Liev Tolstói, “A morte de Ivan Ilitch”

J. M. Coetzee

Em 1884, no auge da fama como romancista, Liev Tolstói produziu um estranho documento autobiográfico que, devido a seus comentários polêmicos sobre a religião, precisou ser publicado no exterior. Intitulado Confissão, falava de uma crise espiritual que o autor atravessara em 1877, durante a qual achou que sua vida perdera o sentido e chegou perto de suicidar-se.

Mesmo antes de 1877, confessava ainda, já tinha começado a perder a fé no valor do trabalho artístico e na importância da própria obra. Nisso se distinguia de seus contemporâneos, para os quais o artista deveria suceder o sacerdote como guia moral e espiritual, já que a religião perdera a relevância no mundo moderno. A arte devia ser a nova religião, diziam eles, e as grandes obras de arte, as novas escrituras. Mas Tolstói não conseguia aceitar essas ideias. Como podiam os artistas, que sua experiência apontava como pessoas majoritariamente nefastas e imorais, servir de guias morais para a humanidade?

Ainda assim, apesar das dúvidas que alimentava quanto à sua vocação, continuou a escrever e a publicar, colhendo aplausos e recompensas monetárias por uma obra que considerava particularmente desprovida de valor.

Precisamos pensar duas vezes antes de conceder a Tolstói o direito, que ele reivindica em sua Confissão, de renegar sua obra anterior. O ano de 1877, em que ocorre sua crise espiritual, é também o da conclusão de Anna Kariênina. É inimaginável que o autor desse romance não tenha se dedicado de corpo e alma à sua obra e que, pelo contrário, não reconhecesse valor algum nas páginas que produziu. Confissão é um texto poderoso, com um efeito de sinceridade urgente que arrebata o leitor. Tanto como o autor de Anna Kariênina, é impossível duvidar que o autor da Confissão estivesse comprometido de corpo e alma com a sua composição. Mas o fato de Tolstói, na Confissão, chamar de impostor o autor de Anna Kariênina, afirmando que escrevia de má-fé, não quer dizer que o autor de Anna Kariênina fosse de fato um impostor. Não há motivo para julgar que a Confissão, por sua natureza autobiográfica, contenha uma verdade mais autorizada que a transmitida por um mero romance. De fato, para qualquer pessoa que leve a sério as pretensões religiosas da arte, entre as quais se inclui a crença de que beleza e verdade são a mesma coisa, Anna Kariênina proclama uma verdade ainda mais alta do que a Confissão, pois é de longe a mais ambiciosa das duas obras, de longe o texto mais impregnado de beleza estética. Mas nem é preciso elevar a arte à qualidade de religião para saber que Anna Kariênina não contém nada de falso. Anna Kariênina é sincero de fora a fora. O único ponto de discórdia é o tipo de verdade que o livro conta.

O que Anna Kariênina diz a seus leitores? Qual é, grosseiramente falando, a mensagem do romance? Desde os tempos de Tolstói, essa tem sido uma questão em aberto. Para a vasta maioria dos leitores de hoje, Anna Kariênina é a história de uma linda mulher que troca um casamento sem alegria pelo amor, mas depois é repelida pela sociedade e, em desespero, se suicida. Em outras palavras, o romance fala acriticamente do lado de Anna. Uma variante extrema dessa leitura acrítica vê em Anna (como em sua irmã espiritual, Emma Bovary) uma rebelde contra a opressão da ordem patriarcal, punida afinal com a morte por seu autor do sexo masculino. Entretanto, na leitura do romance que nos conta o próprio Tolstói, Anna renega o marido e a filha e envereda a seguir pelo caminho egoísta da satisfação pessoal, terminando sua vida, previsivelmente, numa terra de ninguém moral. Anna, para os leitores, deve ser um exemplo não de como viver, mas de como não viver.

A crise de 1877, no que diz respeito ao Tolstói escritor e não à pessoa de Tolstói, reduz-se a uma única pergunta de ordem moral: Como devo usar meus talentos em benefício dos meus semelhantes? Por duas décadas Tolstói debateu-se com essa pergunta, tentando uma variedade de respostas, dentre as quais a mais clara e mais simples — embora não necessariamente a mais verdadeira — é que seu dever era trazer para o mundo moderno a essência dos ensinamentos de Jesus, usando uma linguagem inteligível pelo mais humilde dos camponeses. Nesse espírito, quase toda a obra de Tolstói posterior a 1877 tem inspiração cristã, avessa a todo artifício estético.

