Ignácio de Loyola Brandão
Quando soube que o Dudu Aspirador, sujeito sessentão, forte e desordeiro, morrera com dez gramas de coca na cabeça, Marc exclamou: “Morreu como um herói”. Aos trinta e três anos, Marc era ainda um garotão de rosto balofo e traços delicados, olhos levemente empapuçados e cabeleira enorme caída para a nuca e orelhas. Daí o apelido, Cabeludinho. Baixo e entroncado. Quase sem pelos no corpo. Um ameaço de barriga que ele sempre encolhia. Seis anos atrás, ele aparecera na redação do jornal, metido num paletó largo de autêntico tweed inglês e calçando uma botinha francesa, de cano bem curto. A turma achou-o meio esquisito. Ficou fazendo estágio, pois então quem quer que chegasse e pedisse passava logo a estagiário no jornal. Cabeludinho, a princípio, não conversava com ninguém, nem se aproximava. Fazia suas reportagens e caía fora, sem muita falação. Tinha jeito suave, mãos quase etéreas, maneiras delicadas, fala mansa e ligeiramente efeminada; ele se conduzia meigamente em tudo. Duvidou-se de sua masculinidade, até a noite da festa. Estávamos todos, pois quem oferecia era o diretor do jornal. O altão se engraçou sobre a moreninha que acompanhava Marc. E fingiu não tê-lo visto, ou ainda teria visto, mas não se importado. A verdade é que, ao terceiro ou quarto olhar, Marc levantou a cabeça: “qual é o miau, aí, meu velho?”. O outro sorriu, de cima, com desdém: “não é contigo não, meu chapa, é com a moreninha! Não gosto de veado”. Não chegou a terminar. Nem tão cedo articularia palavra, pois Marc, repentinamente, antes que o outro esboçasse um gesto de defesa, partia, num jab potente, sobre o rosto do altão. Que por estar terminando de falar, ou por ter colocado a língua entre os dentes, teve dela pedaço arrancado. Não só a língua sofreu, porque Marc não se limitou a um murro. Seu braço, entroncado, desceu sobre o queixo, estômago e fígado, e o grandão caiu, supercílio partido e nariz sangrando. Se bem que, até então, não tivesse havido desrespeito, mas simplesmente distância, daí para a frente, o pessoal começou a olhar seriamente para Marc, não subestimando suas qualidades.
Já se haviam passado três meses e Marc fora alçado a repórter; e era bom. Interessava-se pelas coberturas, falava francês, escrevia bem, ou suficientemente bem para dispensar copy desk para sua matéria. Como todo mundo, odiava copidescagem que alterasse seus leads e títulos. E quase arrebentou com um que se meteu a reescrever sua reportagem sobre a chegada de um presidente a São Paulo. Ao passar para full time, Marc veio trabalhar comigo, que estava secretariando um caderno de cinema, teatro, páginas femininas, reportagens leves. Era a parte cobiçada do jornal, pois sempre tinha matéria com mulher e, das garotas que saíam na capa, muitas eram papadas, em troca da promoção. “Aqui vou me dar bem, pois esse troço de generalidade e divertissement me interessa; lá embaixo eles levam a sério o miau; aqui, vai no mole.” O jornal estava no auge, Jango no poder, entrava dinheiro de todo lado, abríamos sucursais pelo Brasil afora, era um delírio de gente, edições, euforia generalizada, passava-se vinte e quatro horas na redação, no maior movimento. E Marc também. “Esta espelunca metida a bacana não passa de pé de chinelo. Mas é engraçada.” Fizera amigos entre a turma, alguns bons amigos, com os quais saía, conversava, jantava. O que eu sentia, porém, é que Marc punha distância entre ele e os outros. Escolhia amizades, selecionava com quem conversar, quem devia pertencer ao seu grupo. Nós nos dávamos bem, penso que por causa do trabalho, pois ele era cheio de ideias e estávamos sempre a discutir, o que tinha nos aproximado bastante.
