou à Academia a primeira vez, disse-me, num almoço no Itamaraty, que se candidatava por duas razões: 1) porque sua mãe só acreditaria que ele era um grande escritor se entrasse para a Academia; 2) porque não podia negar a “glória acadêmica” a sua pequena cidade de Cordisburgo. Estava certo de que seria eleito. Encontrava-me na Europa quando recebi dele o pedido para apanhar o voto de Manuel Bandeira. Bandeira encontrava-se na Holanda e eu na Bélgica.
Manuel, grande admirador de Rosa e particularmente de Grande sertão, imediatamente dispôs-se a mandar-lhe o compromisso escrito. Pronta a carta, perguntou-me se não havia outro candidato e tomou-me a carta para acrescentar-lhe uma ressalva: votaria, sim, em JGR, desde que não se apresentasse a candidatura de outro nome “grande também pelo coração”. Pois tinha se apresentado (e não sabíamos) Afonso Arinos de Melo Franco, outro admirador de Rosa. Afonso Arinos ganhou a eleição. Mais tarde, saudou Guimarães Rosa, por ocasião de seu ingresso na ABL. Afonso sustenta que, pouco habituado às solenidades, esquivo, diplomata que nunca exerceu as funções de embaixador, Guimarães Rosa morreu da emoção que cercou a sua posse. Rosa, já doente há anos, conhecedor do seu estado de saúde, médico que era, morreu também de cansaço.
Tinha chegado sua hora e vez.
Otto Oliveira de Lara Resende (São João del Rei, Minas Gerais, 1922 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992). Romancista, contista, cronista, jornalista. Conclui os estudos primários e ginasiais no internato Instituto Padre Machado, colégio religioso fundado pelo pai, em São João del Rei.

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