A primeira produção a incorporar essa formulação ainda recente sobre a arte e a vocação artística foi o conto O amo e o criado (1881), que narra a história de um próspero negociante chamado Brekhunov, que, em pleno inverno, empreende uma arriscada viagem em campo aberto, num trenó puxado a cavalo, para fechar um negócio altamente lucrativo. Apesar das muitas advertências que lhe fazem, Brekhunov persiste em sua empreitada insensata e acaba morrendo congelado.

O “criado” (rabotnik, trabalhador) que acompanha Brekhunov na viagem, um camponês chamado Nikita, antevê o desastre para o qual estão sendo conduzidos pela cobiça do amo — além da incompetência deste como navegador; ainda assim, continua a acompanhá-lo e a obedecer a suas ordens. Só Nikita sobrevive àquela noite em campo aberto, mas não por alguma providência que ele próprio tenha tomado. Num sentido profundo, Nikita não se importa com o que lhe aconteça, entregando-se às mãos de Deus. “Além de amos como Vassili Andreitch (Brekhunov), a quem servia agora, em toda a sua vida se julgara dependente do maior dos senhores, e […] este jamais o trataria de modo injusto.”[1]

Brekhunov é má pessoa, egocêntrico, avaro, imprudente e autoritário. Trata Nikita como membro de uma espécie inferior, no mesmo nível do cavalo que puxa seu trenó, uma criatura para a qual a vida não tem a mesma importância que tem para ele, Brekhunov, homem envolvido em negócios importantes. No auge da nevasca, num esforço para se salvar, ele escapa montado no cavalo e deixa Nikita para trás, apesar de saber que o camponês, vestindo apenas um kaftan gasto e botas furadas, irá provavelmente morrer de frio. Para justificar-se, ele diz a si mesmo: “Quanto a ele […], tanto faz se morrer. Que vida ele tem? Não vai sentir falta da sua vida, mas eu, pela graça de Deus, tenho muitos motivos para viver”.

O cavalo, terceiro personagem do drama, não conduz Brekhunov para o calor e a segurança, mas descreve um círculo e volta para junto do camponês enregelado. E então ocorre algo totalmente imprevisível. Brekhunov abre seu casaco de peles de duas camadas e se deita em cima de Nikita, aquecendo o criado com o próprio corpo. Fica ali deitado até que o dia amanhece, a tempestade amaina e chega o resgate. A essa altura, o amo, com tudo a perder, está morto, enquanto o criado sem importância sobrevive.

A mensagem cristã do conto é cristalina: aquele que se perde se salvará; a misericórdia divina opera de maneira inescrutável. O que transforma O amo e o criado num triunfo artístico é menos óbvio por ser tão paradoxal. Tolstói é geralmente visto como um realista; Guerra e paz e Anna Kariênina são admirados como obras-primas do Realismo. Uma das premissas do Realismo é que toda ação produz consequências, e por isso o romancista tem o dever de enunciar motivações psicológicas plausíveis para as ações de seus personagens. Mas não há razão para Brekhunov sacrificar a própria vida. Seu sacrifício está em desacordo com seu caráter, é implausível e mesmo inacreditável. Mas é implausível ou inacreditável só para a mentalidade laica. Quem tem fé entende que Brekhunov age em desacordo com seu caráter porque ouve a voz de Deus, porque ocorre uma interferência divina em sua vida. Ao envolver Deus como agente em seu conto, Tolstói desafia a base racional e laica do realismo na ficção.

A novela A morte de Ivan Ilitch (1886) é a obra tardia mais conhecida e admirada de Tolstói. Quando a leu pela primeira vez, o compositor Peter Ilitch Tchaikóvski ficou muito impressionado. Em seu diário, escreveu: “Mais do que nunca, estou convencido de que o maior escritor-pintor que jamais viveu é Liev Tolstói […] O patriotismo nada tem a ver com minha convicção sobre a importância imensa, quase divina, de Tolstói”.[2]

Ivan Ilitch desperta esse tipo de reação por causa da impressão que nos dá, pelo ritmo implacável da narrativa e a textura despojada da prosa, de que seu autor perdeu a paciência com as ficções de que tendemos a lançar mão para dar à vida uma feição suportável — a ficção, por exemplo, de que ao nos aproximarmos da morte poderemos contar com o zelo afetuoso da família ou a ficção de que a ciência médica ou a misericórdia divina, ou as duas, podem garantir que nossos últimos dias não se converterão numa tormenta implacável de agonia e pavor.