Quando procurava apartamento, certa tarde de domingo ensolarado e manso de verão, e rodávamos pela cidade, buscando prédios onde houvesse a tabuleta “aluga-se”, Marc falou, pela primeira vez, de Carlucho. Seria o seu sócio no apartamento. Apenas para usá-lo como um come-quieto. Carlucho entraria com metade e Marc com o resto. Nessa época, Marc dizia estar com vergonha, pois vivia, praticamente, à custa do pai. “O velho não é mole não, enche o saco, diz que está na hora de eu arranjar a vida, afinal qualquer cara de trinta anos já é independente. Decido ir embora, fico uns dias fora, lá vem ele mandando eu voltar pra casa. Agora resolvi, vou ter um negócio meu, pra chegar a hora que quero e ninguém encher o saco por causa dos meus porres. A merda é se sustentar sozinho com o que a gente ganha nesse jornal.” Na verdade, não tinha, ou não sabia, a razão suficiente para deixar sua casa. O pai tinha algum dinheiro e vivia à base de um nome que não tinha quatrocentos, mas duzentos e poucos anos, o que lhe bastava para possuir orgulho e ter a cabeça erguida diante dos outros. Falava de Carlucho. Que tinha dinheiro às pampas e não ligava a nada. Carlucho não só era imensamente rico, “se bem que meio pé de chinelo, sabe? O avô foi um desses italianos que desceram por aí e começaram abrindo pizzaria. O pai dele é que melhorou, abrindo uma indústria depois de 1955, quando tudo que se plantava no ramo era lucro certo. Hoje domina as autopeças”. Carlucho era um caso à parte na existência de Marc. Sua admiração pelo outro excedia tudo. “Ah! Você precisava só ver os baús que ele desprezou. Nem dava bola! Uma vez arranjei pra ele uma americana que não era mole. Ela veio prum concurso hípico e trouxe seis cavalos num Caravelle particular. Bonitinha, só que tinha os dentinhos um pouco pra fora. No dia em que íamos jantar todos juntos, Carlucho foi me buscar em casa, começou a beber uísque, acabou, entrou num Cointreau, entortou o litro e dormiu até o dia seguinte. A americaninha ficou puta da vida, sabe como são os americanos, tudo no certinho, no legal, senão não funciona. Carlucho não se incomodou de perder aquele tutuzinho. Ele só quer saber é de beber e engrossar em boate. Enche a cara todo dia. Aliás, enchemos.” Marc não se esquecia do plural. Enchiam a cara todos os dias. E todos os dias brigavam. Marc porque era forte e topava qualquer parada. Sabia onde se metia. “Malandro bobo é aquele que entra pra apanhar; com papai aqui não, se o negócio não anda muito mole, não estou lá.” Também não queria dizer que fosse covarde e só entrasse em parada fácil.
Já apanhara muito pela noite afora. Vivera memoravelmente, ele mesmo dizia, em lutas enormes que tinham marcado seus anos através da noite. Brigas em boate, em restaurantes, nas ruas, em frente aos bares, calçadas, lutas com leões de chácara, valentões, malandros, namorados de ex-namoradas suas, com rivais no amor e na bebida. E brigas, quantas e quantas vezes, simplesmente pelo exercício, para se colocar em boa forma, “pois o bom brigador é aquele que está sempre atualizado com a técnica mais moderna de arrebentar a cara do outro”. Sabia boxe. Treinara durante anos, a partir dos 17. Subira ao ringue várias vezes e não chegara a se profissionalizar. Nem sequer tentara. “Negócio de pé de chinelo. Vê lá se eu ia subir pra brigar com um negro, na frente de todo mundo, pra não ganhar nada.” Fomos, uma vez, a uma academia, ele ia entrevistar Éder Jofre, que se preparava para lutar em Los Angeles, não me lembro contra quem. Eu entrava pela primeira vez numa academia de boxe e olhava curiosamente os tipos que treinavam, esmurravam sacos, pulavam corda, faziam ginástica, se exercitavam no ringue. Marc, no entanto, mudou, a partir do instante em que transpôs o umbral. Pareceu, subitamente, se penetrar daquele cheiro de homens suados e linimentos e da atmosfera de violência que impregnava, com ferocidade, o ar. Ergueu a cabeça e caminhou, com familiaridade, entre os tipos, parando aqui e ali, até chegar frente a um pretinho que, no ringue, esmurrava, feroz, seu sparring. “Pega bem esse crioulo. Preto é desgraçado pra essas coisas. Nasce sem osso e é todo mole, vai para qualquer lado. Um preto assim é que me quebrou, entortando minha carreira.” Naquela noite, contou, os dois tinham subido ao ringue, ferozes. Marc disposto a mostrar que sabia esmurrar e, ainda, dominado por uma espécie de sadismo que o transformava, assim que começava uma briga e o levava a esquecer tudo em volta. Alguma coisa se deslocava dentro de sua cabeça e o mecanismo não era mais normal. Enfurecia-se e agredia com toda força de que dispunha. Era como se lutasse contra o mundo inteiro e ninguém, amigos, nem nada, existisse ao seu redor. A luta com o preto devia ter importância, ele não explicou por quê. A partir do segundo round começou a apanhar; apanhou sem cair na lona, sentindo o sangue escorrer e ele ir se partindo por dentro, no peito, na cabeça, em toda parte. Não havia dor, apenas um entorpecimento total e o sentimento de que estava perdendo, apanhando, seria jogado ao chão dentro em pouco; e nada podia fazer contra isso, senão suportar, de pé, até o fim, o martelo que lhe socava continuamente, ele já com a defesa aberta, incapaz de se fechar, de evitar os golpes. Foi para um hospital e considerou-se liquidado para o boxe. Não para as brigas, no entanto.
