Descrição
“O sinistro, o inquietante e o perturbador são elementos nem sempre fáceis de encontrar nas correntes predominantes da literatura brasileira contemporânea: e ouso dizer que nos fazem falta. Em O lugar incompreensível, Renata Ferri não apenas explora temas e efeitos que escapam às trilhas repisadas, como também o faz com as mãos seguras de quem conhece o seu ofício. Neste livro, o leitor encontrará as fábulas de um Brasil familiar-estranho, em que o avesso das coisas nos espia por frestas que nem sabíamos existir — e conhecerá uma autora capaz de dizer o indizível sobre nossas noites e nossos dias.”
José Francisco Botelho, do Prefácio
“Entre incêndios inexplicáveis, outros muito explicáveis em labaredas que não deixam o olhar se desviar, espirais de loucura e paranoias, cadáveres alados, rituais distópicos e invisibilidades que se invertem ao ponto de maldições, em O lugar incompreensível Renata Ferri cria um cotidiano todo de mitos admiráveis e seus instantes de eternidade.”
Rodrigo Garcia







João Rosa –
O lugar incompreensível tem 9 contos: I Have to Live in Rio, Pássaros, Marisa, Pedrada, Ritual, Olfato, A síndrome, Piromaníaco e Olhos vistos.
Olfato é o meu preferido e o que melhor sintetiza o livro.
A narradora e protagonista está se divorciando de André, um alcóolatra. Ela nos diz que houve vários erros ao longo do relacionamento, mas um foi o fator decisivo que, desde o início da relação, o fadava ao fracasso: ela não gostava do cheiro dele. O bêbado foi morar com a irmã; a protagonista ficou sozinha. Meses depois, ela fica sabendo que uma tia também se separou, ou melhor, foi abandonada pelo marido, que a trocou por uma novinha.
As personagens reconhecíveis são várias: o homem com “caspa insistente”, “oleosidade na testa”, “cheio de espinhas que não deixava cutucar”; os sul-americanos no Canadá que “cobriam o corpo com tatuagens de temática indígena para que não achem que desprezam tanto assim a terra originária”, etc.
As situações familiares também evocam coisas que já vivemos mil vezes: a dona da casa que vai enchendo o café de açúcar sem nem perguntar a preferência da visita, a tia que dá salgados mas não empresta potes pois sabe que não irão devolvê-los, o adolescente que se afasta de uma obrigação com uma “resignação preguiçosa”.
Mas seria pouco elogiar esses achados e anedotas. O ponto específico desse e conto e do livro é que os achados e anedotas são ligados de uma forma engraçada e triste que nos leva a rir de soslaio, enxugando as lágrimas nascentes, como acontece após os causos e piadas contados nos enterros ou nas visitas de consolo a um amigo enlutado. Eles nos fazem pressentir que por trás das banalidades haja algo talvez sublime, talvez grotesco, que talvez nos satisfaça ou nos decepcione, mas que certamente é grave e sério, como a pergunta que fecha o conto: “O que faz despertar dentro das pessoas o ímpeto de parar de se comportar de maneira destrutiva e lamentável?”.