Ivan Ilitch Golovin é um homem nada notável, um burocrata que compensa o casamento infeliz mergulhando no trabalho. Felizmente, sua carreira floresce; em casa, consegue uma trégua com a amargura da mulher. Então, de uma hora para outra, sem motivo e muito cedo na vida, é acometido por uma doença que ninguém consegue diagnosticar. Não há o que os médicos possam fazer – aos olhos do protagonista, nem mesmo tentam. Abandonado pela família, para quem seu sofrimento é inconveniente e atenta contra o decoro social, vê-se reduzido a enfrentar a morte amparado apenas por seu jovem criado Gerasim, que cuida de limpar seus excrementos e alivia sua dor passando horas sentado com as pernas do doente apoiadas nos ombros. Quando Ivan Ilitch tenta agradecer-lhe, Gerasim dispensa sua gratidão. O que está fazendo por Ivan Ilitch um dia, responde, quando sua hora chegar, alguém há de fazer por ele.

Finalmente, o sofrimento de Ivan chega ao fim. Como a viúva conta depois de sua morte, com um egoísmo característico: “Por três dias inteiros ele gritou sem parar. Era insuportável. Não entendo como ele aguentava […] Ah, o que eu suportei!”.[3]

“A vida passada de Ivan Ilitch foi quase sempre simples e comum, e quase sempre terrível”, lemos no início do conto. As palavras “simples e comum” são do próprio Ivan Ilitch. A palavra “terrível” é de Tolstói e traz a intimação de uma vida de poucas luzes, desperdiçada em projetos fúteis e sem sentido.

Ainda assim, quando chega, a morte de Ivan Ilitch, que parecia anunciar a mesma desolação de sua vida, não se revela totalmente desprovida de clareza. No terceiro dia de seus gritos, ele é “subitamente” atingido como por uma força física e percebe que o fim se aproxima. Seu filho, rapaz assustadiço que passa os dias trancado no quarto, entregue à masturbação, aproxima-se do leito de morte, beija a mão de Ivan e chora. Nesse instante, Ivan tem uma revelação: sua vida não foi boa, mas ainda tem tempo de corrigi-la. Abre os olhos, vê o filho como se pela primeira vez e sente pena do rapaz. Olha para a mulher e se compadece dela também. Tenta dizer a palavra “perdoo”, mas não consegue pronunciá-la. Ainda assim, tudo “subitamente” se esclarece. A dor cessa. O terror da morte cessa. O estertor da morte, as contorções do corpo agonizante ainda continuarão por várias horas; mas já se liberou do mundo.

A palavra-chave, como em O amo e o criado, é “subitamente”. O que ocorre “subitamente” a Brekhunov ou a Ivan Ilitch é imprevisível e ao mesmo tempo inescapável. A graça divina se manifesta e subitamente, de uma vez, o mundo se renova. Nessas duas histórias, Tolstói emprega sua poderosa retórica da salvação contra o ceticismo consensual dos leitores de ficção, que, como Ivan Ilitch em seus bons tempos, procuram nas obras da literatura só uma distração civilizada e nada mais.

(2014)


Fonte: J. M. Coetzee, Ensaios recentes: textos sobre literatura (2006-2017), tradução Sergio Flaksman (São Paulo: Carambaia, 2020).


[1] Lev Tolstói, “Master and Man”, The Death of Ivan Ilyich and Other Stories. Londres: Vintage, 2009. [Ed. brasileira: Senhor e servo e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2009.]

[2] Citado em: Henri Troyat, Tolstoy. Nova York: Octagon, 1980

[3] Lev Tolstói, The Death of Ivan Ilyich and Other Stories. [Ed. brasileira: A morte de Ivan Ilitch. São Paulo: Editora 34, 2009, entre outras.]

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