Eu estava na mesa, ao seu lado, no Juão, na madrugada em que Luís Cláudio, amigo chegado de Marc, agrediu o fotógrafo de Manchete que andava a fazer reportagens sobre o bar. Mal o flash estourou, Luís Cláudio partiu sobre o jornalista, apesar de Marc tentar segurá-lo; e os amigos do fotógrafo vieram. E eram numerosos. Marc deixou-os chegar bem perto. Recebeu o primeiro com uma cabeçada no nariz e o cara se abaixou, gritando de dor. O cabelo de Marc se espalhou; ele não tirava o paletó. Se afastava um pouco, deixava um espaço livre à sua frente e erguia o pé, facilmente, à altura do rosto rival. Era a capoeira, aprendida em Salvador, com mestre Pastinha, num curso do qual ele se orgulhava; uma enorme temporada na Bahia apenas para isso. Seu rosto mudava; e vinha a transformação toda, por dentro. Deixava revelar a volúpia em massacrar, em descarregar o braço com toda violência sobre o outro. O termo era exatamente este: descarregar. Eu o vi não somente nessa noite, mas em outras; em dezenas de vezes nas suas andanças solitárias de paladino sem causa, vingador sem justiça, de rebelde sem saber. Sair com Marc era antever um enorme rolo antes do fim da noite. Pois ele começava a beber em jejum e quando resolvia jantar já estava num porre total e, no porre, nada o impedia de reagir a um olhar, frase, sorriso, mal-entendido, dos pés de chinelo. Estes eram o resto do mundo e nada escapava à sua definição, exceção feita aos sólidos nomes e às bem montadas fortunas que dominavam São Paulo.
Quando tomava o porre surgia o mundo contra o qual Marc lutava. Um universo que não tinha nada de especial à primeira vista. Era agente de todas as noites, boêmios, jornalistas, prostitutas, vedetinhas do rebolado, pintores, bailarinos, bichas, garçons, maîtres, donos de boate, leões de chácara, polícia, vagabundos. As coisas se solidificavam numa só; fundiam os contornos; tornavam-se iguais; toda aquela gente; eles se resumiam, sintetizavam-se numa frase, condensação de sua maneira de ver as coisas: “pés de chinelo”. Eu o observei, atentamente, nos segundos que antecediam uma briga. Seus olhos se afundavam no rosto, praticamente desapareciam; ele surgia com a cara mais balofa e tremia. Não havia hesitação, nem por um momento. A impressão era que Marc se contorcia todo, se espremia por dentro, como a tentar dominar algo que o remoía, ao mesmo tempo que se erguia. Apenas instantes. Este erguer-se era questão de instantes, porém eu quase tenho certeza de que uma eternidade se desenrolava em seu interior.
