Otto Lara Resende
Pudesse eu e diria como o Chesterton: vou para casa escrever um livro. Felizmente o livro já está escrito. É de louvor ao nosso irmão burro. Seu autor é o padre Antônio Vieira, filósofo, ex-deputado cearense, criador do Clube Mundial dos Jumentos. O burro não é réu de crime nenhum, mas está pedindo defesa. Chamo à colação o xará do clássico orador do século XVII. Até no jogo do bicho o burro é símbolo da perfeição — seu número é o três.
O grande Vieira, se duvidar, também defendeu o burro, porque era próprio de seu verbo inflamado defender os pequenos diante dos poderosos deste mundo. Defendeu os índios, numa época em que índio se preava e se matava. Os índios têm hoje muitos advogados, o que é justo. Mas não está certo deixar o burro exposto à chacota geral. O burro, o jerico, o jumento, o jegue, o asno — esse perissodáctilo pacato e amigo do homem desde tempos imemoriais.
Pois senão vejamos. Privatização das estatais? Com a autoridade que ninguém lhe nega (em matéria de empresa, não de burro), Antônio Ermírio de Moraes diz que o programa é de uma burrice exemplar. E não só diz, como procura provar, bisando com experiência o emocionalismo do Brizola. Sem trocadilho, já que falei em bis e Brizola, o senador Bisol acusa o governo de querer passar um atestado de jumentalidade em todos os senadores e deputados, com o tal emendão.
Asneira, a maior asneira, é dizer que os Cieps confinam as crianças — é o que afirma Darcy Ribeiro, no seu estilo veemente. Na jumentalidade está o jumento, como na asneira está o asno. Não sou burrinho de presépio, diz um deputado rebelde. O Congresso não é burro de carga, diz outro, pedindo licença para dormir ao menos uma vez por semana. Nunca o burro esteve tanto em evidência e de forma tão pejorativa.
Tendo merecido a honra de um lugar na gruta da Natividade, foi numa jumenta que Jesus Cristo entrou em Jerusalém. Um espírito radical (e de porco) dirá que, mais do que o papamóvel e o Boeing, é o burro o meio ideal de locomoção adequado a João Paulo II. Simpático e modesto, é uma injúria dizer que o burro é burro. Álvaro Moreyra sustentava o contrário e colecionava burrinhos de todas as partes do mundo. O burro entrou agora no debate nacional como Pilatos no Credo. Também pudera: o governo, que começou “collorído”, está hoje com a cor de burro quando foge…
Otto Oliveira de Lara Resende (São João del Rei, Minas Gerais, 1922 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992). Romancista, contista, cronista, jornalista. Conclui os estudos primários e ginasiais no internato Instituto Padre Machado, colégio religioso fundado pelo pai, em São João del Rei.

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