Ao vê-lo de pé, as mãos crispadas, ou erguendo-as, preparadas para o murro, ou ainda agarradas à mesa, adivinhava-se que ele tremia e em sua mente se desenvolvia aquele processo de mutação do mundo exterior; o perigoso mundo que, ele imaginava, o rejeitava. O processo, pensava eu, terminava quase suavemente e quando Marc se atirava para a briga, começando sempre pela cabeçada no rosto do adversário, do provocador ou provocado, então, já estava calmo e em completo domínio de cada músculo, nervo, quase de cada célula. Precisava-se inteiro na luta; agia como gato, pulava com agilidade, um ser feito de mola. Adquiria o ar assustado de um bicho caçado a se defender contra a intrusão do caçador, do inimigo que devia matá-lo, que fora colocado no mundo para exterminá-lo. Seus gestos eram mansos, firmes, estudados e decididos. Provava o rival, espicaçava-o, atormentava-o, a medir as forças, a fim de regular as suas. Eu o vi ganhar muitas brigas apenas com o handicap da cabeçada que partia narizes, cabeças, supercílios. Apanhava também. Certa vez, dentro do próprio Juão, jogaram-no ao chão e partiram seis costelas com pontapés. De outra, um cara investiu com uma garrafa quebrada na borda da mesa (ele odiava esse tipo de brigador, “pé de chinelo de taxi dancing”) e por pouco não lhe arrancou o olho direito. Marc acabou com o sujeito, enfiando o molho de chaves entre os dedos, de modo que as linguetas salientes funcionassem como soco-inglês, de pior efeito, pois cortavam a cara, se o murro fosse bem dado. Respeitava os mais fortes, sabia quando entrar na briga, quando ela era sua e não fazia provocação atoamente.
Marc ia com Francis, o colunista de música popular, garotão de 21 anos, louco para encher a cara e arrumar desordem, mas boa-praça. Iam no carro, já de cabeça alta, numa noite de maio em que, por alguma razão estranha, quase todo mundo na noite andava de pá-virada, aos porres e brigas. Um Volks com seis sujeitos passou ao lado, emparelhou, Francis xingou de veado o que dirigia, o cara respondeu qualquer coisa, Francis retrucou. Mesmo sentado à direção, o cara do outro carro quase tinha que se curvar, tal seu tamanho e entroncadura. Marc avisou, “não compra briga que não pode sustentar; não entra nessa parada que eles são em seis”. Francis, cara cheia, mandou o outro tomar no cu, eles fecharam o carro de Marc e desceram. Até Francis, veio um só, “o que é, garoto? O que há?” e foi abrindo a porta, Francis saltou, levou um tapa na cara; nem murro foi; um tapa violento que quase o fez voltar para dentro. Ao cambalear, ele chamou Marc, “vem me ajudar”. Marc não se moveu, “não compro essa briga, se entro, os outros seis entram, briga você sozinho com o seu cara”. A surra de Francis não foi muito grande porque o outro teve dó, deu-lhe um par de socos e caiu fora. Marc não moveu um dedo, “quando uma puta velha te avisar, você obedece; tenho quinze anos de janela, e quando mandar te aguentar, te aguenta, porque a coisa não vai ser mole”. Francis deixou de falar com Marc uns tempos, mas logo voltou, porque era louco por um borogodó, estava sempre metido em briga e achava Marc o máximo.
Com o tempo, Marc se incluiu no jornal entre aqueles que a redação chamava “os intocáveis”. Era meia dúzia de repórteres especiais, subordinados diretamente à chefia de redação e designados para importantes coberturas, ou reportagens de fôlego. Marc se especializara em side stories de entrevistas ou grandes acontecimentos, escrevendo com humor e leveza. Fazia nome na imprensa, era conhecido. Continuava trabalhando, ainda, em meu caderno, de modo que, por essa época, eu o conhecia razoavelmente. E digo razoavelmente, porque esse era o máximo a que Marc se permitia nas suas relações. Nos anos todos que passamos juntos, ele conservou sempre uma barreira, mesmo para os mais chegados.
Todos os dias, pelas duas horas, quando o pessoal começava a chegar, sentávamo-nos em volta da mesa grande na redação, lendo os jornais do dia, telefonando, conversando, esperando serviço, jogando palavrinhas. Nunca havia nada a fazer até três horas e era nesse momento que a gente ficava sabendo as coisas acontecidas na última noite, e se falava das meninas, se gozava os outros jornais, principalmente os da direita. Muitos dos casos de Marc, de suas aventuras e sua vida foram desfiados nessa hora de farniente que antecedia o espalha comandado pelo chefe de reportagens. Era a última briga, a mais recente engrossada, o porre do Carlucho. “Ontem foi um sarro daqueles. Saímos com duas gatinhas muito linha de frente. O pai delas tem nota de bilhão pra cima. A mais bacaninha se gamou pelo Carlucho. Também, com aquela pinta, não é sopa. Fomos no Djalma, larguei uma nota de cinco mil pra cima do maître, cada vez que passava em frente à minha mesa, indagava se tudo estava bem, nunca se esquecendo do: ‘satisfeito, Doutor Marc?’. Só o dinheiro pode te dar essa sensação de dono das coisas. Quem tem manda e pode pisar quem quiser que todo mundo vem te lamber, entendeu? No fim, assinei a nota, Carlucho distribuiu gorjeta pra todo lado. Fomos pro Juão, as meninas queriam ir pra casa, estavam vendo as coisas meio tortas. Na hora de assinar, o Cotrim não queria deixar, disse que eu tinha cento e sessenta contos na pindura, me deixou numa situação. Eu ia partir para a briga, mas o leão de chácara lá não é mole não. Se não fosse isso, hoje o Cotrim estava mandando o cordão pela rua, com muito acompanhamento. As meninas ficaram assustadas, pediram pro Carlucho levá-las embora, o desgraçado saiu sem me esperar. Chegou na esquina — ele foi em casa me esperar, só pra contar isso —, meteu a mão na perna da gatinha, quis dar um beijo, ela bronqueou, levou a mão na cara. Você não tem buraco, é isso, disse Carlucho. A coitada era virgem da cabeça aos pés, e ainda foi expulsa do carro, no meio da cidade, ficaram soltas na madrugada.”
Se eu tentasse contar todas as estórias de Marc, estaria desenvolvendo variações em torno do mesmo tema. Em volta da mesa, gostávamos de provocá-lo contra Adones, o redator esportivo, metido a brigas e também firme em qualquer parada. Adones tinha sua dose de coragem, ou bravata, não sabíamos bem. Só que não recuava diante de um embate, bom ou mau, fosse ganhar ou perder. A turma tinha gana especial pra ver uma luta entre os dois. Adones tinha seus 45 anos e fora boxeador na juventude e também um muito bom brigador. Era um tipo curioso e não havia assunto que não conhecesse. Era um sujeito grande, careca e bonachão que gostava de futebol, boa comida e luta livre. Nós provocávamos constantemente, esperando o grande encontro. Até que Marc, dentro da própria redação, desafiado, amassou-lhe o chapéu, botou o pé na sua barriga e o obrigou a pedir água.
Logo em seguida a ter publicado uma reportagem contra uma família de importantões que andavam no noticiário policial, por causa da mulher de um deles que fora internada como louca, depois raptada do hospício pelos amigos, num bode danado que não saía da primeira página, Marc foi procurado por uns tipos estranhos. Não estava. Os caras esperaram, depois se foram. No dia seguinte, ele surgiu na redação com equimoses por todo rosto, mancava e tinha o braço destroncado. “Me acertaram; saí daqui, na avenida Brasil me cortaram, me tiraram do carro.” Tinham lhe batido à vontade, era noite, a avenida deserta. “Mas conheço uns deles, estão sempre no Frevinho. Não vai ter miau comigo. Acerto eles, um por um. “E se algum desaparecer, vocês sabem.” Desde então passou a usar, no lugar da cinta, entre os passantes, coberta pela camisa esporte, uma corrente. Dessas grossas correntes que nas lambretas fazem ligação motor à roda traseira. “Cancha internacional, velhinho. Esses pés de chinelo vão aprender com o papai.” Um cowboy no oeste, com suas 45 nos coldres, não se sentiria mais confiante e seguro. Marc, aos vinte e dois anos, fora morar em Paris. Desfrutava o resto de dinheiro que o pai tinha. Foi para estudar, mas largou o colégio, misturou-se aos bandos que vagabundeavam pela Rive-Gauche. Unia-se a grupos de estudantes, à esquerda radical ou aos fascistas e partia para grandes incursões contra outros, em comícios, manifestações, conferências. Não tinha simpatia por esquerda, ou direita. Não tinha a mínima convicção política e ria de nós, ou daqueles que defendiam o jornal e sua linha. Nos dois anos que passou em Paris não esteve senão com desordeiros e brigadores. Era seu elemento. A gente que compreendia, gostava e admirava. Se um tipo caía, derrubado por um bom murro, Marc o respeitava. Odiava a polícia, a farda, qualquer tipo de militar. “Uns putos, no mundo inteiro são iguais, só sabem bater de revólver e cassetete e protegidos em grupos.”
Nas incursões pela Rive-Gauche, nas epopeias dos seus vinte e dois anos, ele admitia ter tido mais coragem, ser mais louco, não ter medo do sangue, além de brigar pelo prazer, pelo gozo que lhe trazia e quanto maior o litígio, mais interessante, e quanto mais pessoas estivessem envolvidas, maior brilho e apoteose. Aprendeu com eles o truque da corrente. Atravessavam a cidade, a fim de dissolver um congresso comunista, ou um comício fascista. De bota, com salto duplo para bater no peito do adversário e jogá-lo por terra. Em lugar de cinturões, as correntes de lambretas, que partiam cabeças, rostos, braços, aleijavam. Havia um manejo especial, para que funcionassem, e não cortassem a mão e também não batessem e voltassem, ferindo aquele que a manobrava. Durante meses, Marc andou com a corrente ao redor da cintura, procurando seus agressores. Nunca os encontrou; ou, se encontrou, nada fez, nada disse.
Nesse tempo, no jornal, existia Celina, uma repórter bonitinha. Morena, muito magra, dessas magras de manequim elegante, cabelos compridos e pretos e óculos de grau, enorme. Era engraçadinha e a turma a chamava pelo apelido de Memeia, a bruxinha da Luluzinha. Marc é quem dera o apelido e ela sabia, era carinhoso. Celina saía muito com Marc. Das moças que conhecíamos era a única que se aproximava realmente dele e o tratava com certo carinho. Tinham sido namorados. Era o que corria, mas eles nunca afirmaram ou desmentiram. Fora mesmo Marc quem a trouxera para o jornal, tirando-a da escola de jornalismo. Eles se conheciam de antes. Das primeiras noites, quando o Juão Sebastião Bar nascia e era só movimento e surgia o twist em São Paulo e todas as bossas ali eram admitidas, chegava-se a rezar o terço no meio de um animado samba. Saíam juntos. Ela explicou mais tarde que não fora bem namoro. Achava-o tão triste e solto no mundo que se interessara por ele. Um homem com cara de garotão que parecia frágil e escondia alguma coisa por trás da vontade de brigar. Nunca dera vexame com ela, ou com suas amigas. O grupo de Celina era pequeno, três ou quatro pessoas. Marc dera em cima de Elory, garota mignon, loirinha, de sorriso enormemente aberto, iluminando as coisas à sua volta. Saíra com ela uma vez e, depois, Elory tivera medo, ele bebia e falava em quebrar tudo, virar a mesa, acabar com os “pés de chinelo”. Elory não deixou Marc por deixar. Simplesmente, disse, era impossível estar ao seu lado gostosamente, desfrutando a companhia de um homem em quem se está interessada. Primeiro, era nele a vontade, mais que vontade, necessidade compulsiva, de ser alvo de atenção, a todo instante. Vontade de ser dono, reconhecido como senhor, como um importante no mundo e que nada contasse, além dele. Ficava aflito e desesperado se descobriam que não era exatamente uma pessoa acima das outras, pois, dizia, podia não ter o dinheiro, mas o nome importava muito na vida de um homem. O rompimento com Elory deu-se com razões das duas partes. Marc soube que ela não tinha dinheiro e o pai era um funcionário graduado no Ministério da Fazenda, somente isso, nada além. E ele procurava um baú. “Nenhum dos homens com quem saí me deixou tal sensação de insegurança”, confessou ela a Celina. “Eu nunca sabia o que ele ia fazer no instante seguinte. Sair com ele era ter medo, era participar do seu medo, ele vive assustado”.
O episódio Elory passou e, ou foi esquecido, ou recalcado, uma vez que nunca se sabia com Marc como andavam as coisas, se ele sofria e sentia. Jamais houve queixa. “Agora tenho uma menina legal”, anunciou Marc, num sábado que tínhamos sido convocados ao jornal, por causa de uma greve geral. Lá estavam secretários, fotógrafos, copy desks, gráficos, todos à espera de que a greve explodisse numa tragédia, pois os operários tinham sido bloqueados pela Força Pública na sede do sindicato, não queriam sair, e os soldados iam entrar e tirar, a pau, o pessoal. A menina, continuou ele, vinha do interior, mas tinha cancha de Europa, um tu tu sem fim e ia bem para seu lado. Saltava satisfeito no meio da redação e aceitou, alegremente, a incumbência de coordenar a equipe que cobriria a greve. O pau já começará a comer, a Força Pública tinha conseguido invadir a sede, baixavam a madeira, prendiam, havia mais de 16 feridos. Marc entrou num bolo de pessoas, soldados batiam, o sangue dele ferveu quando viu o fotógrafo do nosso jornal ter a máquina arrebentada, o filme aberto, e ainda levar cacetada. Partiu sobre o guarda; para apanhar. Fomos buscá-lo na detenção do Hipódromo, onde passou cinco dias, sem que tivéssemos conseguido localizá-lo. Sujo, barbudo, com o saco cheio, xingando os guardas, “pô, esses pés de chinelo de merda me meteram numa cela sem nada, sem privada, sem água; eu acerto um, ah, se acerto”. Éramos quatro para acalmá-lo, “sempre disse que o negócio de polícia é arreglo com puta, por que fui me meter? Ainda mais pra defender pé de chinelo”. Estava irritado porque perdera o encontro com a namoradinha nova. Dias sem telefonar, sem se ver. “E a menina é importante pra mim, puxa como é, vocês nem sabem! Desta vez saio desse negócio todo!”
Perdeu a namorada por outra razão. Em cinco dias ela se mandara para outro e Marc, uma noite, marchou até sua casa, bateu à porta, veio a empregada, depois a menina. Quando ela chegou, ele encheu a boca e largou uma escarrada no rosto surpreso. Os golpes recebidos na greve tinham-lhe abalado o fígado deficiente por causa dos porres. Porres que se sucediam há anos e tinham se tornado parte de sua vida, assim como a ressaca, a dor de cabeça no dia seguinte. Fígado semidestroçado que batidas de cassetete, socos, o dormir no chão da cadeia, tinham tornado incômodo. Marc vivia amarelado, e sua disposição não era a mesma. Pouco antes de primeiro de abril, revelou-se fotógrafo. “Pô, eu sabia fotografar há muito tempo, é que aqui neste jornal nunca se estimulou ninguém, nem eu ia gastar filme meu.” Quatro vezes por semana, a capa do caderno B era sua. Interessava-se, discutia com os fotógrafos, vivia cheio de revistas, procurava, estudava cortes, metia-se na diagramação. Tinha encontrado uma coisa que se colava a ele.
Dias antes do golpe, quando todo mundo falava em Jango, Exército, revolução, pelas seis horas da tarde, Marc olhava, como fazíamos habitualmente, o povo nas filas de ônibus que se estendiam em frente ao jornal. Operários, comerciários, funcionários públicos, vendedores ambulantes, jornaleiros, milhares e milhares de pessoas. Não era olhar de desprezo, que nunca teve por ninguém. Era uma espécie de surpresa e compreensão de ver que aquela gente vivia e andava e continuava apesar de tudo, e tinha suas alegrias, e amigos. “Olha aí o povo que vocês defendem. A generalada está com comichão no rabo fazendo revolução contra esse povo. E os pés de chinelo não ligam. Nem contra, nem a favor. Se cagam. Vocês também se cagam, vocês de esquerda, intelectuais. Todo mundo fala em povo e ninguém quer ser povo. Vocês vão se foder, porque o negócio todo vai virar. Já me avisaram, os amigos da família, pra deixar o jornal, porque vai ser fogo.”
Continuava a sair à noite. Sua pele era cada vez mais pálida, seus olhos amarelos, um amarelo só dentro da cara, assustador. Bebia. O pessoal mandava obedecer ao médico, ele tinha feito exame, o fígado ia se arrebentar. “Melhor. Melhor apodrecer moço, que velho é uma bosta.” O jornal foi fechado após primeiro de abril, com os militares no poder. Marc não apareceu por vinte dias nos encontros que a gente mantinha, na casa de um amigo, acompanhando a situação. E uma manhã, acordou três manhãs depois. Setenta e duas horas inconsciente. Não teve forças para se levantar da cama, “vou tombar como pé de chinelo, antes caísse com um soco na cara”. Morreu pedindo que tomássemos um porre geral no Juão.
Fonte: Melhores Contos de Ignácio de Loyola Brandão

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